Fazer omeletes sem ovos

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Um destes dias participei num debate que terminou com uma discussão muto interessante sobre o impacto económico dos fundos comunitários no processo de convergência em Portugal.

Após o debate, houve uma troca de opiniões sobre o facto de Portugal ser, em toda a União Europeia, o país que mais depende dos fundos comunitários para investir e, sobretudo, sobre a inação face à ausência desses fundos.
Na troca de argumentos, defendi que a ausência de recursos não pode ser, por si só, justificativa da inação e da desresponsabilização, até porque existem muitos exemplos de que é precisamente na adversidade que surgem as soluções mais criativas e eficazes.

Para facilitar uma maior proximidade e identificação com esta argumentação, recordei uma iniciativa que concretizei num contexto de grandes constrangimentos e elevada complexidade institucional.
No início da missão como diretor-geral da Incubadora de Empresas da Universidade de Aveiro (IEUA) defini que esta entidade só seria relevante se favorecesse uma intensa e permanente interação com a academia, a região e o tecido empresarial.

Esta visão foi sendo apropriada pela comunidade da IEUA, até que um dia o Francisco Mendes, à data CEO da Beeverycreative, disse que queria conhecer uma das pessoas mais inovadores e disruptivas em Portugal, o António Câmara, fundador da Y-Dreams, e perguntou se a IEUA o poderia convidar. O Francisco já tinha falado sobre esta ideia com outros interlocutores e ninguém priorizava a sua execução por falta de recursos. Imediatamente lhe disse: "Francisco, não fales com mais ninguém. Vamos fazer isso acontecer aqui."
Esta foi a ignição para a criação do IEUA Sharing, eventos informais de partilha de conhecimento e de experiências empreendedoras, uma das principais iniciativas de capacitação de empreendedores criadas durante esta missão.

Quando começámos a operacionalizar o evento deparámo-nos com uma série de constrangimentos, desde logo, a ausência de um auditório ou "espaço para eventos", tendo a primeira edição sido comunicada internamente como "traz a tua cadeira". E, literalmente, foi isso que aconteceu. Cada um trazia a sua cadeira para o foyer de entrada da incubadora e foi neste local que foram realizadas grande parte das 32 edições do IEUA Sharing.

O facto de nenhuma destas 32 edições beneficiar de fundos comunitários, implicou uma enorme resiliência e compromisso por parte de toda a comunidade da IEUA, em especial, dos empreendedores que tiveram de assumir a seleção e acompanhamento de todo o processo de participação dos oradores: António Câmara, José Basílio Simões, António Gonçalves, Bruno Carvalho, Celso Martinho, Miguel Júdice, Nuno Lobo, João Paulo Oliveira, Luís Portela, João Casal, Tom Fleming, Hélder Lopes, Gonçalo Rebelo de Almeida, Paulo Pereira da Silva, Gabriela Marques, Jean-Louis Frechin, Luís Baptista-Coelho, Jorge Fernandes, Eduardo Branco, António Murta, Helena Vieira, João Serrenho, Sandra Fisher-Martins, João Pedro Tavares, Francisco Mendes, Inaki Berenguer, João Brazão, André Rabanea, Pedro Janela, Carlos Martins, Manuel Ramalho Eanes, Stephan Morais.
As condições eram tão espartanas que recordo um dia em que o orador, além de não receber qualquer valor pela sua participação e deslocações, como os demais, ainda teve de pagar o parque de estacionamento.

Na concretização desta iniciativa ousamos "fazer omeletes sem ovos", mesmo tendo a consciência dos riscos dessa decisão. O facto de a termos conseguido concretizar, nestas condições e com este grupo de fazedores, fez com que o resultado fosse ainda mais gratificante.


Empreendedor

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