Rafael Nadal está em Marbella, no recato de sua casa, senta-se para descansar e olha para móveis bem portugueses. O número dois no ranking mundial ATP escolheu a AM Classic, marca de mobiliário com fábrica em Paços de Ferreira. Quando as altas patentes do Exército dos Estados Unidos da América se reúnem nas salas das suas bases militares no estrangeiro, respira-se arte portuguesa.
Hoje, Paris, Milão, Madrid, Moscovo, Nova Iorque, São Paulo e Seul são apenas alguns exemplos de cidades que conhecem bem a marca originária do Norte de Portugal.
Nascida há exatamente meio século,a AM Classic não passou durante grande parte da sua história de uma empresa familiar, sem grandes ambições.
Tudo mudou quando o benjamim da família Silva não resistiu à pressão do patriarca e foi presidir aos destinos da empresa, juntando-se assim aos seus irmãos. Mário (44 anos) tem um sorriso franco e descontraído e é nesse tom que nos resume a receita do sucesso. "Nós fazemos muito mais do que simplesmente vender móveis. Vendemos os móveis e prestamos um serviço com prazo de entrega e assistência pós-venda. Por outro lado, mais de 50% dos produtos são customizados, isto é, feitos à medida."
Apesar de ter nascido numa família que lhe garantiria emprego para a vida, nada fazia prever que cedesse à tentação de se embrenhar no negócio criado pelo pai. Quis ser engenheiro têxtil e conseguiu licenciar-se aos 21 anos, na Universidade do Minho. Sem medos, lançou-se no mercado de trabalho. Empregou-se primeiro numa estamparia. Mais tarde, e durante quatro anos, foi comercial de uma empresa que fornecia equipamentos para a indústria têxtil.
Mas tudo mudou quando o pai já tinha 95 anos. Aos 27 anos, o patriarca fez-lhe uma "proposta indecente", refere Mário. "Ou ia trabalhar com ele e com os outros três irmãos ou não voltaria a ter outra oportunidade de fazer parte do clã familiar da empresa. Tive de tomar uma decisão". O benjamim dispôs-se, deste modo, a criar uma empresa de projeção mundial a partir de uma PME nascida pequena, fruto do sonho de um homem que, juntamente com a mulher, conseguiu fazer vingar um projeto de vida e transmiti-lo aos filhos.
Mário levou para a AM Móveis (assim se chamava a empresa) a sua experiência de comercial. Fruto da sua veia de vendedor, percebeu rapidamente que o território de Paços de Ferreira e arredores era demasiado limitado para as suas ambições. Corria o ano de 1995 quando o negócio se expandiu para o país vizinho, começando pela Galiza. Não demorou muito a cobrir todo o território espanhol.
A empresa começou então a contratar sucessivamente agentes em Itália, França, Alemanha, Holanda, Bélgica e países de Leste. Hoje, vendem em mais de 40 países. Foram angariando clientes de retalho em locais tão improváveis como o Líbano e a Coreia do Sul. Mas nada é deixado ao acaso. Quando a aposta e sucesso em termos de vendas são grandes em determinado mercado, Mário faz questão de ter ao seu lado um gestor que seja originário desse país. "Quando há um problema na Alemanha, o nosso agente fala com um quadro alemão que está aqui na nossa sede, em Paços de Ferreira, e o mesmo acontece com outras línguas, como o francês, inglês e espanhol.
A AM Classic, assim designada desde 2008, vende para o exército norte-americano através de um intermediário alemão. "Fazemos para as bases militares dos EUA, fundamentalmente para os gabinetes das altas patentes e para as salas de reunião. Chegámos a fazer uma mesa para sala de reunião com 10 metros de comprimento por três metros de largura. As mesas já vão moldadas para encaixar toda a tecnologia de comunicação que eles pretendem usar", explica Mário Silva. O contrato com os EUA surgiu há quatro anos. Para o cliente americano, vendem cerca de 300 mil euros anuais. Mário já visitou uma base da NATO, onde os seus móveis estavam colocados, mais precisamente em Inglaterra, perto do aeroporto de Stansted.
Outra fase importante da vida da AM Classic foi a crise financeira de 2008. Até essa data cresciam ao ritmo anual de 7%, mas terminaram aquele ano com uma quebra de 10%. "Começámos a pensar o que deveríamos fazer e tomámos as grandes decisões. O sector tinha um problema de produtividade e falta de estratégia. Deixámos de ter stock, fazemos tudo just-in-time. Inspiraram-se no Toyota Production System. "Só fazemos o produto encomendado e nada mais. Queremos a fábrica limpa de stock.
O produto vendido pela AM Classic resume-se a modelos clássicos e maciços, de madeira de cerejeira ou carvalho. É um móvel dirigido a clientes da gama média-alta. Uma cama, duas mesinhas de cabeceira e uma cómoda podem custar 2500 euros, passando o preço para o dobro quando chega a uma loja no estrangeiro. Uma cadeira de sala de jantar custa facilmente 600 euros em Itália ou França, saindo de cá a metade do preço.
A empresa tem quatro certificações: qualidade, higiene e segurança no trabalho, recursos humanos e ambiente. No entanto, o objetivo não foi vender as certificações para o exterior. "Nós aproveitámos as certificações para melhorar o local do trabalho, a organização, a motivação e a responsabilidade social. Melhorando o ambiente interno, estaremos sempre mais aptos a competir no exterior", alega Mário Silva. Essa motivação
A motivação é hoje visível nos seus 110 trabalhadores. E os resultados financeiros estão à vista. O ano corrente deverá ser o melhor da sua longa história, faturando sete milhões de euros, sensivelmente mais 500 mil euros do que em 2011. Em 2009, a AM Classic faturava 3,8 milhões de euros.Ao contrário do que é comum na grande maioria das PME portuguesas, a AM Classic não recorre muito ao crédito, tendo apenas precisado do apoio da banca no pico da crise (2008-2009). Mas como o negócio já cresceu 30% desde então, os bancos não têm merecido a visita de Mário Silva.
A estratégia da empresa passa muito pelo princípio simples de semear para mais tarde colher os frutos. É prática habitual trazerem largas dezenas de clientes retalhistas de todo o mundo para um hotel situado em Penafiel e pagarem a sua estada durante uma semana. Estabelecem-se, desse modo, grandes negócios. Chegam a juntar 300 pessoas num jantar. Mário Silva não abdica desta estratégia há vários anos. Trata-se de semear e esperar pelos resultados.
RetratoEmpresa foi fundada em 1962, com sede em Frazão, Paços de Ferreira. Faturação deverá chegar aos sete milhões de euros em 2012. A AM Classic tem 110 trabalhadores. Marca tem 1200 lojas autorizadas em todo o mundo. Principais mercados: Espanha, Itália, França, Alemanha, Rússia, Coreia do Sul, Bélgica, Brasil, EUA e Holanda. www.amclassicfurniture.com