As famílias da zona euro antecipam uma subida muito mais pronunciada e rápida das taxas de juro aplicadas aos seus créditos à habitação (até 5% ou mais nos próximos 12 meses), sendo que estas vão ser bem mais do dobro das taxas de juro praticadas nos depósitos e poupanças (no máximo, chegam a 3% dentro de um ano), indica um estudo do Banco Central Europeu (BCE), publicado esta semana.
Ou seja, de outra forma, a expectativa é que a remuneração dos depósitos seja menos de metade do custo do crédito à habitação em meados de 2024.
Nessa altura, o BCE já poderá ter terminado a subida das suas taxas de juro, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Como noticiou recentemente o Dinheiro Vivo (DV), as famílias da zona euro que participaram no inquérito aos consumidores de junho do BCE disseram estar à espera de uma taxa de juro média no crédito à habitação na ordem de 5% a 5,1% num prazo de 12 meses.
Mas, no novo estudo que integra o último boletim económico do BCE, os economistas do banco central, Evangelos Charalampakis e Virginia Di Nino, analisaram os microdados do referido inquérito e revelam que os consumidores também foram questionados sobre as perspetivas que têm para as taxas de juro que remuneram os seus depósitos bancários.
E aqui o fosso é enorme: a taxa média aplicada ao crédito imobiliário é sempre mais do dobro da taxa de juro das poupanças, de acordo com os resultados do inquérito do BCE.
Mas, pior, este fosso vai manter-se durante mais um ano, pelo menos, avança o mesmo estudo.
Portanto, a ideia que está formada agora junto da opinião pública da zona euro é de que os bancos não vão desarmar nos juros dos empréstimos e vão comprimir o que puderem na remuneração das poupanças.
Tanto assim é que, no caso português, esta forte contenção na taxa de juro dos depósitos acabou por levar muitas famílias a tirar o dinheiro do banco para o colocar em Certificados de Aforro (pagam bastante mais).
Em cima disto, há ainda a evidência de que as taxas de juro das hipotecas também subiram muito mais rápido do que as dos depósitos desde que o BCE começou a subir juros, em julho do ano passado, para combater a inflação muito elevada que, num primeiro momento, foi importada na sequência do início da guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Os dois peritos do BCE observam que, "em linha com a evolução das taxas de juro efetivas, as expectativas dos consumidores europeus em relação às taxas de juro aumentaram".
Assim é desde o início de 2022, quando o BCE ainda não tinha começado a subir juros, mas já se tornava claro que o haveria de fazer pois a inflação já estava a subir bastante, mesmo antes da guerra (final de fevereiro do ano passado).
Os economistas referem que "as expectativas relativas às taxas de juro das hipotecas daqui a 12 meses aumentaram quase 2 pontos percentuais (p.p.) desde o início de 2022".
No começo do ano passado, a taxa média esperada estava ligeiramente acima dos 3%, agora supera os 5%.
Já na poupança, "o aumento foi 1,5 pontos percentuais neste mesmo período". No início de 2022, as famílias estavam a antecipar que a taxa iria subir até 1,6%; agora acreditam que possa chegar a 3% daqui a um ano.
O estudo aponta ainda que "a percentagem de inquiridos que esperam que seja mais difícil obter crédito (de qualquer tipo) aumentou de forma constante desde o início de 2022 até outubro de 2022 e tem oscilado em torno de 30% desde então".
Ou seja, quase um terço das famílias antevê uma relação fria com os bancos nos próximos tempos.
Este inquérito foi feito junto de 14 mil residentes adultos (18 anos ou mais) em seis países da zona euro (Bélgica, Alemanha, Espanha, França, Itália e Países Baixos), indica o BCE.
Entretanto, em Portugal
Em Portugal, não têm faltado reptos públicos para que os bancos tentem melhorar a remuneração dos depósitos de modo a compensar a forte carga de juros que está a ser imposta às famílias devedoras.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem sido uma dessas vozes. Recentemente, pediu "um esforçozinho" aos bancos nessa matéria.
"Volto a apelar à banca", tendo em conta a procura dos Certificados de Aforro, sinal de que "os portugueses acham que aquilo que a banca está a pagar é pouco e procuram nos Certificados de Aforro uma compensação", disse o Chefe de Estado em junho.
"A banca não pode esperar, sem meditar sobre a matéria". "Não pode, a banca tem que fazer, no mínimo, um esforçozinho para perceber quando as pessoas apostam em taxas de juros de 3 vírgula tal é porque recebem na banca um terço e que a situação não é indefinidamente deixar ou suspender ou adiar ou deixar de recorrer a esses meios alternativos de poupança, de aforro, só porque a banca entende que deve, não só recuperar o passado, como precaver-se para o futuro", alertou Rebelo de Sousa.
De acordo com o Banco de Portugal, a taxa de juro média dos novos empréstimos à habitação continuou a apertar, passando de uma média de 4,16% em maio, para 4,25% em junho.
Este é o valor mais alto em 11 anos (desde fevereiro de 2012). Aqui, Portugal está acima da média da zona euro, onde a mesma taxa de juro nos novos contratos ronda 3,7% também em junho.
Já na poupança a prazo, a taxa de juro média praticada nos novos depósitos a prazo dos particulares subiu apenas de 1,26% em maio para 1,58% em junho, segundo o supervisor da banca.
Portugal era o quinto país do euro que pior remunerava esses novos depósitos. E aquela taxa de 1,58% equivalia a menos 70% da remuneração média (taxa de juro) praticada na Zona Euro.
De acordo com o BCE, em junho, a taxa de juro média dos novos depósitos a prazo na área do euro rondou 2,7%. O país que pratica a taxa média mais magra é a Croácia (1,07%), seguida de Chipre (1,26%), Eslovénia (1,42%) e Grécia (1,52%).