O ambiente na sala de aula e o seu impacto no processo de aprendizagem foi o tema em análise no Educar tem Ciência, um projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo. Esta semana, à conversa com Nuno Crato, presidente da Iniciativa Educação, esteve a psicóloga Joana Rato.
A psicóloga começou por clarificar o que é, afinal, o "ambiente de sala de aula". Composto tanto pelo clima vivido, muito relacionado com a relação professor/aluno como pela configuração da sala e das condições de ruído, é um fator importante no desenvolvimento académico. À liça Nuno Crato trouxe a discussão sobre os benefícios de configurações que promovem a interação entre alunos - como a disposição em círculo ou em "U" - por oposição à disposição clássica das carteiras em linha, que tem marcado as últimas décadas.
"O que a investigação tem dito é que a configuração da sala depende do objetivo da aprendizagem, em cada momento", afirmou Joana Rato. No limite, continuou a psicóloga, o ideal seria a existência de um espaço suficientemente amplo, subdividido em espaços dedicados à chamada aula expositiva (com uma configuração clássica de cadeiras viradas para o professor), e outros que favorecessem o debate. "Há momentos em que é preciso ouvir e que a atenção esteja orientada para quem está a falar. Mas em metodologias em que precisamos de maior participação dos alunos, maior debate, precisamos que a configuração seja diferente. O que devemos discutir é podermos fazer a nossa seleção de acordo com o que queremos que eles executem", explicou.
Importância da concentração
A psicóloga alertou ainda para estudos recentes que alertam para o facto de os planos abertos - os chamados open space - poderem não ser os melhores para a aprendizagem. Isto porque tendem a incluir um maior número de "fatores distratores", com impacto direto na chamada "atenção executiva" - que nos permite não só orientar a atenção como mantê-la durante o tempo que dura a tarefa a executar.
Nuno Crato lembrou a necessidade de encarar as aulas como algo dinâmico. "Uma aula não deve ser 90 minutos de exposição nem 90 minutos de discussão mas algo alternado", defendeu, no que foi secundado por Joana Rato. "Ganhamos mais se estivermos 20 minutos muito atentos e concentrados e depois fizermos uma pausa ou mudarmos o registo, do que se estivermos concentrados um tempo muito superior em que a nossa resistência se vai perdendo", explicou. Por outro lado, continuou, este é um processo relacionado com a "trajetória de maturação cerebral das áreas que são envolvidas" na orientação da atenção. "A investigação mostra que no que toca à atenção e funcionamento executivo há dois períodos fundamentais do que pode ser o seu treino: o período pré-escolar e no período da adolescência".
Joana Rato deu como exemplo um estudo realizado por investigadores australianos, e publicado na revista científica Science of Learning que analisou o impacto da utilização de planos abertos na aprendizagem da leitura. Ao longo de um ano letivo, os investigadores acompanharam um grupo de crianças entre os sete e os 10 anos, com avaliações periódicas ao nível académico, cognitivo e até auditivo, avaliando a perceção da fala no meio do ruído. "O que concluíram foi que, nas fases em que tinham o chamado plano aberto, a trajetória de desenvolvimento da leitura (medida pelo número de palavras lidas num minuto), piorou relativamente às fases em que ocorria o plano fechado", refere a psicóloga, sublinhando a importância da flexibilidade dos espaços na sua relação com os objetivos de aprendizagem.
Por seu turno, Nuno Crato alertou ainda para a necessidade de ter presente a importância da adolescência enquanto período em que é desenvolvida a capacidade de concentração. " É uma das coisas que deve ser ensinada à criança, e isso ensina-se em sala de aula".