Estudo: Pandemia aumentou desafios éticos nas empresas

Mais de metade dos inquiridos (53%) considera que os desafios éticos foram maiores durante o período de confinamento e, se juntarmos aos que não sabem, o valor ultrapassa os 80%. O estudo foi desenvolvido pela Católica Porto Business School.
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A reunir 242 pessoas, o inquérito da Católica Porto Business School teve como objetivo retratar a crise que está a ser vivida de um ponto de vista ético nas organizações, as eventuais angústias, as decisões mais difíceis e a forma como as pessoas, com e sem responsabilidades de gestão, foram dando resposta às novas questões e desafios que surgiram.

E que desafios foram esses? No ambiente vivido nas empresas em tempos de pandemia aparecem sinais de dois sentimentos - proteção e compaixão - que outrora não eram, possivelmente, associados ao contexto laboral.

Independentemente dos cargos que os inquiridos ocupam, os tópicos que surgem em primeiro lugar estão diretamente às questões da família e da equidade.

Quanto à família, é a conciliação do tempo entre o pessoal e o profissional que mais sobressai. Já no que toca à equidade é o conhecimento e, por vezes, a necessidade de dar diferentes respostas às situações particulares de alguns trabalhadores.

No entanto, para os que não têm responsabilidade de gestão, a questão da equidade surge ainda a par com a necessidade do cumprimento de ordens e funções com as quais não se concorda ou das quais se desconhece a utilidade.

O desafio do teletrabalho em espaço familiar

A questão da família e da conciliação trabalho-família não é nova. No entanto a pandemia da covid-19 veio enfatizá-la ao colocar o ambiente familiar na empresa ou a empresa no espaço da família.

No caso das chefias, Helena Gonçalves e Ana Roque, coordenadoras do fórum de ética, começam por contar ao Dinheiro Vivo que "este foi um aspeto especialmente desafiante, porque era algo que não só estavam a viver nas suas casas e a "gerir" com as suas famílias", como tinham agora de ter "em conta o trabalhador, o seu contexto familiar e as suas circunstâncias particulares".

Considerado um dos desafios mais relevantes pelas coordenadoras do estudo, estas afirmam ainda que "deixou de haver, em muitos casos, uma separação entre o que é o contexto profissional e o contexto pessoal".

Mas o que os tornou estes desafios tão sentidos?

As respostas concentram-se, no que respeita ao âmbito da ética, na ausência de certezas sobre qual a decisão a tomar, na ausência de regras predefinidas e, mais do que tudo, é a incerteza que prevalece neste campo.

Ainda no plano das chefias, "o estudo permite ver que foi particularmente assustador a gestão sem certezas, sem provas, sem tapete", afirmam as coordenadoras.

As decisões quotidianas adquiriram, segundo o testemunho de várias chefias, uma complexidade extrema onde muitas vezes de um lado da balança pesava a compreensão de quem deixava de pagar e por outro, o de não ter margem para aceitar isso.

Também as incompatibilidades vieram à tona, e a pergunta surge: o que é melhor para a empresa é o melhor para os nossos valores éticos e morais? Não necessariamente.

O desafio com que muitos dos inquiridos que ocupam cargos de responsabilidade se depararam foi o de deixar de pagar aos fornecedores, ou deixar de cumprir compromissos.

Outras questões se levantam e surgem dois fatores - o local de trabalho e o horário - que trazem consigo a palavra confiança. A decisão de confiar, ou não, nos trabalhadores, ou a perceção de se ter, ou não, uma chefia que confia em nós.

A verdade é que este regime adaptado pôs em cima da mesa uma flexibilidade e autonomia laboral que antes não existia e que, embora se mostre vantajosa para muitos, o mesmo não acontece para outros.

"O teletrabalho obrigou a uma maior confiança, por parte das chefias, nas equipas, uma vez que as pessoas muitas vezes passaram a gerir o seu tempo e a estabelecer o seu horário" afirmam as coordenadores. "Essa liberdade e essa confiança na responsabilidade das pessoas em muitos casos, como é revelado no estudo, deu excelentes frutos, fez descobrir capacidades desconhecidas" acrescentam ainda.

Este período de confinamento foi para muitas chefias o dar de caras com o mundo VUCA - volatility (volátil), uncertainty (incerto), complexity (complexo) e ambiguity (ambíguo) - do qual já tinham ouvido falar.

A grande dificuldade é a de começar a decidir num mundo onde "tudo ou quase tudo passou a temporário, reversível, precário, indefinido", declara uma chefia.

Novas visões da empresa

Ainda assim, a pandemia permitiu, em muitos casos, ter uma nova visão da empresa. Com o fim desta "experiência" ainda longe, e numa fase de aprendizagem, há quem defenda que, no que respeita ao relacionamento interno, foi o valor de uma gestão aberta, transparente e participativa que saiu reforçado.

Por fim, as coordenadores sublinham ainda que, "cada vez mais, no âmbito da ética e independentemente da pandemia, nos deparamos, crescentemente, com situações de grande complexidade: o futuro do trabalho, o uso da inteligência artificial, a tomada de posição da empresa face a questões políticas e sociais ou a objeção de consciência por parte da empresa ou dos seus trabalhadores são apenas alguns exemplos".

N.A.

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