Sicasal retoma produção com parte dos trabalhadores e aguarda por investidores

Um adiantamento de um cliente, por conta de uma encomenda de produto, permitiu retomar a produção na Sicasal após uma paragem de cerca de quatro meses.
A Scasal estava parada há quatro meses
A Scasal estava parada há quatro mesesAndré Kosters/LUSA
Publicado a

A Sicasal, indústria de carnes localizada no concelho de Mafra, retomou esta semana a produção fabril com cerca de 70 dos 250 trabalhadores, apesar de ter sido declarada insolvente pelo Tribunal da Comarca Lisboa Oeste em 06 de janeiro.

"Foi com um misto de ansiedade, nervosismo, mas também com uma alegria enorme que nos voltámos a reencontrar no nosso espaço de trabalho", disse à Lusa Norberto Esteves, encarregado geral da fábrica e membro da comissão de trabalhadores da Sicasal.

Um adiantamento de um cliente, por conta de uma encomenda de produto que começou a ser processado nas instalações de Vila Franca do Rosário, concelho de Mafra, permitiu retomar a produção na Sicasal após uma paragem de cerca de quatro meses.

Mais trabalhadores deverão ser chamados nas próximas semanas, à medida que novas linhas de produção forem sendo reativadas, mas o diretor-geral da Sicasal, Jorge Pena, não avançou com um número nem com uma data concreta.

Mais trabalhadores deverão ser chamados nas próximas semanas à Sicasal
Mais trabalhadores deverão ser chamados nas próximas semanas à SicasalAndré Kosters/LUSA

Depois de vários meses com salários em atraso - em falta ainda estão as remunerações de novembro, de dezembro e o subsídio de Natal -, a Sicasal pagou as retribuições de janeiro aos 250 trabalhadores, por conta do adiantamento desse cliente cuja identidade o diretor-geral não quis revelar.

Desde que em 11 de fevereiro a fábrica voltou a funcionar, a Sicasal está a produzir e a embalar salsichas e chouriços para exportação, destinadas ao mercado angolano, por conta do cliente Asli.

A produção deverá ser alargada dentro de dias ao fiambre em lata, também para exportação.

De acordo com Jorge Pena, a reativação da fábrica tornou-se possível com "a entrada de um fundo de maneio", por parte desse cliente, e também devido à "dinâmica da equipa, que está muito motivada".

Segundo o diretor-geral, que chegou à Sicasal no dia anterior à declaração da insolvência, os trabalhadores "são pessoas muito focadas e querem que a empresa continue".

A Sicasal é um dos maiores empregadores do concelho de Mafra. A idade média dos seus cerca de 250 trabalhadores, alguns deles formando casais, está próxima dos 50 anos e a antiguidade média ronda os 20 anos.

O novo plano fabril aponta para uma produção de 500 toneladas mensais, o que corresponde a apenas um quarto da capacidade total, mas o diretor-geral explica que "a empresa esteve algum tempo parada e, como é óbvio, as máquinas necessitam de algum tempo de adaptação".

O futuro da Sicasal deverá agora passar pela venda do capital a novos acionistas.

André Kosters/LUSA

O diretor-geral, que já tinha sido consultor da empresa entre 2020 e 2021, garantiu que "há vários investidores" interessados.

"O maior ativo são as pessoas e é a marca", que é conhecida "nacional e internacionalmente", conforme acrescentou.

Para a notoriedade da marca, contribuiu também o patrocínio entre 1986 e 1995 de uma equipa profissional de ciclismo, a Sicasal-Acral, vencedora da classificação geral da Volta a Portugal por três vezes - em 1987, 1989 e 1991.

Na primeira assembleia de credores, marcada para 04 de março, Jorge Pena espera que sejam apresentados "planos de recuperação" da empresa, assentes na compra do capital e no perdão de uma parte substancial da dívida à banca e a fornecedores, que ultrapassa os 37 milhões de euros.

Nessa reunião de credores, poderá ficar já decidida "uma nova administração para a empresa", disse ainda.

"O potencial da empresa vai muito para além do que estamos a fazer, e esperamos que no dia 04 de março apareçam interessados que possam reativar a capacidade da empresa nas diversas áreas de frescos e de transformados, que possam salvaguardar os empregos de todos os trabalhadores e que levem a empresa para a dimensão que ela conquistou", afirmou Norberto Esteves, o representante dos trabalhadores.

A Sicasal foi fundada em 1968 por Álvaro dos Santos da Silva, vocacionada para a produção e comercialização da carne fresca de suíno e produtos transformados de charcutaria.

Em novembro de 2011, um incêndio destruiu parte da área de produção e a unidade fabril de Vila Franca do Rosário foi quase integralmente reconstruída, numa altura em que empregava cerca de 700 funcionários.

A empresa, que chegou a faturar perto de 100 milhões de euros (ME), perdeu quota de mercado nos últimos anos, fez investimentos em Angola que não geraram o retorno esperado, e o seu volume de vendas diminuiu significativamente, para 42,3 ME em 2024.

A situação financeira levou a uma acumulação de prejuízos, tendo registado um resultado líquido negativo de 3 ME, em 2022, 8,8 ME, em 2023, e 11 ME, em 2024.

A dívida aos 250 credores constituídos ascendia a 37 ME, dos quais 22,4 milhões a bancos - Millennium bcp (11,6 ME), Caixa Geral de Depósitos (4 ME), Novo Banco (3,6 ME) Abanca (2,5 ME) - e 9,4 ME a fornecedores.

A Promauto, empresa de promoção e relações públicas, destaca-se na lista de credores, com uma quantia de 4,1 ME.

Em outubro, a Sicasal parou a produção e, no mesmo mês, a administração avançou para um Processo Especial de Revitalização (PER), junto do Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, para tentar recuperar a empresa propondo aos credores um perdão de 70% do valor da dívida e o pagamento faseado dos restantes 30%.

Além dos administradores da Sicasal, assinava o requerimento o proprietário da Promauto, Nuno Pardal Ribeiro, também ex-dirigente do Chega que atualmente está a ser julgado pelos crimes de recurso à prostituição de menores.

De acordo com o Jornal de Negócios, o PER foi recusado pelo tribunal por a empresa falhar a entrega de documentos de forma repetitiva.

Em dezembro, o banco Millennium bcp, o maior credor, pediu a insolvência da Sicasal, tendo esta sido decretada em 06 de janeiro pelo Tribunal de Lisboa Oeste e nomeado Jorge Calvete como administrador da insolvência.

A assembleia de credores foi marcada para 04 de março, podendo ser apresentados planos de recuperação da empresa por parte do atual acionista ou de compradores interessados.

Em 02 de fevereiro, Jorge Calvete admitiu à Lusa que o cliente que fez o adiantamento pudesse estar interessado em adquirir a Sicasal, adiantando que "não terá uma posição de vantagem".

O plano é "ir chamando os trabalhadores por fases à medida que a produção avança", disse ainda, referindo que o salário de fevereiro está garantido para todos os funcionários.

Admitiu ainda que possa haver ajustamentos no pessoal, após se decidir se a empresa vai funcionar como antes, ou se vai eliminar áreas como o matadouro e desmanche.

Entretanto, o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias da Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (SINTAB) demonstrou preocupação com a declaração de insolvência, "colocando centenas de postos de trabalho em risco".

Condenou ainda "as opções estratégicas erradas e de falhas graves de gestão", defendendo que "não é aceitável que décadas de trabalho e dedicação dos trabalhadores sejam colocadas em causa por decisões que não tiveram em conta a sustentabilidade económica e social da empresa".

A Scasal estava parada há quatro meses
Empresa Sicasal foi declarada insolvente

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt