Morreu António Mota, líder histórico da Mota-Engil que "marcou o mundo empresarial e a sociedade portuguesa"

Tinha 71 anos. Foi o grande impulsionador da internacionalização que levou a construtora portuguesa a integrar o grupo das 25 maiores da Europa. "Parte um homem extraordinário", afirma a empresa.
António Mota, condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa, em junho de 2025, com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
António Mota, condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa, em junho de 2025, com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.Rui Ochoa / Presidência da Repúbica
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O antigo presidente da Mota-Engil, António Mota, morreu este domingo, 30 de novembro, no Porto, aos 71 anos, anunciou o grupo num comunicado, recordando-o como "líder histórico".

"O Grupo Mota-Engil vem informar com o mais profundo pesar e consternação que faleceu hoje de manhã, na cidade do Porto, o Engenheiro António Mota, líder histórico do Grupo que assumiu a presidência durante mais de 27 anos, entre 1995 e janeiro de 2023. Hoje parte um homem extraordinário pelo empresário visionário que deixa um legado ímpar, como pelo espírito humanista e solidário que sempre teve para com a sociedade, e a marca que deixa em cada um dos que o conheceram.", lê-se no comunicado.

As cerimónias fúnebres vão ser realizadas a partir desta segunda-feira, 1 de dezembro, com o velório, às 10h, na Igreja de São Gonçalo, em Amarante, terra natal do empresário, seguido de uma missa pelas 15h no mesmo local.

O corpo de António Mota seguirá para o jazigo da família, no cemitério de Amarante.

António Manuel Queirós Vasconcelos da Mota nasceu em 1954. Licenciou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e integrou, em 1976, como estagiário, a empresa Mota & Companhia, que o seu pai fundou em 1946 e que começou logo por abrir uma sucursal em Angola nesse mesmo ano.

Em 1981, e após trabalhar em diversas direções operacionais da construtora, assumiu a direção-geral da companhia. De 1987 a 1995 foi vice-presidente executivo e a partir de setembro desse ano assumiu a presidência da empresa.

Internacionalização

Foi neste período que a Mota & Companhia se transformou numa sociedade anónima, com posterior dispersão de parte do seu capital social e admissão à Bolsa de Valores. Comprou diversas construtoras, designadamente a Empreitadas Adriano, a Gerco-Sociedade de Engenharia Eletrotécnica e a Ferrovias e Construções, continuando a expansão do grupo em especial no continente africano, com presenças na Namíbia, Malawi, Moçambique ou Cabo Verde, países de grande aposta até à atualidade.

António Mota, condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa, em junho de 2025, com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
António Mota doa 28% da dona da Mota-Engil aos quatro filhos

No comunicado, a empresa destaca que foram "a sua visão estratégica, a dedicação de toda uma vida a um legado que havia recebido do seu Pai, e que, com uma coesão inabalável através do apoio incondicional das suas irmãs, bem como da capacidade e dedicação de todos vós, conseguiu transformar a Mota-Engil num dos maiores grupos económicos portugueses e uma referência mundial do setor da engenharia e construção."

Em 2000, e após concluir com sucesso a oferta pública de aquisição sobre a totalidade do capital da Engil, criou o grupo Mota-Engil a que presidiu até janeiro de 2023, altura em que 'passou a pasta' à terceira geração, entregando a liderança ao sobrinho Carlos Mota Santos e ao filho Manuel Mota, respetivamente CEO e vice-CEO do grupo, ocupando a partir daí a vice-presidência.

António Mota, condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa, em junho de 2025, com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
António Mota condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique

A Mota-Engil tem, atualmente, 52 mil colaboradores e está presente em 21 países, da Europa, África e América Latina.

O grupo registou, no primeiro semestre deste ano, um resultado líquido de 59 milhões de euros, um crescimento de 20% face aos 49 milhões de euros registados em igual período de 2024.

De acordo com a nota enviada pela empresa à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) na altura do anúncio dos resultados, no mês de agosto, "este é o melhor resultado de sempre" da Mota-Engil num primeiro semestre do ano. Já o volume de negócios do grupo atingiu os 2.745 milhões de euros, mais 0,5% que os 2.732 milhões de euros alcançados nos primeiros seis meses de 2024.

Afastamento

Em abril de 2025, António Mota comunicou a renúncia ao cargo de vice-presidente. Já em setembro, transferiu para os quatro filhos 28% do capital da Mota Gestão e Participações (MGP), a sociedade familiar que controla a construtora fundada pelo pai, ficando o filho Manuel a ocupar o seu lugar na administração da sociedade.

Em comunicado enviado à CMVM, a MGP informou que o engenheiro cedeu 1.789.780 ações, em partes iguais, a Manuel, Maria Sílvia, Maria Inês e Maria Luísa, filhos de António Mota. Cada um passou assim a deter 447.445 ações da holding. A MGP mantém o controlo da maior fatia do capital da Mota-Engil, detendo 40,32% do total das ações.

Condecoração

O Presidente da República condecorou António Mota com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique no passado mês de junho. A cerimónia decorreu no Palácio de Belém, com António Mota a ser acompanhado da família mais próxima.

A Ordem do Infante D. Henrique "destina-se a distinguir quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores".

O valor que António Mota dava à família foi registado no comunicado do grupo. "Sendo uma referência maior na Família Mota-Engil, gostava quando o tratavam como 'o mais velho', uma distinção que conheceu em Angola na sua juventude e que hoje representava exemplarmente como a voz sempre presente, com a experiência e o conhecimento profundo do que sabia ser o melhor para o Grupo e para cada um de nós, e que, em conjunto, teremos de saber honrar e dar a devida continuidade nas gerações que se seguirão.", escreve a empresa.

Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota publicada este domingo no site da Presidência da República, diz que "António Mota marcou o mundo empresarial e a sociedade portuguesa em geral. Deu continuidade à obra de seu pai Manuel António da Mota e projetou-a em todos os continentes, criando um dos mais poderosos, conhecidos e influentes grupos da nossa economia".

O Presidente da República sublinhou ainda que o empresário "juntou a liderança à empatia, a humanidade ao dinamismo, a simplicidade à eficácia. Sem ele as últimas décadas da nossa economia teriam sido diferentes. Finalmente soube preparar a tempo a sua sucessão. Assim, as jovens gerações saibam corresponder à visão do seu antepassado".

António Mota, condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa, em junho de 2025, com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Lucro da Mota Engil no primeiro semestre cresce para 59 milhões de euros

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