A Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da Petrogal alertou esta segunda-feira, 23, que o potencial negócio entre Galp e Moeve é um “crime económico e social contra o país” e “um novo passo para a desindustrialização”.
“Este negócio privilegia o retorno imediato aos acionistas em detrimento da estabilidade dos postos de trabalho e da autonomia energética de Portugal, configurando o que classificamos como um ‘crime económico e social’ contra o país”, disse a CCT em comunicado hoje divulgado.
“Atualmente, a Galp é uma "empresa integrada de energia", detendo toda a fileira: da extração à refinação e ao retalho, operando sobre a estrutura da Petrogal. Apesar da privatização, mantém um papel estratégico, detendo a única refinaria portuguesa, que produz cerca de 90% dos combustíveis no país”, refere o organismo no documento.
Mas, no seu entender, o potencial negócio entre as duas petrolíferas “representa uma alteração radical”.
“A cessação deste modelo integrado elimina os efeitos de amortecimento entre os ciclos de valorização do crude e as margens de refinação”, dizem, apontando que, em condições normais, estes ciclos funcionam de forma desfasada e criam uma rede de segurança em que as receitas de exploração alavancam a produção nacional e a descarbonização de Sines.
Em causa está o acordo não vinculativo assinado entre a Galp e os acionistas da Moeve (ex-Cepsa) - a Mubadala Investment Company, fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, e o fundo norte-americano The Carlyle Group - para avançar com discussões sobre a junção dos respetivos portefólios de ‘downstream’ (refinação, petroquímica e venda de combustíveis) na Península Ibérica.
O plano em estudo prevê a criação de duas novas plataformas empresariais: uma dedicada ao retalho de combustíveis e mobilidade (RetailCo), que reunirá as redes de postos de abastecimento e será co-controlada pela Galp e pela Moeve, e uma plataforma industrial (IndustrialCo), focada em refinação, petroquímica, ‘trading’ e combustíveis de baixo carbono (como biocombustíveis e hidrogénio).
Nesta plataforma industrial, a Galp terá uma participação minoritária, superior a 20%, enquanto a maioria do capital ficará nas mãos dos acionistas da Moeve. Entre os ativos potencialmente integrados encontra-se a refinaria de Sines, considerada estratégica para o abastecimento energético nacional.
Para os trabalhadores da Galp, a IndustrialCo expõe a refinaria de Sines, “o principal ativo industrial do país, a um contexto adverso”.
A CCT recorda as declarações do presidente executivo da Moeve sobre a produção de hidrogénio verde, “provavelmente nas refinarias ou simplesmente para o acesso ao porto de Sines como elemento estratégico para exportação”. Segundo os trabalhadores, estas declarações remetem a empresa “para um plano de negócio incerto e inviável nos anos mais próximos”.
A comissão de trabalhadores assinala ainda que mesmo que a expansão da refinaria de Sines se concretize em pleno, para 200 megawatts, tal compara com a projeção de dois gigawatts nas refinarias da Moeve.
“A CCT entende que a economia de escala associada à integração de ativos muito dificilmente será suficiente para tornar as margens de refinação atrativas a médio prazo aos investidores privados”, alerta, acrescentando que a capacidade investimento da nova empresa ficará seriamente comprometida, na medida em que o risco do negócio está “indexado aos custos de capital, determinando um futuro curto aos seus ativos, incluindo Sines”.
As críticas foram ainda dirigidas à destruição de postos de trabalho e os trabalhadores voltaram a exigir que se tenha “noção exata da dimensão social” que pode representar este negócio, agregando os trabalhadores com contrato Galp Energia e Galp Gest que tenham funções na Petrogal.
Os trabalhadores reafirmam que a perda do controlo maioritário da refinaria de Sines pela Galp representa um ponto de rutura para a empresa e “acarreta riscos severos para a soberania e economia nacional”.
“A retirada da refinaria de Sines do Grupo Galp torna a infraestrutura mais frágil perante a política de eliminação progressiva da refinação na União Europeia, reduzindo drasticamente a sua capacidade de investimento autónomo”, acrescentam.
A CCT faz ainda uma comparação com o encerramento da refinaria do Porto e teme que a unidade de Sines seja condenada “a um encerramento progressivo para salvaguardar margens de lucro de fundos internacionais”.
O Estado detém, através da Parpública, 8,2% do capital da Galp.