O que podem ter em comum um produtor de ferramentas de metal duro de Albergaria, uma farmacêutica de Coimbra, uma empresa de engenharia de pontes de Matosinhos e um fabricante de componentes de Barcelos? O facto de se distinguirem pela identidade inovadora e pela presença de sucesso em mercados internacionais. Palbit, Bluepharma, Berd e Celoplás - é destas empresas que se trata - têm no currículo um percurso internacional de exceção e são algumas das empresas distinguidas com o Prémio PME Inovação, da Cotec Portugal, ao longo dos últimos 18 anos.
O facto de o cliente ser visto como parceiro de inovação é outro traço comum às quatro empresas. "O cliente é o nosso parceiro número 1", assume João Cortez, diretor-geral da Celoplás. "Porque nos lançam desafios todos os dias temos que aumentar constantemente o nosso conhecimento, temos de ter laboratórios capazes, ligações com instituições que nos podem complementar naquilo que não são as nossas atividades core", explica o responsável que admite que a empresa mantém clientes "menos atrativos" do ponto de vista do volume de negócios, pela importância que têm no que toca à inovação. "Os desafios que nos lançam quer ao nível dos novos materiais como dos novos componentes, altamente complexos, obrigam-nos a refletir e a redirecionar a nossa estratégia para o futuro", diz.
"Para criar é preciso falta de bom senso, para implementar é preciso muito bom senso. A inovação exige duas abordagens muito diferentes e, para a Berd, a inovação tem de resultar em valor substantivo para os clientes e melhoria de resultados", refere, por seu turno, Pedro Pacheco, CEO da empresa. A presença internacional e o conhecimento que daí advém são, na opinião do responsável, outra das mais-valias desta empresa de engenharia de pontes e que se orgulha de ser a empresa do seu segmento que mais tem crescido a nível global nos últimos 12 anos. "O facto de termos projetos em cinco continentes faz-nos aprender muito. Em cada país existem práticas, culturas e conhecimentos diferentes. Termos projetos em muitos pontos do mundo e estarmos atentos ao mercado tem um impacto grande no nosso pipeline de inovação", assume Pedro Pacheco.
"A única forma que temos de crescer sustentadamente ao longo do tempo é através da inovação: agregando valor aos produtos, diferenciando-nos da concorrência. Para isso temos de agregar características inovadoras ao nosso produto ou ao nosso serviço. E a única forma sustentável de crescer no tempo e com repetibilidade é via inovação", explica Jorge Ferreira, CEO da Palbit, que sustenta a afirmação numa experiência de mais de cem anos. A Palbit foi fundada em 1916 e, para o responsável, é o caráter inovador que explica a sua longevidade. "Uma empresa tem de ser continuamente inovadora para chegar a centenária. Porque ser o mais barato ao longo de um século é qualquer coisa completamente impossível. A única coisa que resta é a empresa e a equipa serem inovadoras e saberem-se reinventar ao longo do tempo", diz.
Na verdade, nenhuma das quatro empresas vê vantagens numa distinção pelos baixos preços. Quando, há cerca de duas décadas, a Bluepharma foi confrontada com a escolha entre apostar na diferenciação pelo preço ou pela inovação, a escolha foi evidente. "Tínhamos dois caminhos: ou continuar uma empresa industrial e ir para o oceano vermelho da competição pelo preço, ou introduzirmos algum conhecimento e inovação. E fomos por esse caminho, que foi mais difícil mas mais sustentável: criámos núcleos de investigação e começámos a ter portefólio nosso para licenciar a empresas terceiras", recorda Paulo Barradas, CEO desta farmacêutica de Coimbra a atuar na área dos medicamentos genéricos, que hoje exporta 90% de uma produção composta maioritariamente (95%) por produtos desenvolvidos internamente.
Para Paulo Barradas, a criação de um departamento de inovação interno apresentava-se como fundamental numa empresa destinada a colaborar de perto com universidades e centros de investigação. "Estamos num setor tecnológico, em que o conhecimento é fundamental, e criámos muito cedo um departamento de inovação porque percebemos que para trabalhar, conversar e chegar a acordo com as universidades tínhamos de ter gente cá dentro a falar a mesma linguagem", conta. De um núcleo inicial de quatro investigadores passaram para a atual equipa de 150 cuja missão é "surpreender permanentemente o cliente".
A cultura de inovação não se limita ao núcleo de investigadores. "Estimulamos continuamente os nossos colaboradores e retemos o talento com esta ambição de nos tornarmos uma empresa cada vez mais inovadora", afirma Paulo Barradas para quem "só gente apaixonada, muito focada e comprometida com a empresa é que tem a capacidade de contribuir para a inovação".
Também para João Cortez é essencial o envolvimento da equipa. "Aquilo a que damos muito valor neste momento é à partilha e aos inputs que vêm desde o shop floor, com ideias, com propostas de inovação. Mais de 90% são apenas propostas de melhoria e 1 a 2% são propostas inovadoras. E para isso criámos o Prémio Criatividade, que é um prémio interno anual", explica o responsável pela empresa de componentes, para quem o retorno da aposta em inovação é evidente. "O ROI (return of innovation) é medido de uma forma muito simples: em média 10% dos nossos projetos atingem o seu fase out todos os anos. Para continuarmos a crescer temos de encontrar entre 10 e 15% de novos negócios, de montante equivalente, para podermos crescer de forma orgânica 5 a 10% ano. E quando vamos encontrar os nossos projetos eles não são projetos standard, são projetos avançados, e aqui é que se justifica investirmos em inovação".
A ligação à Cotec Portugal e a distinção com o prémio PME Inovação é encarado de forma muito positiva por estas empresas. "Mesmo a Cotec operando a nível nacional e as empresas a nível internacional, a nossa autoestima aumenta quando recebemos prémios e somos reconhecidos e isso faz aumentar a confiança da empresa", assume Pedro Pacheco, que destaca ainda a partilha de conhecimento possibilitada pela Cotec. "Da mesma maneira em que beneficiamos em aprender com outros é importante partilharmos a experiência de sucesso que temos tido porque isso permite a outras empresas ganharem confiança, aprenderem e perceberem quais foram os desafios ultrapassados", diz.
Uma ideia secundada por Jorge Ferreira. "É algo nos põe em contacto com empresas de outros setores, com outras dificuldades e outros posicionamentos, e essa interação dá-nos sempre algumas ideias de como podemos inovar na nossa própria empresa", assume o responsável da Palbit para quem o prémio veio dar visibilidade nacional à empresa. "Temos os rácios de investimento em desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias e da inovação muito acima da média nacional e esse prémio acabou por tornar visível o esforço de uma equipa que está todos os dias a procurar inovar no serviço que prestamos aos nossos clientes e na tecnologia que lhes aportamos. Foi algo que nos deu visibilidade e motivação da equipa para continuar".