"Empresas portuguesas são excelentes a produzir, mas precisam de aprender a vender"

Mais do que produzir bem e com recurso à inovação, fatores que já dominam, as empresas portuguesas precisam é de aprender a vender os seus produtos, defende Alberto Figueiredo, presidente do grupo Impetus. Que dá o seu próprio exemplo. É nos países onde criou empresas próprias, ou seja, onde controla a distribuição, que está a crescer mais. Casos como Espanha França, Alemanha e Áustria, diz o gestor, que anuncia ainda uma "aposta muito forte" nos EUA, onde a Impetus irá, em breve, abrir uma empresa. "Em muitos casos não passa por termos um escritório, apenas uma equipa de trabalho", sublinha.
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Dominar o circuito comercial é fundamental para ganhar dinheiro. "Se tiver um importador-distribuidor, ele tem a margem dele e eu deixo de ser competitivo", explicou Alberto Figueiredo. Mas não só. Há que perceber qual o canal certo para cada tipo de produto. Senão vejamos. A empresa portuguesa de roupa interior lançou há dois anos a marca ProtechDry, destinada a homens e mulheres com problemas de incontinência. Quis vender o seu produto nas farmácias, com o IVA mínimo, mas o Governo não reconheceu tratar-se de uma fralda pelo que o preço se tornou pouco competitivo.

Quando quis exportar para a Austrália, aquele que é o principal mercado do ProtechDry, o problema da classificação pautal voltou a colocar-se e foi preciso que a União Europeia reconhecesse tratar-se de um equivalente a uma fralda para que pudesse ser exportada como tal. Só que, na verdade, em mercados como Portugal e França, 97% das compras deste tipo de produtos é feita na grande distribuição e não nas farmácias. "Estamos agora a iniciar a venda na grande distribuição. E só a mudança de canal levou a que estes produtos cheguem ao consumidor a metade do preço, sendo que nós os vendemos ao mesmo preço", diz Alberto Figueiredo. Também não admira, "para vender nas Galerias Lafayette o nosso preço é multiplicado por cinco vezes e meia".

Criada em 1973, com apenas seis pessoas, a Impetus é hoje um grupo de 12 empresas, com 700 trabalhadores e uma produção anual de 15 milhões de artigos. Alberto Figueiredo garante que não vale a pena investir em mil e um mercados, ou não se está em nenhum. "Como não tenho suporte financeiro para investir em publicidade e promoção da marca em todos, nuns passo despercebido e noutros aposto em força, como em Espanha, em França, na Alemanha e nos EUA", sublinha, lembrando que o acordo de parceria que os Estados Unidos estão a negociar com a Europa vai ser fundamental, tal como tem sido a desvalorização do euro.

Já Paulo Vaz, diretor geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) falou sobre a "mudança forçada, mas consciente" a que o sector foi obrigado devido aos "sucessivos choques brutais" a que foi sujeito na primeira década do século XXI, a começar pelo acordo multifibras, em 2005, com a entrada da China na OMC, seguido da crise financeira mundial em 2008, com efeitos ao nível da procura, e do pedido de ajuda externa de Portugal, em 2011, com efeitos ao nível do consumo, mas também do acesso ao crédito. Tudo isto obrigou as empresas a "sair da sua zona de conforto, a readaptarem-se e a reinventarem-se para poderem sobreviver", reconhece Paulo Vaz. E explica: "Tiveram de mudar, fugindo do seu grande driver competitivo, a venda do custo por minutos e partir para outras vias e outros argumentos, incorporando cada vez mais tecnologia e apostando também noutros elementos diferenciadores, como a inovação, a moda e o design".

Hoje, o sector emprega mais de 120 mil pessoas, tem um volume de negócios superior a seis mil milhões de euros e exporta dois terços da produção. Uma dinâmica de crescimento reconhecida, diz o diretor geral da ATP, pelos governantes que passaram a encarar o têxtil e vestuário como um sector modelar. Paulo Vaz destaca, ainda, a importância de centros de competência como o Centro Tecnológico do Têxtil e Vestuário (Citeve) que é "essencial para ajudar as empresas a fazer a tal inovação tecnológica aplicada" e que funciona como um "interface entre a inovação fundamental que se faz nas universidades e aquilo que as empresas desejam, em concreto, para ajudar a resolver os seus problemas".

A internacionalização é outra das vertentes mais marcantes do sector nos últimos anos, através da Selectiva Moda. Em 2002, esta organização levou sete empresas a participar em ações fora do país, hoje leva mais de 200 a participar em 65 feiras, em 35 países, num investimento anual de 12 milhões de euros.

No painel Fatores de Desenvolvimento das Empresas da Região das Jornadas Millennium Empresas participaram, ainda, Vítor Silva, CEO da Axis Hotéis e Golf, e António Carlos Rodrigues, presidente do grupo Casais, que falaram sobre a internacionalização nos seus próprios sectores. Vítor Silva anunciou uma parceria com nove hotéis espanhóis, em Barcelona, Madrid, Valência e Vigo, para o uso de um branding comum. "A escritura já está feita e eles aceitaram usar a marca Axis para termos uma central de reservas comum. O primeiro hotel, um em Vigo, já está a usar a marca Axis e os outros avançarão brevemente", disse o empresário. Que revelou também o interesse da Axis em investir em Espanha no conceito low cost, que no grupo é designado por unidades basic, com destaque especial para as cidades de Madrid e Barcelona. Em Portugal, a Axis tem seis hotéis, num total de 900 quartos, além do golfe de Ponte de Lima. Em estudo e fase negocial estão ainda uma ou duas novas unidades em Portugal, designadamente em Lisboa.

António Carlos Rodrigues falou, por seu turno, da necessidade de adaptação à cultura local no exterior. E diz que foram os países do Magrebe, mas também o Brasil, aqueles onde o choque cultural foi maior. "O facto de termos uma língua comum engana. Tomamos por adquirido que são culturas iguais e não são", diz o empresário. A experiência internacional da construtora Casais tem já 20 anos, mas foi com o recente desinvestimento na construção que teve de sair em força. Em 2011 conquistou cinco novos mercados e passou, logo no ano seguinte, de 70 milhões para 160 milhões de euros de faturação.

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