“A fraca rede de transportes públicos foi um incentivo a entrar no mercado português”

A gasolineira low cost espanhola Petroprix está a tomar de assalto o mercado português. A meta, para já, é abrir 200 postos, como explica Jaime Vega de Seoane, diretor de Desenvolvimento da empresa.
“A fraca rede  de transportes públicos foi um incentivo a entrar no mercado português”
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A Petroprix já está no mercado português, principalmente no norte. Porquê começar por ali? E qual é a estratégia para os próximos anos?

Bem, começámos pelo norte por dois motivos. Primeiro, o Country manager que temos chama-se Tiago Baptista e é do Porto. E como ele é de lá começámos a expandir o negócio por lá e vimos lá os nossos primeiros locais. Em segundo lugar, porque ao longo dos anos percebemos que, claramente, é mais fácil entrar no mercado no norte de Portugal. Por causa do preço, da disponibilidade de terrenos do que na região de Lisboa, que é muito mais cara e é mais difícil encontrar terrenos. A penetração no mercado é, geralmente, mais difícil. O que estou a dizer consegues ver não só com a marca Petroprix, mas também com outras marcas que estão a entrar no mercado atualmente.

Então, o que vos é atrativo no mercado português... Não é muito semelhante ao mercado espanhol ou é?

Não é propriamente parecido com o mercado espanhol. Em algumas zonas, sim, mas não em todas. É mais ou menos semelhante ao mercado galego, porque no final de contas o que levamos em conta é a infraestrutura de transportes públicos. Em geral, claro, a infraestrutura de transportes públicos em Portugal é algo pobre ou inexistente, certo? Quando tudo está muito bem interligado por comboios, autocarros e avião, os automóveis são menos necessários. Em Madrid ou em Barcelona, por exemplo, há muitas pessoas que não precisam necessariamente de carro. Um carro é um bem muito caro, mas se a pessoa tiver bons transportes públicos e puder ir trabalhar ou fazer planos de lazer utilizando-o, posso abdicar do carro e poupar nas despesas do carro. Portugal é muito parecido com a Galiza ou com as Canárias, na medida em não está bem conectado.

E a consequência disso é a necessidade imperativa de ter um carro.

Mesmo a pessoa mais humilde precisa de um carro e tem de fazer um esforço para o ter. E essa pessoa - que infelizmente está a tornar-se cada vez mais um cidadão de rendimento médio, mais do que uma pessoa humilde, porque os salários hoje em dia são o que são - tem de se esforçar não só com o carro, mas também com a gasolina. E depois, essa pessoa é muito sensível ao preço da gasolina. Há muitas pessoas que dizem: “Não, eu nunca olhei para o preço da gasolina.” Bem, então é porque nunca teve problemas para comprar um carro. Mas alguém que está a olhar para o preço, quer esteja a gastar 6000 ou 8000 euros num carro, esse cliente...sabemos que está a olhar para o preço do litro da gasolina. Por isso, entendemos que o mercado português nos valoriza e é atrativo para o nosso negócio.

Qual é a previsão de crescimento da Petroprix em Portugal? Em termos de número de postos de abastecimento?

Bem, em relação ao número, acreditamos que vamos adicionar cada vez mais postos. Há cinco ou seis anos, a nossa previsão era abrir 50 postos em Portugal. Dois anos depois, dissemos 100. E hoje, posso afirmar que temos a certeza de que teremos 200 postos. Mas não é uma previsão fixa, pois estamos constantemente a experimentar. E do que depende? Depende do nível populacional - ou seja, do número de habitantes da zona. Em Espanha, por exemplo, tentamos não abrir em cidades com menos de 20.000 ou 25.000 habitantes. A Galiza é uma exceção, pois podemos abrir postos com populações mais pequenas. Em Portugal é o mesmo; podemos abrir com uma população mais pequena. Porquê? Por causa do que estávamos a falar antes.

Porque nesses locais as pessoas têm uma necessidade maior de gasolina do que noutros.

Exatamente. E, portanto, este número não é fixo, porque também depende da penetração de outras marcas de low cost. Neste momento, posso dizer que se pudesse abrir 200 postos amanhã, seriam certamente 200.

Mas qual é o vosso modelo? São donos de todos os postos de abastecimento de combustível ou é um sistema de franchising?

Não somos franchisados e não nos vamos tornar franchisados. A empresa pertence a três irmãos de Jaén. É uma empresa familiar. Ninguém, além dos três irmãos, tem uma participação na empresa. Por isso, somos muito ágeis na tomada de decisões e muito ágeis no crescimento e na expansão. E, para já, queremos continuar com este formato, porque é o que realmente nos dá velocidade e agilidade no mercado.

Ou seja, ou compram ou adquirem os pontos de venda diretamente quando estes ficam disponíveis?

Nós fazemos as duas coisas: temos crescimento orgânico, que se baseia no arrendamento de terrenos, na obtenção da licença e na construção do posto de abastecimento assim que a temos. E temos também o crescimento inorgânico, que é o arrendamento ou a compra de postos em funcionamento. Fazemos isso também.

Como vê as campanhas de descontos dos postos das marcas tradicionais? Como vê esta iniciativa?

Para nós, isso não é um problema. Porque é verdade que o nosso principal atrativo é o preço. Temos claro que atraímos pessoas por causa do nosso preço de custo. Mas retemos muitos clientes devido à facilidade e rapidez do abastecimento. É preciso compreender que a população, em geral, não gosta de ir abastecer o carro; é um transtorno, por isso querem passar o mínimo de tempo possível no posto de abastecimento. E o que continua a acontecer em Portugal, Espanha e outros países do mundo é que se chega a um posto de abastecimento de combustível tradicional e quer abastecer. Mas depois: “Não, espere, porque está fechado. Tenho de ir pagar primeiro.” Se quiser encher o depósito, tenho de pedir que abram a bomba, depois voltar, abastecer e depois voltar lá dentro para pagar. Isto leva tempo, e as pessoas não querem perder tempo num posto de abastecimento.

Mas convosco não é mais ou menos o mesmo?

Nós temos o abastecimento mais rápido do mercado, que fazemos em dois minutos e meio. Não é porque as nossas bombas sejam melhores do que as da concorrência, mas sim porque a máquina é altamente desenvolvida, muito moderna, e o software é próprio da empresa. Desenvolvemo-lo para minimizar o número de vezes que tem de tocar no ecrã e interagir com os métodos de pagamento. E isso para que seja muito rápido: abasteces e segues.

Mas no final, um litro de gasolina tem sempre os mesmos componentes: o preço do produto, a margem de lucro, as taxas e os impostos. Como é que conseguem ter um preço mais baixo em Portugal, onde a componente dos impostos é muito mais elevada do que em Espanha?

Não fazemos magia. O preço de compra para todos os operadores é muito semelhante, mesmo para os grandes operadores em Portugal, que todos conhecemos. Talvez eles até comprem mais barato do que nós. E nós? A nossa magia é a estrutura da empresa. As pessoas perguntam: “Por que é que a Petroprix é mais barata que as outras?” Porque a margem é menor. Só isso. Não compramos melhor, nem pagamos menos impostos. Compramos o mesmo ou similar às outras empresas e pagamos a mesma quantia de impostos. A margem é, simplesmente, em muitos casos, inferior ou menos de metade da dos nossos concorrentes. Porquê? Bem, porque o investimento que fazemos nos postos de abastecimento também é menos de metade...

Têm menos funcionários...

Porque não temos lá [tantos] funcionários. Porque o terreno, ou melhor, porque a renda do terreno é muito menos de metade do que os postos de abastecimento de combustível tradicionais. E também há uma estrutura corporativa na sede dessas empresa que nós não temos. Estamos sediados numa pequena localidade em Jaén, chamada Martos, e quase toda a nossa estrutura está lá. E outras têm uma estrutura muito grande. Portanto, isso exige uma certa margem para pagar tudo isto.

Como será agora a expansão da marca?

Vamos expandir para todo o país. Aliás, na segunda-feira, se Deus quiser e se não encontrarmos mais nenhum problema, abriremos outro posto em Massamá Norte, bem perto de Lisboa. E será ótimo, pois será o nosso primeiro posto de abastecimento de combustível na área de Lisboa. Temos muitos projetos assinados no centro de Portugal. E continuaremos a expandir-nos para sul.

A Petroprix tem algum parceiro em Portugal?

Bem, temos sim. Temos investidores portugueses muito fiáveis ​​que têm muita fé no negócio, e penso que estão satisfeitos connosco, como nós estamos satisfeitos com eles. Devido à confidencialidade, não posso revelar os seus nomes. Mas são portugueses, e isso orgulha-nos. Estamos a gerir um negócio completamente português, no sentido em que nenhum funcionário espanhol trabalha para a nossa empresa portuguesa. Todos são contratados em Portugal, e não temos de trazer nenhum investidor de Espanha. São todos investidores portugueses. Capital português.

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Espanhola Petroprix arranca com operação em Portugal no final de 2023

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