Uma das mulheres mais poderosas do negócio televisivo nos Estados Unidos convidou-me um dia para assistir às suas reuniões de trabalho. Discutiam-se matérias complexas que envolviam risco de vida para milhares de pessoas, situações políticas complicadas e várias guerras no mundo. Por mais difíceis que fossem as discussões, não podiam, por decisão dela, demorar mais do que 20 minutos. Dizia-me que, a partir desse tempo, as reuniões não servem para nada porque cada um começa a falar sozinho, apenas para se ouvir. Defendia que o tempo limitado determina a eficácia e os bons resultados de uma boa discussão.
Este episódio serviu-me para a vida e ficou ainda mais evidente agora. Após tantas reuniões, e de tantas horas, os homens que têm o destino de Portugal nas mãos convocam os jornalistas, falam durante quase uma hora, e anunciam que... nada têm para dizer. Não duvido da complexidade do diálogo entre os líderes da coligação Portugal à Frente e do PS, mas se em nada concordaram para que falam eles tanto, e vários dias a fio? Não é preciso ser especialista para saber que se deve falar apenas quando se tem algo importante para revelar. Caso contrário, apenas serve para justificar e evidenciar ainda mais os falhanços.
O silêncio é uma importante arma de comunicação. Sobretudo em política, quando se discute o futuro de todos nós, seria mais prudente e eficaz que os principais líderes partidários deixassem os arrufos, as zangas e as azias dentro das salas de reuniões. Encontros deste nível seriam seguramente mais produtivos se fossem mantidos com a discrição que se exige a pessoas responsáveis. No final, e só então, deveria ser feita uma comunicação pública e eventuais ajustes de contas.
Temos assistido por estes dias a um verdadeiro lavar de roupa suja e a uma reedição da parte mais feia e hipócrita da política. Um auto-boicote ao grande objetivo que todos juram querer alcançar. Nos dias a seguir às eleições ouvimos altos dirigentes da esquerda à direita, num verdadeiro e descarado namoro. Tive em estúdio rivais de vários partidos, frente a frente, muitos meigos e sem nada para discordar. Parecia que, quase por magia, tinham desaparecido todas as divergências e acusações graves entre eles. Uma espécie de conto de fadas da política portuguesa, onde todos só pensam no poder.
Três décadas como jornalista ensinaram-me a ser infelizmente muito cético, e há muito que já não acredito em fadas. Afinal, as bruxas más que oferecem maçãs envenenadas sempre tiveram maior tradição na política portuguesa.