

A regulação europeia sobre o setor dos pagamentos é boa e cria um ambiente favorável. Quem o diz é Kelly Devine, presidente da Mastercard na Europa, que salienta a necessidade de "estar localmente em Portugal".
A empresa, sediada nos EUA, inaugurou no mês de maio, em Lisboa, um centro de inovação, destinado a impulsionar esta vertente, no mercado europeu. Isto porque "ser global significa que tens que estar localmente em muitos, muitos lugares; não apenas em um", sublinha.
Em entrevista ao DN/DV, explica que "é sobre como podemos estar localmente na Europa, em Portugal, em França, na Alemanha...", já que "cada mercado é diferente e tem diferentes necessidades e temos que descobrir como ter o melhor dos dois mundos", ou seja, não chega registar pagamentos ao mundo.
A Mastercard é responsável por pagamentos entre cartões, open banking e transações na blockchain. Conta ainda com outros serviços, em áreas tão distintas como cibersegurança, marketing e consultoria. Com este propósito, está a construir três data centers em França, através de um investimento que ascende a 250 milhões de euros.
Ora, para continuar a desenvolver-se na Europa, tem o dever de corresponder à legislação vigente, que a própria diz ser favorável.
As leis diferentes consoante o país resultam num cenário "fragmentado", mas tal não é um problema, diz. É que a Mastercard é supervisionada pelo BCE na zona euro, mas nos Países Baixos, por exemplo, é supervisionada pelo banco central daquele país. Ainda assim, "não acho que isso cause conflito", salienta.
"Às vezes é complexo quando as coisas são diferentes e tens que trabalhar em como navegar nessa diferença, mas o objetivo dessas organizações é garantir que a forma como operamos é boa para a Europa e para os clientes", reconhece a profissional.
"Querem que sejamos resilientes, seguros, que possamos responder aos riscos apropriadamente e gerir bem o negócio", destaca, no sentido de apontar para uma intenção de boa vontade dos legisladores.
"A regulação cria um quadro legal que qualquer bom negócio deveria querer abraçar", diz Kelly Devine, em jeito de resumo.
O nosso jornal também esteve à conversa com Jorn Labert, diretor de Produto da Mastercard. O próprio explica que, comparativamente com as leis que regulam a atividade da empresa nos EUA, as leis europeias "não são sempre mais restritas", mas sim "diferentes", em contraponto com o que por vezes alegam determinados empresários e economias. Neste âmbito, dá um caso concreto.
"Um bom exemplo é a evolução das stablecoins", que permitem realizar pagamentos através da blockchain com recurso a moedas digitais que se destacam pela estabilidade, já que estão indexadas a divisas reguladas, como é o caso do euro e do dólar americano.
"Durante muito tempo, foram terra de ninguém", recorda Lambert, mas as coisas mudaram profundamente. É que o regulamento europeu (MiCA) e o respetivo dos EUA permitem "trabalham num enquadramento legal que protege os consumidores", pelo que o próprio refere que estes são "bem vindos".
Olhando para os países de forma individual, "por vezes, as agendas são muito locais e motivadas por temas que não a proteção dos consumidores, mas está tudo bem", garante.
Euro digital e luta contra a fraude
Questionado sobre o tema do euro digital, cujo lançamento pelo BCE deve acontecer em 2029, o diretor de Produto da Mastercard reitera que se trata de "uma iniciativa louvável",
"Estamos a trabalhar com o BCE e outros para saber onde podemos ajudar, porque temos muito para trazer para cima da mesa em [vertentes como] aceitação, fraude e cibersegurança", assinala.
Ainda assim, de acordo com a presidente da Mastercard na Europa, o Euro Digital arrisca perder alguns dos "benefícios de ser global", pelo facto de ser uma plataforma exclusivamente europeia. Em simultâneo, "infelizmente, a fraude é um negócio global, ciberataques podem vir de qualquer lado... mas a inovação também", pelo que importa olhar para a forma como a tecnologia pode contribuir.
Kelly Devine diz que questão agora é como "criar algo que é para a Europa e alinhado com os valores europeus", mas que junte "o conhecimento e benefícios de ter uma perspetiva, investimento e escala global", reforça.