Febre da IA no centro da temporada de resultados das big tech

As cinco grandes tecnológicas agora conhecidas por MAMAA - Meta, Amazon, Microsoft, Apple e Alphabet - satisfizeram o mercado, mas é possível que a bolha esteja a encher mais rapidamente do que os lucros.
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Em junho, uma nota da Capital Economics reviu em alta as previsões para o índice S&P 500 em 2024 e 2025, citando o impacto da Inteligência Artificial (IA) e a possibilidade de estarmos perante uma bolha tecnológica. "Cremos que o entusiasmo dos investidores pela IA tem espaço para crescer ainda mais nos próximos dois anos", escreveu o economista Thomas Mathews. Outros analistas já tinham mencionado o impacto da IA nos mercados financeiros em 2023, do Bank of America e RBC ao Goldman Sachs.

Na mente de todos está o frenesim que contagiou o mercado desde o lançamento do ChatGPT e levou as ações da big tech a dispararem este ano.

Mas a temporada de resultados do segundo trimestre trouxe pontos de interrogação. As cinco grandes tecnológicas tiveram desempenhos sólidos, batendo até as expectativas do mercado. Várias focaram as apresentações no uso da IA. No entanto, lucros e resultados concretos desta aposta ainda estão longe de comprovados.

"O hype está lá, as receitas não", resumiu o analista da Jefferies, Brent Thill, citado pelo Financial Times. Também o gestor de portefólio da Synovus, Daniel Morgan, disse no canal da Yahoo Finance que está por demonstrar o impacto dos investimentos. "Ainda estamos na fase incipiente", sublinhou. "Não há evidência tangível de que a IA teve impacto direto nos números destas empresas."

O que a IA proporcionou foi uma narrativa nova e um entusiasmo que não se via há algum tempo - depois de despedimentos aos milhares, quebras trimestrais e reduções agressivas de custos.
Uma vez que os resultados das gigantes mais valiosas fornecem pistas para o estado dos mercados e do sentimento económico, este foco na IA também indica aquilo que poderemos esperar nos próximos anos.

Meta
A empresa de Mark Zuckerberg surpreendeu o mercado com o primeiro crescimento a dois dígitos em dois anos e atribuiu esse impulso parcialmente à IA. A tecnologia está a ajudar na rentabilização da publicidade, que sofreu bastante quando as mudanças de privacidade da Apple restringiram o rastreio de utilizadores. Com a nova suíte IA Advantage+, os anunciantes conseguem criar campanhas mais eficazes, e isso sentiu-se no negócio.

O CEO disse que a Meta está a colher os frutos dos milhões gastos em IA. "A categoria que está a crescer mais rapidamente no Facebook é a do conteúdo recomendado por IA de contas que os utilizadores não seguem", afirmou. "Desde que as introduzimos, estas recomendações levaram a um aumento de 7% do tempo passado na plataforma."

Agora que lançou o modelo de linguagem Llama 2, de uso comercial gratuito, a Meta está a trabalhar em ferramentas que tornarão "mais fácil e divertido" partilhar conteúdo e podem agir como assistentes ou treinadores e ajudar a interagir com negócios e criadores.

Alphabet
O grande motor de crescimento foi a unidade Google Cloud, que disparou 28% para oito mil milhões e passou de prejuízos a um lucro de 395 milhões. Segundo Sundar Pichai, a IA esteve por detrás de muito desse salto. O CEO disse que mais de 70% dos unicórnios de IA generativa são clientes da Google Cloud, incluindo Jasper, Cohere e Typeface, e o número de clientes de IA generativa aumentou 15 vezes desde abril. A próxima versão do Android vai incorporar IA generativa e o foco do Google Assistant será redirecionado para aí. Também as capacidades IA do Google Workspace terão ajudado a captar novos clientes.

O que se segue? Mais IA na pesquisa e nos anúncios, que é o segmento onde a Alphabet corre o maior risco se outras empresas captarem quota de mercado por causa de serviços de IA generativa.

Amazon
Um dos melhores desempenhos da temporada foi o da Amazon, que passou de um prejuízo de dois mil milhões de dólares para um lucro de 6,7 mil milhões. O CEO Andy Jassy disse que foi a IA que impulsionou a performance, com a melhoria do negócio na Amazon Web Services. "Acreditamos que a AWS está posicionada para ser o parceiro de longo prazo na IA generativa", disse Jassy, referindo que a Amazon está a implementar iniciativas IA generativa em várias áreas, incluindo na assistente digital Alexa. As ações da empresa estão em alta de 50% desde o início de 2023.

Microsoft
Desde que investiu na OpenAI e começou a integrar a tecnologia por detrás do ChatGPT em vários produtos que a Microsoft é vista como líder neste espaço. O CEO Satya Nadella focou-se na IA como espinha dorsal do que a empresa está a fazer. Referiu que mais de 11 mil empresas, como a Ikea e a Volvo, estão a usar o serviço Azure Open AI; e que mais de 27 mil, da Airbnb à Dell, são clientes do GitHub Copilot.

A empresa vai lançar mais copilotos IA, que irão acompanhar o Windows e outros programas, e pretende cobrar uma mensalidade de 30 dólares pelo copiloto no Office.

O plano de investimento é agressivo e isso traduz-se em mais custos, mas o aumento das receitas será gradual - foi o que disse a diretora financeira Amy Hood, que pediu aos analistas para moderarem o entusiasmo. "Mesmo com forte procura e numa posição de liderança, o crescimento a partir dos nossos serviços IA vai ser gradual, à medida que o Azure AI escala e os nossos copilotos começam a estar disponíveis", disse. "Para o ano fiscal de 2024, o impacto será na segunda metade."

O analista Citi Tyler Radke escreveu numa nota que os resultados foram "satisfatórios", mas não tiveram aquele "picante" que os investidores queriam depois de tantas novidades associadas à IA generativa.

Apple
A única empresa que evitou falar de IA foi a Apple. O CEO Tim Cook só lhe fez menção em resposta a uma pergunta específica, referindo que a IA tem alimentado as últimas interações do sistema operativo móvel iOS, tal como a deteção de acidentes e quedas ou o live voice mail.

Em julho, a Bloomberg reportou que a Apple estava a trabalhar num produto tipo ChatGPT, mas o CEO não deu detalhes. Disse apenas que a IA e aprendizagem de máquina são "tecnologias fundamentais e integrais em virtualmente todos os produtos que construímos."

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