Explosão no turismo mantém Portugal a convergir com a Europa, mas cada vez menos

Vaga de turismo continua a um ritmo avassalador, superior a 30%, indica o Banco de Portugal. Importações estão a ficar mais baratas e inflação pode ter chegado a um ponto de viragem, mostra o INE. Problema: o consumo das famílias está cada vez mais deprimido e o investimento a cair.
Publicado a

O crescimento explosivo do setor das viagens e do turismo no arranque deste ano foi decisivo para o crescimento da economia portuguesa que, em termos reais, avançou bastante mais rápido no primeiro trimestre deste ano do que antecipavam os economistas e o próprio ministro das Finanças, Fernando Medina. Todos se mostraram "surpreendidos".

Nestes três meses, as importações também ficaram, de um modo geral, mais baratas por força de algum alívio nos custos da energia e de matérias primas alimentares que Portugal compra ao estrangeiro, o que também terá ajudado a impulsionar a economia interna.

E, ao mesmo tempo, a inflação, que continua muito alta, parece ter atingido o seu pico. A taxa média dos últimos 12 meses começou finalmente a cair em abril, mostrou ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Portanto, o alívio na inflação começou a materializar-se de forma mais inequívoca. Segundo o INE, "a taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor (IPC) terá diminuído para 5,7% em abril de 2023, taxa inferior em 1,7 pontos percentuais (p.p.) à observada no mês anterior".

"A desaceleração é em parte explicada pelo efeito de base resultante do aumento de preços da eletricidade, do gás e dos produtos alimentares registado em abril de 2022."

No capítulo do crescimento, Portugal ainda continua a crescer acima da média europeia, a convergir em termos reais, como se costuma dizer, mas cada vez menos, já que a tendência é de claro abrandamento no ritmo global da economia nacional, a travagem cá está a ser mais rápida do que a nível europeu, mostram os dados do INE e do Eurostat, também ontem publicados (sexta-feira).

Segundo o INE, "o Produto Interno Bruto (PIB), em termos reais, registou uma variação homóloga de 2,5% no 1º trimestre de 2023", mas em claro arrefecimento face ao passado recente.

Em todo o caso, apesar da surpresa favorável, a subida do PIB em 2,5%, neste início de 2023, continua a ser o pior desempenho económico em termos reais (já descontando a inflação) dos últimos dois anos, desde o início de 2021, mais concretamente, quando o País vivia a fase mais mortífera da pandemia covid-19.

O INE confirmou isso mesmo. Apesar do vigor das exportações, muito encostadas ao turismo, a economia como um todo está a abrandar há quatro trimestres consecutivos, com a procura interna a vacilar bastante. O consumo das famílias travou ainda mais e o investimento até já está a cair, referiu o instituto na nova estimativa rápida relativa às contas nacionais do primeiro trimestre.

Como referido, a convergência real com a Europa prossegue, mas o caminho é cada vez mais estreito. Há um ano, no primeiro trimestre de 2022, Portugal estava a crescer quase 12%, mais do dobro do ritmo da zona euro.

Agora a diferença é de apenas 1,2 pontos percentuais. O Eurostat diz que a área da moeda única e a UE cresceram, em termos homólogos, 1,3% no primeiro trimestre.

Seja como for, o crescimento real de 2,5% no primeiro trimestre em Portugal é o terceiro mais elevado dos dez países já apurados pelo Eurostat. Espanha lidera com 3,8%, Irlanda aparece em segundo lugar, com 2,6%.

Consumo esvai-se, investimento cai

Segundo o INE, "o contributo da procura interna para a variação homóloga do PIB manteve-se positivo no 1º trimestre, mas inferior ao observado no trimestre precedente, em resultado da desaceleração do consumo privado e da redução do investimento, determinada por um contributo negativo da variação de existências".

Em compensação, houve "uma aceleração das exportações de bens e serviços e um abrandamento das importações".

Assim, "o contributo positivo da procura externa líquida foi superior ao do trimestre anterior" e "no primeiro trimestre deste ano, observou-se um abrandamento significativo do deflator das importações em termos homólogos, mais intenso que o do deflator das exportações, traduzindo se em ganhos dos termos de troca, o que não acontecia desde o primeiro trimestre de 2021", observa o INE.

Ontem, sexta-feira, o Banco de Portugal revelou que em março de 2023, o indicador preliminar das viagens e turismo aponta para um crescimento impressionante das exportações na ordem dos 31,9% face a março de 2022, isto após um aumento de quase 39% em fevereiro.

E mais. Este crescimento de grande magnitude do turismo acumula com de há um ano, quando o turismo estava a recuperar da pandemia e quase quadruplicou em valor, mostra o banco central.

Teresa Gil Pinheiro, economista do gabinete de estudos do BPI, observa que "no primeiro trimestre PIB avançou 1,6% em cadeia, excedendo em larga medida as previsões do BPI Research e do consenso dos analistas".

"A expansão da atividade foi particularmente motivada pelo forte contributo positivo da procura externa, muito provavelmente refletindo o bom desempenho da atividade turística e comportamento mais modesto das importações, enquanto o contributo da procura interna foi negativo no trimestre", acrescentou a analista.

"Em termos homólogos, o avanço foi de 2,5%, uma desaceleração face aos 3,2% do trimestre anterior, mas ainda assim muito acima das expectativas", comenta a economista.

"Mais uma vez, a aceleração das exportações de bens e serviços - o número de turistas não residentes aumentou cerca de 61% em termos homólogos no primeiro trimestre e as exportações de bens cresceram 13,3% - e o menor crescimento das importações - avançaram 8,7%, um forte abrandamento face aos 17,8% do quarto trimestre de 2022 - explicam este desempenho", remata Gil Pinheiro.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt