Mais 123 milhões de euros em petróleo para os Estados Unidos, mais 118 milhões de euros em circuitos eletrónicos para Taiwan, vendas de carros à China que aumentaram 110 milhões e mais 109 milhões de euros em crude para o Brasil.
Estes foram os quatro contributos mais valiosos (cruzando todos os mercados com a lista de todos os produtos exportados por Portugal) para o crescimento das exportações de mercadorias em janeiro-outubro de 2017 face a igual período de 2016.
No total, as exportações de bens engordaram 4,5 mil milhões de euros até outubro (últimos dados disponíveis), um avanço homólogo de quase 11%. Nestas contas ainda não está o turismo (um serviço), a estrela em ascensão do comércio internacional português. Estes dados finos, disponibilizados pela AICEP - Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, mostram a tentativa continuada das empresas portuguesas em diversificar mercados, de reduzir riscos; de não depender só de um cliente ou dois.
Embora a conjuntura europeia esteja hoje numa fase relativamente favorável, com o BCE a ajudar com dinheiro barato e juros zero, os riscos existem. Muitas economias vão abrandar, há a incógnita do impacto do brexit e a crise latente na Catalunha. Tendo em conta o peso nas exportações portuguesas, os riscos que podem baralhar as contas são os de Espanha, Marrocos, Alemanha, Holanda, Itália, mostram cálculos do DN/Dinheiro Vivo.
Em contrapartida, há economias que estão a ganhar força e, tendo em conta a sua relevância nas vendas nacionais, aparecem na lista das mais promissoras de 2018 em termos de expansão de mercado: França, Brasil, EUA, Emiratos Árabes Unidos são alguns desses nomes.
As últimas projeções para a economia, realizadas pelo Banco de Portugal, refletem um abrandamento das exportações totais. Terão avançado uns importantes 7,7% em 2017, mas neste ano que agora começa devem subir apenas 6,5%. A economia como um todo vai atrás. Estava a crescer 2,6%, mas em 2018 fica-se pelos 2,3%.
Um estudo recente do Banco de Portugal refere alguns dos riscos mais salientes para a atividade económica em 2018. “A crise política na Catalunha constitui um risco descendente relevante para a economia portuguesa, atendendo ao peso de Espanha nas relações económicas internacionais de Portugal e a eventuais repercussões a nível europeu”, dizem os economistas do banco central. Espanha “é o principal destino das exportações totais, com uma quota de 20,9%”, completa a AICEP. Nas mercadorias, Espanha vale ainda mais: 25%, adianta o INE. É o maior comprador de peças e acessórios de automóveis. Em relação ao número total de turistas que visitam o país a mesma coisa: tem um peso de 25%, o maior.
Para o Banco de Portugal há outro risco negativo relevante. “A possibilidade de as economias avançadas adotarem medidas protecionistas no médio prazo, onde se inclui a hipótese de um impacto mais adverso do processo de saída do Reino Unido da União Europeia”. O Reino Unido é o quarto maior parceiro comercial de Portugal, a seguir a Espanha, França e Alemanha. Compra 10% das exportações portuguesas e por ano envia mais de 3 milhões de turistas, sendo o segundo maior emissor de receita turística a seguir a Espanha. A maior exportação portuguesa para as ilhas britânicas são carros.
Depois, há a China. Grande investidor e apreciador crescente de produção portuguesa (compra sobretudo automóveis), o gigante asiático é já 11.º cliente de Portugal, valendo quase tanto como o Brasil. O Banco de Portugal alerta que “não se pode excluir o cenário de um ajustamento económico mais acentuado em algumas economias de mercado emergentes com elevado nível de endividamento, com destaque para a China”.
Mas nem tudo é mau. “Estes riscos podem ser mitigados por coisas como “o potencial impacto das medidas de política orçamental anunciadas nos EUA”, releva o Banco de Portugal, referindo-se à ação do governo de Donald Trump. Veja-se o caso da reforma fiscal, que alivia brutalmente os impostos às empresas e aos mais ricos. Os Estados Unidos compram sobretudo “óleos de petróleo” a Portugal. E estão em 13.º no ranking dos turistas.
O caminho da diversificação tem vindo a ser feito, mas é preciso mais, alerta António Mendonça, professor de Economia do ISEG. O grosso das exportações portuguesas vai para a Europa (mais de 73% do total). O economista refere que nos últimos anos, sobretudo durante a crise, “houve alguma perda de capacidade de atração de investimento direto estrangeiro (IDE) e é preciso compensar isso e trazer mais investimentos para Portugal, sobretudo na indústria”. “O IDE foi muito orientado para a parte financeira, para o imobiliário, para o turismo”. Em relação ao turismo e ao imobiliário, “corremos o risco de estarmos a encher uma nova bolha”.