FBI, 7-Polícia Brasileira, 1

A Polícia Federal brasileira (PF) abrir inquérito à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) dias depois do FBI e da polícia suiça terem detido, entre outros dirigentes da FIFA, o ex-presidente do organismo, José Maria Marin, soa tão ridículo como se amanhã Charles Bovary ressuscitasse do romance de Flaubert e começasse a pedir explicações à mulher pelas suas infidelidades 150 anos depois de toda a gente as conhecer.
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Comparar, porém, a PF ao marido que, como mandam as regras dos romances do século XIX, foi o último a saber é ser demasiado benevolente. O papel da PF em todo o processo não foi o de marido traído mas sim o de cúmplice da traição que a CBF fez ao futebol brasileiro e, por extensão, ao seu povo. Sempre que ameaçou agir, nomeadamente durante a gestão demasiado despudorada de Ricardo Teixeira, o antecessor de Marin na longa dinastia de corruptos que se acoitaram na CBF, a PF recuou. Porquê?

Talvez porque em 2009 a CBF tenha pago 100 mil reais para que a Associação de Delegados [chefes de esquadra] realizasse o seu congresso em Fortaleza por quatro dias. Ou porque no mesmo ano o organismo liderado por Teixeira tenha aberto as portas da mítica Granja Comary, centro oficial de treinos da seleção brasileira, para que a mesma associação realizasse um animado torneio de três dias reunindo equipas de delegados, peritos e outros agentes. Ou ainda porque em 2010 a mesma CBF tenha patrocinado a digressão de um coral de delegados reformados à Argentina para uma série de apresentações.

Por sua vez, a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso brasileiro por iniciativa do senador e ex-rei das áreas Romário, servirá apenas para o Baixinho se divertir à custa dos seus inimigos - o atual presidente da CBF com nome de navegador e de incendiário Marco Polo Del Nero e os antecessores deste, Marin, detido na Suiça, e Teixeira, fugido em Miami. Porque a julgar pelo seu histórico, uma CPI terá efeito de aspirina no combate à doença terminal em que se transformou a CBF.

Na mais recente das CPI, a do Petrolão, além de não se avançar nada no conteúdo, ou não estivessem os dois patrões do Congresso entre os indiciados no caso, ainda tem havido um avacalhamento na forma. Uma testemunha cantou Roberto Carlos no interrogatório, alguém deixou cair na sala uma dúzia de ratos (no Brasil, o animal simboliza os corruptos) para incomódo geral (sobretudo dos ratos) e o presidente da CPI ainda pediu a exumação do cadáver de um envolvido que ele suspeita possa estar vivo.

E uma CPI da CPF ainda teria de superar a Bancada da Bola, o grupo de deputados que defende os interesses dos dirigentes da CBF e é um dos quatro maiores lóbis do Congresso (os outros são a Bancada do Boi, pró-latifundiários, a da Bala, financiada pela indústria das armas, e a da Bíblia, alimentada pelos diversos credos evangélicos).

Finalmente, nem as notícias que dão conta da vontade bem intencionada da presidente Dilma, que nunca suportou Marin, de aproveitar o escândalo internacional para dinamitar a CBF devem ser lidas com otimismo - se puxarmos o novelo aos negócios da CBF, o governo dela e o de Lula viriam atrelados no nojo, tantos foram os elefantes brancos, atrasos e acordos esquisitos na organização do Mundial-2014.

"PF abre inquérito", "Romário consegue CPI" e "Governo ataca CBF" são portanto notícias que soam como um solo de Paganini aos ouvidos dos poderosos da CBF.

Caso contrário, o presidente de 1958 a 1975 da CBF João Havelange, 99 anos, não viveria tranquilo no país, mesmo depois de ter sido expulso da FIFA pelo seu ex-delfim Sepp Blatter por corrupção.

O presidente da entidade de 1989 a 2012 e genro de Havelange, Ricardo Teixeira, acusado de nepotismo, suborno e corrupção no exercício do cargo, não manteria as formidáveis mansões no Rio adquiridas durante a sua gestão.

E o líder do organismo de 2012 a 2015, José Maria Marin, hoje numa cela suiça, não teria vivido regiamente em São Paulo, mesmo tendo no currículo participação na morte de presos políticos durante o regime militar, entre outras nódoas.

Por alguma razão, Del Nero, envolvido nos desvarios de Marin, escapou de Zurique no primeiro avião após as prisões e voltou ao país onde sabe que estará protegido.

A corrupção não é um exclusivo do Brasil, prova-o o escândalo da FIFA que está espalhada pelos hemisférios, a diferença está na forma como as autoridades de um país lidam com os seus poderosos. Os EUA, mesmo que movidos pelo pouco inocente sentimento de "revenge" por terem perdido a organização do Mundial para o Qatar, mostraram como se lida com um caso destes.

Se a CBF, através da seleção brasileira, que controla como se fosse um balcão de negócios, foi goleada por 7-1 pela Alemanha no Mundial, as autoridades brasileiras sofreram uma derrota igual ao verem o FBI prender um escroque que tiveram debaixo do seu nariz por décadas.

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