Em busca do próximo unicórnio: Web Summit reuniu milhares, no Rio de Janeiro, com Portugal em destaque

O empreendedorismo português foi ao Rio, onde a Inteligência Artificial foi tema central. Há ambição de ver Portugal "no mapa da IA" e expetativa de a tecnologia chinesa concentrar atenções em Lisboa.
A Startup Portugal levou 27 startups portuguesas à Web Summit Rio 2026
A Startup Portugal levou 27 startups portuguesas à Web Summit Rio 2026FOTO: Catarina Neves/Startup Portugal
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A 4ª edição da Web Summit Rio reuniu 40 mil pessoas, mais de 1.500 startups e centenas de investidores à procura do próximo "unicórnio". Foi centro de ativações de marca, desenvolvimento de negócios, atração de potencial investimento e debate sobre as mais variadas matérias, desde pagamentos a educação, passando inevitavelmente pela Inteligência Artificial (IA).

Portugal esteve presente, com uma comitiva a cargo da Startup Portugal e da Unicorn Factory Lisboa. Esta envolveu 27 startups, numa altura em que se aproxima o evento que vai ser realizado em Lisboa, entre os dias 9 e 12 de novembro. O DN/DV acompanhou tudo perto, a convite da Startup Portugal.

Com a nacionalidade brasileira a dominar, a língua portuguesa foi rainha, em cima dos palcos e fora deles, relegando o idioma inglês para a segunda posição. Mas nem por isso a IA saiu da principal esfera de atenções. É que esta faz parte do dia a dia de praticamente todas as startups que, em 2026, fazem esforços para escalar o negócio.

Pôr a tecnologia a trabalhar para mostrar que é possível fazer disparar o Retorno do Investimento (ROI, na sigla em inglês) é o foco das startups, que procuram gerar confiança nos investidores presentes. Este foi um dos temas que esteve presente em múltiplas conversas, que decorreram em cima dos vários palcos que estavam distribuídos pelo recinto, no Riocentro (zona Oeste do Rio de Janeiro).

De acordo com a lei portuguesa, uma startup consiste numa empresa com menos de 10 anos, menos de 250 trabalhadores, menos de 50 milhões de euros de faturação, altamente escalável e inovadora. Portugal conta com 146 incubadoras e aceleradoras (privadas, públicas e em regime híbrido), pelo que cabe à Startup Portugal estabelecer ligações, dar apoio e, no final do dia, ajudá-las a que cresçam. Ao mesmo tempo, tem por norma levar startups portuguesas a eventos internacionais, como é o caso da Web Summit Rio.

São muitas as que apresentam a ambição de se tornarem o próximo unicórnio e, neste âmbito, a Good Casting foi a que mostrou ficar mais próxima de o conseguir. Em causa está uma startup que criou uma app com o mesmo nome, através da qual é possível um ator ou influenciador apresentar-se a quem o poderá querer contratar para um papel de encenação.

Criada por um luso-brasileiro e um luso-canadiano, a Good Casting é portuguesa e está presente em Lisboa e Porto, com planos para abrir, em 2027, em Madrid e Barcelona (Espanha). Conta com mais de 500 clientes, entre os quais há diretores de casting, produtoras e marcas (Coca-Cola, McDonald's, entre outras). Estes usam aquela aplicação para conhecer talentos e gravar campanhas.

Ao participar na competição da Web Summit, esteve entre as startups que foram a votação, entre um lote do qual foram escolhidas as 10 startups presentes com maior potencial.

"Estamos a trabalhar para que haja cada vez mais investimento brasileiro em Portugal", sublinha Miguel Aguiar, diretor executivo da Startup Portugal, em declarações ao DN/DV. O responsável quer agora conhecer o "impacto gerado não só mas também pela Web Summit nos últimos dez anos e o que é que os consultores prevêem" para a próxima década, pelo que já está adjudicado um estudo para o efeito.

O 'stand' da Startup Portugal e da Unicorn Factory contou com muitos contactos para possíveis futuros investimentos em startups.
O 'stand' da Startup Portugal e da Unicorn Factory contou com muitos contactos para possíveis futuros investimentos em startups.FOTO: Catarina Neves/Startup Portugal

Em causa está "uma tendência crescente enorme", sustentada no facto de a economia portuguesa dispor hoje de mais de cinco mil startups, com "um investimento anual muito grande", salienta. Para tal, há uma grande ajuda do "talento incrível a sair das universidades [portuguesas] todos os anos", pelo que Portugal entra "cada vez mais no mapa do empreendedorismo internacional", remata.

Este cenário já levou à criação de 8 unicórnios (agora são 7), dos quais "a grande maioria já tem uma grande base tecnológica baseada em IA", diz. O objetivo, por esta altura, passa por "criar mais unicórnios" e, para isso, Portugal tem "excelentes condições", salienta.

Outro tema presente no evento passou pela burocracia, leis e a carga fiscal com que as empresas se deparam na Europa. É que estas são mais restritas do que acontece noutras economias do globo, a começar pelos EUA - que competem com a China em matéria de IA. As opiniões divergem, entre os que consideram legítimo, de forma a beneficiar a proteção de dados e os que querem ver uma redução das normas.

Para Miguel Aguiar, a virtude está algures entre os dois polos. Neste contexto, está em causa um "problema", em função do qual "há um trabalho longo por percorrer".

De acordo com o próprio, os passos mais recentes no sentido de simplificar processos representam "um primeiro passo numa maratona" que será decisiva, alerta. "Não é que não estamos já a competir", mas é necessário, diz, mudar determinados aspetos. Em todo o caso, importa ainda "assegurar o que de bom se produziu em termos legislativos na UE" e substituir leis antigas por outras que permitam que as empresas consigam escalar pelos Estados-membros com maior facilidade.

"A UE já percebeu que, se nada fizer, o intervalo entre a Europa e os restantes blocos vai ficar cada maior, em termos de IA e empreendedorismo, por exemplo", assinala.

Ora, quando se fala sobre estes temas, o talento vem sempre à baila, seja em Portugal, no Brasil ou no resto do mundo. Entre as mais variadas ideias que foram apresentadas em cima dos palcos, Miguel aguarda por "mais políticas que permitam criar e reter talento português", ao mesmo tempo que ambiciona mais além. "Seria interessante trazer talento de fora, com outro mindset e outra cultura, que também pode enriquecer o nosso tecido empresarial", assinala o responsável.

Perspetivando a Web Summit Lisboa, marcada para 9 a 12 de novembro, o próprio acredita "muito que vai ter um grande sucesso para as nossas startups. Também Paddy Cosgrave, CEO e fundador da Web Summit, olhou para aquilo que pode trazer o evento, o único da Web Summit realizado (anualmente) na Europa.

Numa conferência de imprensa realizada no âmbito do próprio evento, Cosgrave respondeu a uma pergunta do DN/DV, revelando aquilo que espera para a 11ª edição da Web Summit Lisboa. Com a IA naturalmente no centro das atenções, o responsável aponta os holofotes para aquilo que está a ser desenvolvido na China.

"A IA vai continuar a dominar [as atenções]", num contexto em que os modelos abertos chineses (open source models, na nomenclatura inglesa) estão em franco crescimento, por oposição à tecnologia europeia. Cosgrave descreveu como "inacreditável" o facto de que a chinesa Deepseek ultrapassou a Open AI (ChatGPT) e Anthropic (Claude) em utilizadores empresariais nos EUA. Os dados são da plataforma norte-americana Ramp e foram conhecidos no início da semana.

Dito isto, "a importância dos modelos de linguagem chineses para o futuro da IA vai tomar o palco central" do evento, que é considerado o mais importante, de entre os vários palcos que formam o recinto.

Lisboa como porta de entrada para brasileiros

O responsável máximo da organização recorda que "quando começamos no Brasil, a expetativa em Portugal era que o número de brasileiros em Lisboa baixasse... mas aconteceu o oposto", recorda o responsável. Em causa está a ideia de que a economia portuguesa pode funcionar como via para chegar ao continente europeu.

"Os brasileiros perceberam que se querem uma oportunidade na Europa, Portugal está muito bem posicionado e a Web Summit é uma oportunidade incrível para empresas brasileiras ambiciosas", sublinha Paddy Cosgrave.

Quem também passou pelas objetivas Maria Luísa Aldim, vereadora na Câmara Municipal de Lisboa. com declarações que apresentaram alguns traços semelhantes às de . Num painel que incidiu sobre inovação destinada ao desenvolvimento de tecnologia, a própria destacou que à Câmara Municipal de Lisboa cabe "criar as condições, para que depois o mercado se saiba desenvolver autonomamente", salienta.

O objetivo passa por ter as pessoas "focadas no seu negócio", sem excesso de concentração em temas paralelos. Depois há contributos que resultam nos "atrativos que a Fábrica de Unicórnios" apresenta às startups nacionais. A vereadora mostra ainda a ambição de ver mais desenvolvimento das políticas públicas.

"O grande investimento é na educação e na criação de condições para que as pessoas arrisquem a desenvolver os seus negócios", atira. Se assim for, criam-se as condições para que, "a longo prazo, as cidades se possam desenvolver com qualidade", reforça.

Ainda antes de o evento ter início, o DN/DV falou com a cônsul geral de Portugal no Rio de Janeiro, Joana Gaspar. De acordo com a responsável, o Brasil é um "ótimo mercado de expansão, ainda mais com o acordo UE-Mercosul, que vai facilitar ao nível das tarifas sobre os bens mas também mais tarde nos serviços", explica. O processo é gradual e "pode ser benéfico para as nossas empresas, ao nível da desregulamentação; no Brasil há muitas taxas e o acordo UE-Mercosul vem facilitar", ainda que falte apostar noutra vertente.

"Há um trabalho de divulgação que tem que ser feito, sobre Portugal no Brasil e sobre o Brasil em Portugal", diz. Entre a Startup Portugal, a Unicorn Factory, a AICEP e o próprio governo português, o objetivo passa por "juntar esforços para potenciar a marca de Portugal no Rio", assinala. De acordo com a diplomata, há ainda muito por fazer.

"Toda a conversa de que somos países irmãos, às vezes faz baixar um bocadinho a perceção da necessidade de nos darmos a conhecer", num contexto em que "no Brasil não se conhece o Portugal moderno que temos hoje", lamenta. É aqui que entra a Web Summit.

Certo é que a junção de tantas pessoas, de tantas áreas profissionais e de vários pontos do globo, num só recinto, criou milhares de novas ligações, muitas das quais resultarão certamente em investimentos, que permitiram escalar negócios, um pouco por todo o mundo. Este era o sentimento claro no último dia do evento. Agora, a organização passa a centrar-se em Lisboa, já que a capital portuguesa recebe a próxima Web Summit, entre 9 e 12 de novembro.

O Dinheiro Vivo viajou para o Rio de Janeiro a convite da Startup Portugal

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