Europa “não é muito competitiva” e precisa de mais união para bater EUA
O cenário atual é de incerteza, mas a economia mundial parece estar a viver bem com ele. É este o panorama, muito resumido, defendido pela Coface na semana passada, durante a apresentação do seu relatório de análise de risco para 2026, intitulado de Momento da Verdade - tal como pode ler em maior detalhe no site do Dinheiro Vivo.
Numa apresentação liderada por Ruben Nizard - diretor de Pesquisa Setorial e Risco Político - e por Bruno de Moura Fernandes - diretor de Macroeconomia -, as principais conclusões são claras: o ano de 2025 foi muito mais tranquilo do que a turbulência política e a guerra tarifária faziam antever; há setores que estão agora em condições melhores para continuarem a crescer e está claramente a ser desenhado um novo sistema em termos de globalização.
O que, para a Europa, pode ser uma oportunidade, se os Estados-membros se concentrarem naquela que é a visão estratégica de longo prazo necessária para ganhar espaço na nova ordem mundial, defende Bruno Fernandes em entrevista ao Dinheiro Vivo. “No fundo, está tudo no Relatório Draghi”, resume o especialista, realçando que continua a faltar ao Velho Continente competitividade estrutural.
“Temos energia que é muito cara e que não serve o mercado americano; já perdemos para a China a corrida aos carros elétricos - eles anteciparam-se muito e, enquanto a Europa andava a fazer lobby para atrasar o fim dos motores a combustão, a China estava a construir carros...”
E, mais significativo ainda é o facto de a Europa continuar a agiar como um mercado que não é único. “Por que é que se investe tanto nos EUA, onde o mercado é de 300 milhões de pessoas? O mercado europeu é, em teoria, maior - com mais de 400 milhões de habitantes -, mas na realidade, não é. Porque uma pessoa para desenvolver uma tecnologia, na Europa, tem de garantir que respeita as regras e a lei de cada país; a Europa tem um mercado de capitais que nem sequer é realmente tão relevante, nem é fácil para levantar dinheiro, não é um mercado que esteja disponível para investir em inovação e em coisas arriscadas”, continua o especialista.
No mesmo sentido, a Europa tem também as desvantagens dos recursos humanos mais caros, quando comparados com a China e outros países asiáticos, o que acaba por travar um desenvolvimento que devia ser, sobretudo neste momento, muito mais rápido para conseguir garantir um lugar central no mundo.
A Europa tem um mercado de capitais que nem sequer é realmente tão relevante
Bruno de Moura Fernandes
De qualquer forma, “a Europa está a perceber que não pode continuar a ser excessivamente dependente dos EUA” e isso vê-se na assinatura recente de alguns acordos comerciais, salienta Bruno. A conversa com o economista da Coface aconteceu poucos dias antes de Donald Trump colocar em cima da mesa um aumento nas tarifas a cobrar aos países que queiram exportar para os EUA, mas os princípios mantiveram-se praticamente os mesmos. Na ocasião, Bruno Fernandes saudava a assinatura dos acordos comerciais que a União Europeia assinou com o Mercosul e também com a Índia, sinalizando que estes são movimentos para os quais olha com otimismo, porque revelam que a Europa está a olhar para alternativas. O problema é que nenhum destes mercados deverá ser tão competitivo quanto o norte-americano. E é por isso que a Europa devia estar a unir-se mais.
“Cada país ainda está a olhar para os seus interesses nacionais, ao invés de ter uma noção de conjunto. Por isso é que vemos alguns Estados-membros a subvencionar energia, ou a opor-se à partilha de energia com outros países, para ficar em vantagem económica...”, continua.
“E era importante a Europa perceber que tem um poder imenso nas mãos, que é o facto de ser um dos maiores consumidores mundiais, como já referi. Em termos de produção não somos tão fortes. A Europa não é muito competitiva, pelo que já expliquei. Mas é um forte consumidor e devia usar esse poder para se posicionar”, defende ainda o economista.
Quando lhe pedimos para olhar especificamente para Portugal - a Coface coloca o país como uma das economias com menor nível de risco, graças aos indicadores macroeconómicos mais recentes - Bruno Fernandes admite que os dados não refletem exatamente a qualidade de vida sentida pelos cidadãos. E explica. “Os dados macroeconómicos mostram que Portugal tem um mercado dinâmico, e que há dois setores particularmente ativos, que são o Turismo e a Construção - há pessoas a ganharem muito dinheiro!”, salienta.
Aliás, os números mostram, na verdade, como um país se pode desenvolver, mas, ao mesmo tempo, não dar a ganhar dinheiro a todos os que lá vivem, realça. E admite que, tal como tem acontecido em França, por exemplo, muitas vezes garantir as contas certas tem implicado desinvestimento em alguns serviços públicos. Para isso, insta os governantes a fazerem escolhas sensatas na hora de investir: “Os governos têm de ver muito bem onde querem investir, para que o país se mantenha sustentável no longo prazo”. E lamenta que os custos da habitação estejam a penalizar de forma tão significativa as carteiras dos portugueses.
Acreditando que o que se passa no setor imobiliário não seja “uma bolha”, admite que “é preciso monitorizar e acompanhar o que está a acontecer, porque estes preços não vão durar para sempre”, avisa.
“E também é verdade que não é muito sustentável que as pessoas ganhem tão pouco” em Portugal. “Tona-se muito difícil viver. Temos de ver se Portugal - uma economia que esperamos que cresça acima dos 2% - consegue subir um pouco na cadeia de valores agregados”, admite. “E também seria importante ver o desenvolvimento de algumas indústrias, no país, que paguem melhor e que consigam reter algum do talento jovem que tem estado a sair”. Não apenas para garantir o futuro económico do país, mas também para contrariar a demografia nacional.
* O DN viajou a convite da Coface

