Investir forte em redes, nas eólicas e solar com bateria. As linhas de ação da EDP para os próximos anos

Nas celebrações do meio centenário da energética, o CEO do grupo, Miguel Stilwell, projetou os próximos 50 anos em convívio com a imprensa.
O presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell d'Andrade
O presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell d'AndradeDireitos Reservados
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A comemorar 50 anos, a EDP aproveitou para lançar os próximos 50, num pequeno-almoço com alguns jornalistas em que deixou as principais linhas estratégicas para o futuro.

“Não faço a mínima ideia do que é que vai ser em 2076, mas sei que vamos precisar de energia. Sei que vamos precisar de empresas que conseguem construir infraestrutura [para esse setor]. Sei que recursos como a água, o sol e o vento vão continuar por cá. (…) E vamos precisar de redes, porque ainda não se vislumbra uma forma mais eficiente de transmitir energia que seja segura a não ser por cabos elétricos”, disse o CEO do grupo, Miguel Stilwell, citando uma conversa anterior com a sua equipa.

A visão da elétrica nacional para os próximos anos passa, por isso mesmo, pelo reconhecimento de que Portugal vai precisar de “muito mais geração [de energia] renovável”.

“Portugal é o país que mais tem crescido do ponto de vista da procura elétrica nos últimos anos e a previsão é que continue a crescer durante os próximos anos”, sublinhou. Há cada vez mais veículos elétricos, mas também mais bombas de calor e mais instalações de ar condicionado, fruto das maiores variações de temperatura. “E há o tema também dos datacenters. Não o estamos a ver isso hoje, mas vamos ver ao longo dos próximos cinco anos, à medida que começarem a entrar. E estamos a falar de um aumento enorme de procura e, portanto, vai ser necessário fazer um reforço nas redes”, acrescentou Miguel Stilwell. Nas redes, a EDP já se comprometeu com um aumento de mais de 60% no investimento em Portugal ao longo dos próximos cinco anos. “Estamos a investir mais de três mil milhões de euros nos próximos cinco anos, de 600 milhões de euros por ano, o que compara com os atuais 350” nas redes de baixa e média tensão. O investimento na Alta e Muito Alta tensão compete à REN, por indicação do Estado.

Também para a EDP, o papel do Estado é fator determinante. “Neste momento estamos a ver que o ritmo de aumento da geração é muito inferior ao aumento da procura. O que torna essencial todo o tema do licenciamento, da desburocratização e da simplificação administrativa”, criticou o CEO do grupo EDP. “Temos imensos projetos, e não são só os nossos, completamente parados por falta de autorizações”, atirou.

O que leva à pergunta: além das redes, na geração de eletricidade, em que setores pretende a EDP apostar? “Do lado da geração, acreditamos principalmente nas renováveis”, mais concretamente nas eólicas e solar com baterias. “Não quer dizer que não possamos investir em gás, mas seguramente não vamos investir em carvão, porque não acreditamos na tecnologia do carvão”. Stillwel sublinhou ainda que, como engenheiro, não tem nada contra o nuclear, “mas enquanto gestor, não há nenhuma central nuclear que vá ser construída nos próximos dez anos”.

“São tipicamente centrais que têm que ter garantias do Estado, porque nenhuma empresa privada constrói uma central nuclear sem garantias do Estado. É uma tecnologia bastante cara. Basta olhar para os exemplos que existem na Europa e nos Estados Unidos: todos os projectos tem custado o dobro ou triplo do orçamento inicial e demoraram o dobro ou o triplo do tempo que inicialmente estava previsto. Portanto, uma tecnologia razoavelmente cara, de muito longo prazo e que mesmo se começássemos hoje a licenciar, imaginem. Vocês sabem a dificuldade que há em licenciar um parque solar? Imaginem licenciar uma central nuclear”, realçou o gestor.

Quanto à hídrica, Miguel Stilwell foi pragmático, mas com vários asteriscos. Para o gestor, a hídrica na Europa está praticamente esgotada, pelo que não há grandes oportunidades. “Se houver concursos, obviamente iremos participar e iremos olhar para isso, se fizer sentido”. E depois, mais um senão: “eu não consigo construir um modelo de negócio em cima das hídricas, porque pode surgir um projecto aqui ou ali e não é fácil prever os tempos de licenciamento”.

“Estamos à espera do licenciamento do Alto Lindoso já há anos e esse é um projecto bastante simples. Já está previsto no PNAC, é razoavelmente fácil e mesmo assim demora imenso tempo. Portanto, eu não consigo construir uma história de crescimento com base em hídrica. É demasiado imprevisível e demasiado longo, mas se houver oportunidades, obviamente aproveitaremos”.

Na hídrica , o que faz sentido é investir em bombagem em Portugal. No fundo, projetos eólicos ou solares a criar energia para bombear água que já passou pela barragem para uma albufeira a montante da própria barragem. “O Alto Lindoso, o Alto Rabagão, no fundo são bombagem. Pega-se num ativo existente e é um investimento razoavelmente pequeno. São centenas de milhões, mas é marginal face ao investimento de construir a barragem. Fala-se muito em ter baterias, mas a bombagem é uma coisa que tem uma vida muito mais longa, que tem uma eficiência enorme e, portanto, achamos que são projetos que fazem sentido”.

Fundo Soberano português na EDP?

No passado fim de semana, o primeiro-ministro apresentou a criação de um Fundo Soberano de Portugal como uma linha estratégica. Tal como outros fundos deste tipo, que se baseiam nas receitas do petróleo e gás, Luís Montenegro colocou a possibilidade de este fundo vir a permitir a intervenção do Estado em setores estratégicos, incluindo a energia. No setor da energia em Portugal, as maiores empresas nacionais são a EDP e a Galp.

O presidente executivo da EDP preferiu não comentar diretamente uma eventual intervenção de um fundo soberano no setor da energia, uma vez que “ainda não há detalhes”, mas sublinhou que “é um mercado livre” e todos os investidores são bem-vindos. “Acionistas são bem-vindos, investidores são bem-vindos”, afirmou.

A EDP tem como principal acionista a China Three Gorges, com 22,20% do capital, seguindo-se a BlackRock, com 8,35%, e a Oppidum Capital, com 6,82%, segundo a estrutura acionista disponível no ‘site’ da elétrica. Stilwell salientou que a EDP tem “uma base acionista muito forte, não é só chineses”, referindo acionistas de geografias como Singapura, Abu Dhabi, Canadá, Reino Unido e Noruega. Sem esta base acionista, aventou o gestor do grupo, talvez não tivesse sido possível a EDP levantar os cerca de de 4,5 mil milhões de euros de capital nos últimos anos.

“Acho que isso foi fundamental. Não só para aguentar o balanço, mas para poder crescer precisamente com um balanço sólido”, afirmou.

O presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell d'Andrade
EDP: “O Governo e os reguladores reconheceram que têm de incentivar maiores retornos na distribuição”, em Portugal
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