Óculos Meta AI revelam suspeita de uso indevido por funcionários de ótica

Cliente deixa óculos para colocação de lentes graduadas, mas descobre, na sua app, fotos e vídeos captados no interior da loja. Caso traz a lume reflexão sobre spy glasses e questões de privacidade.
Óculos Meta AI só podem ter as lentes trocadas por revendedores autorizados.
Óculos Meta AI só podem ter as lentes trocadas por revendedores autorizados.Foto: site Meta
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O que era para ser apenas um procedimento simples de colocação de lentes graduadas num par de óculos, acabou por se tornar um episódio, no mínimo insólito na vida de uma empresária em Lisboa, que prefere ter a sua identidade preservada. Os óculos em questão? Um par dos ‘inteligentes’ Meta AI, que não só não receberam lentes novas, como revelaram tudo o que andaram a fazer com eles no interior da loja onde foram deixados.

Em declarações ao DN/DV, a empresária conta que recebeu os óculos como prenda de um familiar, tendo-se depois dirigido a uma ótica da rede Wells para colocação das lentes graduadas. “Cobraram mais de 200 euros, pagos na totalidade naquele momento”, diz. Decorridos nove dias, foi contactada: “Ligam-me a avisar que não podem fazer esse serviço, pois não estão autorizados a trocar lentes nestes óculos. E ainda descobri que usaram os meus óculos de uma forma não-profissional”, relata.

A revelação das aventuras que esta peça terá vivido dentro da loja foi feita de uma forma muito simples. A empresária conta que o conteúdo captado a partir do momento em que alguém resolveu pôr estes Meta AI na cara ficou registado na galeria da sua app móvel. “Claramente era um momento de diversão. Não há sequer como dizer que era algum tipo de teste para começarem a fazer o serviço. Eram pessoas descontraídas, a sorrir e a posar”, explica ao DV, revelando ter encontrado várias fotos e vídeos gravados. As cenas, partilhadas nas suas redes sociais com uma reclamação direcionada à rede Wells, mostram ainda ambiente interno de um escritório e expõem alguns pormenores, como os conteúdos nos ecrãs de alguns computadores, documentos, fotos e outros objetos pessoais dos funcionários.

Tecnologia X privacidade

Para o presidente da D3 - Defesa dos Direitos Digitais, Ricardo Lafuente, “este é um caso emblemático de como as pessoas ainda não têm consciência quanto ao uso destas ferramentas”, explica ao DN/DV. “Neste caso, não sabiam [os funcionários] que estavam a ceder profundamente a sua competência profissional. E, no mesmo sentido, também o cliente que lá deixou os óculos não tem qualquer garantia de qual é que foi a informação sobre a vida dele que lhes ficou acessível enquanto faziam este trabalho”, avisa.

Ricardo Lafuente, presidente da D3 - Defesa dos Direitos Digitais.
Ricardo Lafuente, presidente da D3 - Defesa dos Direitos Digitais.Foto: Telmo Miller

As questões de privacidade que envolvem os óculos inteligentes têm-se multiplicado internacionalmente, ao passo que também aumentam as denúncias sobre gravações sem consentimento que se tornam virais na internet.

Não há, na Europa, uma regulamentação específica para a sua utilização, mas alguns países já começam a adotar medidas para barrar a circulação destes spy glasses, ou óculos espiões, como certos media, como o jornal The Guardian, os têm adjetivado. Tribunais em Inglaterra e no País de Gales proibiram os Meta AI nas suas instalações, na última semana. Antes, já restaurantes, pubs e teatros britânicos tinham anunciado um veto aos óculos. Em Potsdam, na Alemanha, foram proibidos em piscinas e saunas, com outras cidades a ponderar medidas semelhantes.

Apesar de todas as polémicas, a Meta anunciou ter vendido sete milhões de pares dos óculos AI feitos em parceria com a Ray-Ban em 2025, número que tem vindo a crescer desde o lançamento da primeira versão, em 2021. Além do hype tecnológico, um argumento sobre os benefícios deste produto tem sido o da acessibilidade. Numa reportagem sobre opiniões divergentes existentes no momento, o Guardian traz o depoimento de uma deficiente visual que considera os Meta “um ponto de viragem” na sua vida. Relata utilizar os óculos para ajudar no seu dia a dia, como pedir a descrição do ambiente em que está, e teme que as críticas públicas possam tornar a tecnologia menos acessível para pessoas que realmente beneficiam dela.

“É verdade, os computadores aumentam as nossas capacidades”, concorda Ricardo Lafuente, “mas também nos expõem”, completa. “Algo que deve ser apontado, nestas circunstâncias, é que a tecnologia digital, como tem estado a ser devolvida nesta última década, tem a privacidade e a integridade das pessoas em segundo plano. Há claramente um posicionamento muito evidente, que é o modelo de negócio”, critica o dirigente da D3.

Em todo caso, a Meta não para de anunciar melhorias, como a possibilidade de uso dos óculos com lentes graduadas, que era o objetivo da cliente referida no inicio deste texto, que conta reservar o acessório ao uso privado, para registos em ambiente familiar, e diz entender o entusiasmo que circundou a peça na loja. “É algo diferente, as pessoas têm curiosidade. Se me tivessem pedido eu tinha deixado toda a gente ver. Só quero que as pessoas prestem o serviço que é suposto, de uma forma profissional”, conclui.

As lentes graduadas nestes óculos podem vir de origem, na compra pelos sites da Meta e das marcas Ray-Ban e Oakley, ou ser obtidas posteriormente num revendedor autorizado.

Questionada pelo DN/DV sobre a situação, fonte oficial da Wells garante que nenhuma queixa foi formalizada junto da empresa. “Adicionalmente, até ao momento, não tivemos acesso às imagens ou vídeos referidos pelo cliente na queixa que vos chegou, pelo que não nos é possível confirmar a respetiva origem, contexto ou local onde terão sido captados”, diz na resposta, mas não esclarece se pode ou não prestar serviços com lentes dos Meta AI.

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