Entrar na escola mais tarde tem vantagens

Os pais cujos filhos nasceram entre 15 de setembro e 31 de dezembro debatem-se com o dilema de os matricular no primeiro ciclo aos 5 anos, sabendo que serão sempre os mais novos da turma, ou adiar a escola por um ano. A ciência mostra que a segunda opção é a que mais compensa.
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O número de crianças com mais de seis anos que frequentam o ensino pré-escolar mais do que duplicou na última década. Quando confrontados com a escolha de deixar os filhos entrar ainda com cinco anos para o primeiro ano de escola ou fazê-lo quando estão prestes a completar sete, são cada vez mais os pais que escolhem adiar. O investigador Pedro Freitas e Nuno Crato, presidente da Iniciativa Educação, discutiram as vantagens e desvantagens desta escolha, na edição desta semana do Educar tem Ciência, um projeto da Iniciativa Educação, em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo.

No ano letivo de 2020/2021 foram cerca de 12 mil as crianças cuja entrada na escola foi adiada um ano por opção dos pais. "Dado que temos cerca de 82 mil crianças de seis anos no sistema, este número representa cerca de 15%, uma percentagem que era três vezes menor há dez anos", começou por referir Pedro Freitas que lembra que existe um debate intenso sobre o tema. Quem defende o adiamento do início do percurso escolar para os alunos com cinco anos à data do início do ano letivo, aponta vantagens como a maior maturidade, do ponto de vista emocional, cognitivo e social e o facto de estar sempre entre os mais velhos da turma. Já quem advoga a entrada ainda com cinco anos, lembra que adiar um ano a entrada na escola significa atrasar todo o percurso académico e a futura entrada no mercado de trabalho.

Os estudos científicos mostram que diferir a entrada da criança na escola tem vantagens, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade. "No final do primeiro ciclo, quando são medidos testes cognitivos, nota-se um diferencial positivo para os alunos que viram a entrada na escola atrasada", referiu Pedro Freitas. A isto soma-se uma menor probabilidade de ter de repetir um ano ao longo do percurso escolar, havendo também evidência que mostra "que os alunos que são atrasados um ano na sua entrada sofrem menos episódios de bullying e têm mais probabilidade de tomar posições de liderança nas turmas". Há contudo que referir que o diferencial positivo nos resultados escolares evidenciado pelos alunos mais velhos é algo que se vai esbatendo ao longo do percurso académico.

Nuno Crato trouxe à liça a investigação feita na Noruega que permite avaliar o impacto não da idade de entrada na escola, mas da idade com que os alunos são submetidos a testes. "Imaginemos que um teste é feito em junho, para uma pessoa nascida em janeiro e outra em setembro. Em junho, a pessoa nascida em janeiro será mais velha. Isto significa que algum dos efeitos que temos estado a identificar advêm não só da idade em que se entra na escola mas da idade em que se faz o teste", explicou Pedro Freitas.

Para Nuno Crato este é um tipo de informação relevante para os pais terem em linha de conta. Por seu turno, Pedro Freitas lembrou a necessidade de ter um ensino pré-escolar adaptado e capaz de dar respostas a alunos mais velhos, sugerindo também a criação de redes de apoio no pré-escolar que apoiem os pais nas suas decisões. "O pré-escolar pode ser muito importante. Hoje sabe-se que os jovens podem ser estimulados muito mais cedo e podem desenvolver-se muito mais", defendeu Nuno Crato.

Pedro Freitas sublinhou ainda o facto, revelado por estudos realizados nos Estados Unidos, de que são sobretudo as famílias mais escolarizadas que tendem a adiar a entrada dos filhos na escola. "Se tivermos muitas famílias mais escolarizadas a tomar esta decisão e famílias menos escolarizadas que não tomam esta decisão, isto cria uma dupla desigualdade", alertou o investigador, para quem é essencial que as famílias, independentemente da sua origem, tenham acesso a toda informação necessária à tomada de decisão.

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