Filipa Pinto de Carvalho traz Silicon Valley para Lisboa

Duas advogadas regressaram a Portugal para abrir o ecossistema do empreendedorismo a investidores e a startups estrangeiras, com os norte-americanos à cabeça. Juntas fundaram uma sociedade de advogados para apoiar expatriados e, a solo, Filipa criou mais dois projetos que mostram como os portugueses são acolhedores.
Filipa Pinto de Carvalho
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Diz que “o ecossistema do empreendedorismo em Portugal desperta nos norte-americanos da Califórnia o mesmo sentido de promessa e de colaboração de há 20 ou 30 anos em Silicon Valley”. Não podia ser mais promissor. Filipa Pinto de Carvalho, advogada há 15 anos, sente na pele o mesmo fervilhar que atrai os estrangeiros ao nosso país. Foi uma espécie de chamamento que a fez regressar de Macau. Instalou-se em Lisboa e fundou três projetos, num deles juntou-se a Catarina Almeida Garrett – familiar do escritor e dramaturgo Almeida Garrett (1799-1854) –, regressada de São Paulo, no Brasil. São projetos agregadores num ecossistema que descreve como sendo inovador, criativo, impulsionador. Sim, Filipa está a falar de Portugal.

A AGPC (Almeida Garrett e Pinto de Carvalho), o primeiro projeto, de 2016, é uma sociedade de advogados que ajuda, de forma personalizada e estratégica, estrangeiros a investir ou a lançar os seus negócios em Portugal – 80% deles, norte-americanos, a grande maioria da Califórnia, mas há também brasileiros, britânicos, suecos, singapurenses e mais. “São pessoas cada vez mais disponíveis e interessadas em estar ligadas à comunidade portuguesa", e que chegam a Portugal para investir em áreas não só tecnológicas, como na sustentabilidade e na agricultura, entre outras.

Foi a passagem por um escritório de advocacia, onde Filipa trabalhou – e antes um estágio no Conselho Português para os Refugiados –, que a levou a dar este salto, para fugir do tradicional e promover a inclusão de estrangeiros no ecossistema do empreendedorismo nacional. Como tanto ela como Catarina Almeida Garrett já tinham experiência de viver noutro país aquilo que criaram não podia fazer mais sentido.

“Percebemos, porque experienciámos também, quais são as necessidades dos expatriados, as suas dores, as suas frustrações com aquilo que é diferente do que tinham no seu país de origem e no valor que dão à criação de uma ligação que é mais próxima e mais disponível para tudo que possam ser as suas necessidades num país novo”, explica Filipa Pinto de Carvalho. “Isto implica não só a perspetiva de negócio, de investimento, que é o foco do escritório, mas também termos uma equipa que dá apoio numa série de outras coisas, a que chamamos paralegal, na medida em que são um apoio real à realocação da família que vem. Temos um serviço de apoio à saúde para ajudá-los a navegar no sistema público e privado, encontrar os médicos certos, sentirem esse conforto de ter esse apoio, ou também o acesso à educação dos filhos, quando vêm as famílias. Existe essa preocupação total.”

Desta experiência surge a necessidade de Filipa fundar a consultora Here Partners, para ajudar a trazer outra parte significativa para estes negócios: financiamento para empreendedores, startups e PMEs. Muitos destes norte-americanos já chegaram ao Norte, à zona do Douro, à região Oeste, nas Caldas da Rainha, a Lisboa, à Costa Alentejana e ao Algarve (que sempre foi, de resto, um destino de eleição). Existe sempre alguma “frustração quando essas questões [burocráticas] ou desafios surgem em áreas em que normalmente esse empreendedor ou investidor não encontrava no seu país de origem”. E esse é o papel desta empreendedora: acompanhá-los durante esse processo para também ajudar a gerir expectativas. Ainda que muitos já tenham a “perceção de que quando se entra num ecossistema novo, que é diferente, ele é diferente com tudo o que traz, com todas as características que tem”. Daí que a paciência e resiliência sejam fundamentais neste caminho.

Filipa Pinto de Carvalho nasceu no Porto. Não tem na família exemplos de empreendedorismo. Mas não foi isso que travou o seu desejo de ir mais além e de criar ainda, para completar este investimento na fixação da inovação e do empreendedorismo dos Estados Unidos, a RedBridge Lisbon, que já se tornou um clube com 150 membros, sobretudo individuais mas também alguns corporativos, para ligar as comunidades empreendedoras de Silicon Valley a Lisboa.

“Como portuguesa, cujos negócios também cresceram em virtude deste novo olhar destes mercados para Portugal, sinto a responsabilidade e o entusiasmo de poder estar envolvida em algo que ajude a potenciar esta colaboração, ou seja, criar as condições para que estas pessoas se possam conhecer, para que o talento português possa ser conhecido e a partir daí possam ser criados novos projetos ou possam ser criadas condições de investimento”, explica Filipa. “Há um interesse dos americanos em participar de algo que sentem como estar a fervilhar. E diria que existem se calhar duas motivações: quem quer lançar a sua startup ou um negócio – e não só, há também empresas mais maduras a querer expandir –, olha para Portugal como um bom mercado de entrada para o mercado europeu, como um mercado teste; e depois também um bom sítio onde ter o seu primeiro ponto para depois expandir para outros mercados.”

Neste clube existe uma iniciativa a que Filipa chamou Mastermind, que é justamente um grupo entre membros em que as pessoas partilham os desafios que estão a sentir no crescimento do seu negócio, as dificuldades que estão a ter e os outros vão ouvir a sua experiência para tentar ajudar a ultrapassar esse desafio, dando sugestões. “É muito interessante porque surgem conversas muito francas, muito vulneráveis e muito abertas”, assume Filipa Pinto de Carvalho.

“Uma das coisas que me tem entusiasmado muito em promover este intercâmbio, nomeadamente com o ecossistema dos Estados Unidos, de Silicon Valley, é podermos beber e ser inspirados por esta maior tolerância ao risco, por este maior grau de ambição.” O que tipicamente não acontece em Portugal, onde culturalmente há um certo conservadorismo. “Não somos tanto assim, de facto, e é uma coisa em que, tendo vindo a construir a RedBridge, estou eu própria a aprender também e a crescer muito com isso, que é esta noção e entusiasmo inicial por uma ideia, e fazer sem medo de falhar e voltar a tentar fazer e tentar aprimorar”, confessa a advogada empreendedora. “Penso que às vezes temos uma cultura até de muita exigência em relação à nossa qualidade e pensamos que só podemos apresentar determinado produto ou serviço quando já está tudo absolutamente perfeito. E acho que esta ideia de haver uma tolerância maior no sentido de vamos, vamos experimentar, vamos fazer e vamos falhar e vamos aprimorar e vamos continuar é uma coisa com a qual podemos aprender muito.”

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