O nosso protagonista começou a fazer comunicação social, mas logo percebeu que isso o tornaria "um jornalista infeliz". Aos 19 anos mudou-se para os Estados Unidos para estudar Jazz, lá descobriu o fantástico nos filmes de série B. "Estes filmes são incentivos à imaginação porque com pouco dinheiro é preciso fazer grandes histórias." Quando voltou para Portugal trouxe a ambição de fazer um filme de zombies, e fez. O primeiro neste estilo no país. Logo depois apostou também num documentário.Há pouco tempo ingressou na banda desenhada e na literatura.Filipe Melo garante que"ter uma ideia, arranjar maneira de concretizá-la, vê-la a chegar a outros, quer seja na música, nos filmes ou na banda desenhada, é uma forma de inspirar as pessoas da mesma forma que nos inspiram a nós".Dinheiro Vivo - O que o faz trabalhar em tantas coisas diferentes?Filipe Melo - É importante não esquecer das coisas que nos traziam algum tipo de entusiasmo quando éramos mais novos, que são provavelmente as coisas que nos trazem entusiasmo agora. Mas por outro lado não esquecer da estabilidade nestes tempos complicados.Todas as pessoas trabalham neste sentido. O grande entusiasmo de um investidor é poder utilizar o dinheiro nas coisas que realmente queria quando era criança.D.V. - São quantos os projectos no cinema?Filipe Melo - O suficiente para preencher um serão, mas não são muitos.O primeiro chama-se "I'll See You in My Dreams", uma curta-metragem sobre zombies, de 2003. O segundo é um documentário que eu tenho muito orgulho, "A Curta Mais Longa", sobre o realizador português, Eurico Catatau. Depois há uma série que foi exibida na RTP, "Um Mundo Catita", baseada na personagem insólita que é o Manuel João Vieira, de 2007.D.V. - Como surgiu a produtora Pato Profissional?Filipe Melo - Na altura candidatámos o nosso primeiro projecto no Instituto de Cinema e Audiovisual. Acreditávamos que o instituto poderia dar algum subsídio e deu, só que através de uma produtora que não era nossa, e esta decidiu utilizar o dinheiro em outras coisas que não eram o filme. Então vi-me obrigado a fundar uma produtora. Foi por necessidade que surgiu o Pato Profissional Produções. D.V. - Tem mais ideias para o cinema?Filipe Melo - Tenho, mas neste momento é muito difícil concretizar uma ideia no cinema, especialmente na fase que estou em que não sou propriamente um realizador que tenha nome. A única maneira que teria para me dedicar aos filmes seria arranjar uma ideia tão boa que pudesse ter uma produção feita com pouquíssimos meios, porque cinema custa muito dinheiro. Eu e o João Leitão fizemos uma série de televisão com os nossos próprios meios, de 140 minutos, mais ou menos seis episódios de meia hora, que custou cerca de 150 mil euros. O dinheiro retornou porque vendemos a série, mas acabámos por não lucrar com isso. No filme dos zombies aconteceu a mesma coisa, gastamos cerca de 100 mil euros.Não é muito difícil fazer dinheiro com audiovisual, a questão é que houve uma clara evolução: primeiro o que eu queria era fazer o filme, não queria ganhar dinheiro. No segundo projecto o nosso objectivo era não perder dinheiro, e cumpriu-se.Já as bandas desenhadas efectivamente fazem dinheiro. Portanto depende do objectivo.D.V.- Há empresas que invistam nesses projectos?Filipe Melo - É muito importante que esses investimentos comecem a acontecer. Há 10 anos não havia uma indústria nacional de televisão, hoje em dia há e lucram com isso.Acho que o grande objectivo é haver um filme que prove que pode haver um sucesso comercial sem que seja mau. No dia em que aparecer um sucesso comercial que seja um filme bom e que as pessoas se identifiquem, as empresas vão começar a investir. Isso hoje em dia não acontece. Mas acho que o cenário vai mudar.A Zon tem os prémios multimédia que acho óptimos, mas deveria haver um apoio directo a produção de um filme. Há pessoas a trabalhar em projectos para concorrerem a este prémio, o que é muito bom. Num futuro próximo gostava de ver uma empresa dessas a investir 200 ou 300 mil euros num filme. Sem querer parecer vaidoso tenho a certeza de que se fizesse um filme de 200 ou 300 mil euros faria dinheiro. D.V. - Além deste prémio multimédia que outros incentivos há para o cinema?Filipe Melo - Não há outros prémios com essa dimensão. Normalmente o Instituto de Cinema e Audiovisual financia projectos muito "autorais", mas aí temos um problema porque há duas vertentes cinematográficas, uma autoral e outra mais comercial. O "génio" será conseguir juntar as duas coisas.Há exemplos como Woody Allen ou David Lynch que são autores mas que não deixam de fazer dinheiro com os filmes. De qualquer forma, o importante é: o Instituto de Cinema deve claramente apoiar os projectos mais autorais e a indústria cinematográfica deve apoiar os projectos que têm algum tipo de retorno comercial. No momento a única possibilidade que existe de se fazer um filme minimamente sustentável é através do Instituto de Cinema, e este não aposta em projectos mais comerciais, logo, o cinema em Portugal não faz dinheiro e ninguém investe. Eu recebo um relatório que mostra que há filmes que tiveram 500 mil euros de subsídio, mas têm 200 espectadores no cinema. Isto é um escândalo porque não é possível continuar a dar 500 mil euros a filmes que fazem 200 espectadores.D.V. - E a música...Filipe Melo - No meu caso é a música que sustenta as outras paixões porque, felizmente, eu toco com muita gente diferente, assim dá para gerir financeiramente o dia-a-dia. Quando há um mês com mais concertos posso investir noutras coisas que não têm directamente a ver com a música. Depois vem o retorno deste investimento. Dá para equilibrar as finanças tentando nunca ficar endividado até a ponta dos cabelos mas continuar fazendo as coisas que gosto. Além dos concertos, a música também me permite dar aulas.D.V. - O que é que o músico e o produtor têm que ter para concluir um trabalho actualmente?Filipe Melo - Na música é preciso muito pouco. É preciso estudar e tocar. Quanto ao talento é como diz o ditado: "quando a inspiração aparecer vai encontrar-me a trabalhar".Para que o produtor consiga concretizar alguma coisa é preciso arranjar dinheiro. No meu caso, arranjo dinheiro com a música e depois invisto em coisas que não estão relacionadas com ela. Também é importante associar-nos às pessoas que façam bem as coisas e aproveitar alguns canais de promoção. É preciso fazer com que as pessoas saibam que aquilo existe. As vezes vejo pessoas que fazem filmes e depois acabam por não mostrar a ninguém. No Pato Profissional temos uma máxima que é: "queremos que toda a gente veja os nossos filmes quer queiram quer não."Chateamos na Internet para divulgar as nossas coisas. Sempre que abrirem o facebook poderemos lá estar. D.V. - Como surgiu a banda desenhada?Filipe Melo - "As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy" é um bom exemplo de algo que foi ganhando um efeito de bola de neve. Escreveu-se um argumento para cinema, que era um tributo aos filmes dos anos 80. Não conseguimos produzir, então decidimos fazer uma banda desenhada. Eu e desenhador trabalhamos via Skype porque ele vive na Argentina. Fizemos 93 páginas ao longo de um ano. Eu pagava-lhe do meu bolso sem saber quanto iria vender depois.Quando acabou, andei de editora em editora. Não foi fácil encontrar quem desse o apoio total porque eram 93 páginas a cores e isso sai um livro caríssimo. Acabou-se o livro e a Tinta-da-China, que só editava a BD do José Carlos Fernandes, um autor que adoro, decidiu ficar com o livro, o que deu alguma energia para investir na produção. Fui a tantos sítios promover a BD! Fiz tudo o que pude para que chegasse ao máximo de pessoas, e valeu a pena. A editora Devir, no Brasil, pegou no livro. Tivemos, então, uma edição fora do país e depois tivemos a sorte de a editora Dark Horse Comics, que editou Sin City, Hellboy e 300, as BD que nós mais gostamos, encomendaram histórias de oito páginas para uma colectânea que eles vão lançar em Setembro, Outubro e Novembro. Valeu também a pena economicamente. Já vendemos 3500 exemplares num ano.Parece que as pessoas querem mesmo apoiar a banda desenhada portuguesa. D.V. - O que foi o projecto do livro sobre o "Senhor do Adeus"?Filipe Melo - Este livro claramente é um projecto económico suicida. Durante 10 anos eu ia ao cinema com o "Senhor do Adeus" e mais alguns amigos. Este livro é o resultado directo disso. Comecei a gravar as coisas que ele dizia, o que deu origem a um blogue com uma série de visitantes que liam as insólitas críticas do João Costa. Ele tinha uma opinião muito particular sobre os filmes e sobre a vida, isso, de alguma forma, explicava porque ele estava a acenar aos carros. Dava para perceber, ouvindo-o falar, que aquilo não era o trabalho de um louco. O livro é um tributo a isso, a pessoa e ao que representou para mim.Obviamente não vai ser um best-seller, é um livro muito insólito. Eu já disse ao editor que o meu objectivo é que ele não perca dinheiro. Mas eu quero que toda a gente compre.D.V.- Quantos discos tem?Filipe Melo - Meu, um. Mas já gravei com muitas pessoas, somando talvez dê uns 15. É importante dizer que as pessoas não ganham dinheiro com discos, isto é um mito. Especialmente com discos de Jazz. Acho que nenhum músico faz dinheiro assim, lucram com o espectáculo. A grande vantagem de ter um disco é que depois há um itinerário que aparece por causa dele e aí pode-se recuperar o investimento feito.D.V. - Na generalidade do seu trabalho, quantos prémios já ganhou?Filipe Melo - Tenho uns poucos. Tenho alguns prémios que não representam dinheiro, a única coisa que fazem é dar energia. Fico muito contente quando são uma consequência e não um ponto de partida, não significam uma ambição. D.V.- Quais são os projectos para o futuro?Filipe Melo - Conseguir concluir o segundo volume da banda desenhada que tem que ser lançado muito em breve. É um livro muito bonito com desenhos maravilhosos.