Há quem leve o ano a suspirar por eles, para depois, de Maio a Outubro, a época em que frutificam, os procurar por todo o lado - sem grande sucesso. Nem mesmo no Algarve, onde em cada quintal há uma figueira, é fácil encontrar figos à venda. E o busílis pode começar por aí. "Há muitos figos, mas não se conseguem vender porque só a partir de um certo volume é que vale a pena comercializá-los."
Rui Maia e Sousa, engenheiro agrícola que faz investigação hortícola e frutícola para o Instituto Nacional dos Recursos Biológicos (INRB), anda há anos a tentar convencer os produtores a unirem-se para terem mais capacidade de colocação do figo. "É uma cultura tradicional, o que torna muito difícil mudar os hábitos. E como se trata de um produto muito perecível, que antes de ser colhido tem de estar vendido, e a maturação é muito escalonada, tendo de ser colhido à mão todos os dias - o que exige uma grande organização e sai bastante caro -, muitas vezes nem os colhem."
Trata-se, no entanto, de um fruto - na verdade, cada figo é um conjunto de centenas de frutos, "como um morango virado ao contrário", ensina Maia e Sousa - caro na venda ao público, o que levaria a crer que seria rentável. Mas os produtores gastam muito dinheiro em mão-de-obra - chega a custar 50 cêntimos a colheita de um quilo - e têm sorte se conseguirem vender por um euro no mercado abastecedor ou aos hipermercados (que só compram em grandes quantidades). Que o diga João Vieira, funcionário da Fundação Gulbenkian, que com os irmãos herdou um figueiral de nove hectares em Torres Novas, área tradicional de produção de figo seco. "Tínhamos árvores de figo preto para aguardente, mas, como isso deixou de ser uma produção viável, arrancámos e plantámos um figueiral de pingo-de-mel. A ideia era vendê-lo fresco, mas percebemos que é muito difícil." A salvação, diz, foi "uma sorte inacreditável". "Tenho uma vizinha que me ofereceu um frasco de figos em calda feitos por ela. Experimentei aquilo, percebi que era óptimo e que era a saída. Foi há sete, oito anos. Pedi a receita à senhora e convenci os meus irmãos."
O sucesso dos figos em calda da Quinta das Rendufas foi tal que apesar de reconhecer que a colheita sai muito cara - "pago cinco ou seis euros à hora, que é muito" - já plantou mais 600 árvores para além das 1400 que tem em produção e assume ter lucro com os cinco a seis mil frascos que fabrica por ano. "Mas produzo 2000 quilos de figos lampos [os figos de Maio/Junho; os outros, de Agosto/Setembro/Outubro, chamam-se vindimos] e tenho a maior dificuldade em colocá-los no mercado. Vendi só 500 quilos este ano. Foram 500 euros." A dificuldade começa no facto de "os lampos, ao contrário dos vindimos, virem todos de uma vez" e continua no preço, por exemplo, de uma inscrição nos mercados abastecedores de Lisboa e Porto: "São 600 euros por ano. Alguma vez isso me compensa?" Assim o que faz é tentar que um produtor maior leve os seus figos e os venda por ele. "Também me perguntaram no El Corte Inglés, para onde vendo os figos em calda, se tinha figos frescos, mas não me compensava. Há talvez a necessidade de as pessoas que estão no comércio serem mais inteligentes, não matarem os produtores impondo preços baixíssimos para depois terem margens enormes."
No caso do figo, aliás, explica Maia e Sousa, as margens costumam ser ainda maiores para "acautelar as perdas que o supermercado ou a frutaria vai ter por o produto se deteriorar muito facilmente". É também isso - a deterioração rápida - que a seu ver justificará a raridade do figo fresco na restauração. Mas a verdade é que noutros países, como Itália, é comum encontrar figos no menu, e não apenas como sobremesa (frescos ou em doce, sorvete, gelado): de entradas (figos com presunto é um clássico), a saladas, risottos, etc., não falta imaginação para o usar. Em Portugal, só alguns restaurantes servem figos. Um deles é a lisboeta Tasca da Esquina, de Vítor Sobral: "Como todos os dias temos coisas diferentes, na época dos figos fazemos muito sopa fria de tomate e figos, figos caramelizados em azeite para acompanhar porco e mousse de figo com atum fresco."
Quanto ao figo singelo, à sobremesa, considera como bom motivo para a sua raridade o facto de "avariarem muito", mas garante que "não é uma coisa muito pedida". Porque as pessoas já esperam que não haja (afinal, nunca está na lista) ou porque não gostam? Não existe, que se saiba, um inquérito nacional sobre este magno assunto, o do gosto ou desgosto pelos figos. Mas certo é que em países mais a norte, como a França, o quilo dos ditos chega a vender-se a 20 euros (por cá o máximo será sete ou oito euros) e noutros, como a Espanha e a Turquia, a produção tem-se expandido muitíssimo nos últimos anos - ao contrário da portuguesa, que passou de 300 mil hectares de figueiras e 270 mil toneladas/ano em 1961 - quando quase todo o figo era para destilar (e fazer álcool), e o Estado subsidiava fortemente os produtores - para 86 614 hectares e 15 004 toneladas em 2009 (números da FAO, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). Entre os motivos desta brutal descida esteve, para o técnico do INRB, não só a falência do mercado do figo para álcool como do mercado do figo seco, esmagado pela concorrência turca, que consegue fazê--lo a preços imbatíveis ("Um operador de campo português ganha num dia o que um turco ganha num mês", diz).
Os turcos têm também um mercado florescente de figo fresco - aliás não é incomum encontrar figos frescos turcos à venda em Portugal. A justificação pode residir em parte no facto de conseguirem conservar o figo mais dos dois/três dias normais. Um segredo de Estado, segundo Maia e Sousa. Que está no entanto convencido de ser o figo para Portugal uma das culturas com mais potencialidades de futuro, pela sua pouca exigência de água e de tratamento ("Não tem grandes pragas") e pelas possibilidades de exportação.
Mário Rodrigues, da Rodifrutas (Carregado), um dos maiores produtores nacionais de figos, tende a concordar. Produz 70 toneladas/ano, plantou 10 hectares em 2008 (que só devem estar em pleno em 2016) e tem vindo a comprar produções de pomares mais pequenos e a alugar figueirais para explorar. "A nossa principal produção é de uva de mesa, mas em 2006 alugámos umas vinhas que tinham também um pequeno figueiral e começámos a explorar aquilo. O figo era um produto com que os hipermercados não trabalhavam muito até há pouco, porque exigem muita quantidade e qualidade, mas o Pingo Doce, que já comprava a nossa uva de mesa, quis comercializar os nossos figos também."
Em 2011, o Grupo Jerónimo Martins comprou, segundo a sua assessoria de imprensa, 36 toneladas de figos frescos, 95% dos quais portugueses (os 5% restantes são figos da Índia). É o correspondente a metade da produção da Rodifrutas, que só tem vendido para o mercado nacional mas está a encarar com entusiasmo a possibilidade de exportar. "Esteve cá este ano um intermediário a ver a nossa produção para vender para França e adorou. Em princípio para o ano vamos vender para lá."
Pode ser que havendo sucesso na exportação os figos portugueses comecem a ser mais valorizados por cá. É que gulosos não faltam: chamávamos-lhes um figo.