Fim de Fridão leva a pedido de embargo de três barragens da Iberdrola no Tâmega

Iberdrola está a desenvolver o Sistema Eletroprodutor do Tâmega, um investimento de 1.500 milhões de euros, até 2023.
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O ponto final colocado pelo ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, no Parlamento, em Lisboa, à construção da polémica barragem do Fridão, no rio Tâmega, causou ondas de choque a mais de 400 quilómetros, na freguesia de Fridão, que faz parte do concelho de Amarante, e arredores.

A reação mais radical em toda a região foi a do presidente da Câmara de Celorico de Basto, que afirmou que, perante o cancelamento da barragem de Fridão, “tudo fará” para “embargar” as três barragens a montante que estão a ser construídas pela Iberdrola, para evitar um “drama colossal” no rio Tâmega e no concelho. Contactada pelo Dinheiro Vivo, a Iberdrola ainda não reagiu a esta ameaça de embargo.

No entanto, fonte oficial da Iberdrola tinha já confirmado ao Dinheiro Vivo que “não está a negociar a possibilidade de assumir a concessão do Complexo Hidroelétrico de Fridão”. “De recordar que a Iberdrola se encontra a desenvolver o Sistema Eletroprodutor do Tâmega, o maior investimento que mantém em Portugal, num total de 1.500 milhões de euros, até 2023”, disse a mesma fonte.

“Para garantir que em Celorico de Basto haja água no verão e a mesma não seja retida nas três barragens a montante da de Fridão, e para que não haja descargas e inundações no inverno, vamos lutar pelo embargo e cancelamento dessas três barragens”, revelou o autarca em declarações à Lusa, referindo-se às empreitadas em curso em Daivões, Gouvens e Alto Tâmega, incluídas no Sistema Eletroprodutor do Tâmega, concessionado à Iberdrola.

Notando que “tudo fará” para “defender o rio Tâmega” e “embargar a construção das três barragens”, Joaquim Mota e Silva sustentou ser esta a opção para o “drama colossal” que tem em mãos e evitar, “daqui ou dois ou três anos, um verdadeiro atentado” à região. “A minha intenção é defender o rio Tâmega. Isso passará pelo embargo”, explicou.

Notando que “não foi estudado o impacto ambiental da não construção da barragem de Fridão conjugada com a construção de outras três a montante”, o autarca considera estar perante um “drama colossal” e um “problema grave”.

“Os estudos de impacto ambiental foram feitos com a realidade da construção de quatro barragens. Num cenário em que a mais a jusante não é construída, temos um problema grave nesta zona do Tâmega”, alertou. O autarca esclareceu que, com a construção das outras três barragens, a zona do rio Tâmega do concelho de Celorico de Basto ficará, no verão, com “a água retida” naquelas infraestruturas e, “no inverno, cheias grandes”.

“Não quero, no verão, ver um fio de água no rio Tâmega no concelho e, no inverno, assistir a descargas. A minha consciência não me permite deixar isto passar em claro”, justificou.

Para o autarca, o cancelamento da barragem do Fridão, anunciado pelo ministro do Ambiente, criou “um problema mais complexo” do que aquele que existia. As barragens a que Joaquim Mota e Silva se refere são as de Daivões, Gouvens e Alto Tâmega, em construção nos concelhos de Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar, Boticas e Chaves, no distrito de Vila Real.

O Sistema Eletroprodutor do Tâmega é um dos maiores projetos hidroelétricos realizados na Europa nos últimos 25 anos, prevendo 1.500 milhões de euros de investimento e a criação de 13.500 empregos diretos e indireto durante o período de maior volume dos trabalhos (2018-2020).

Já o presidente da Câmara de Mondim de Basto alertou para os prejuízos causados no município e populações nestes 10 anos de indefinição sobre a barragem do Fridão. "Lamento que o Governo não tenha articulado com os municípios esta decisão e devia tê-lo feito”, afirmou à agência Lusa o autarca socialista de Mondim de Basto, Humberto Cerqueira.

O presidente disse que há, no entanto, “questões de natureza ambiental e também compensatória” que têm de ser avaliadas. Por causa da barragem do Fridão, o Plano Diretor Municipal (PDM) de Mondim de Basto foi suspenso e, durante estes últimos anos, populares e empresários queixaram-se também de terem a vida em suspenso devido ao impasse na construção.

“Há um conjunto de prejuízos que estão quantificados e que nós queremos negociar com o Governo e, se não houver essa disponibilidade, naturalmente que nós avaliaremos o recurso aos tribunais, o que será feito apenas em último caso se estas negociações falharem”, salientou Humberto Cerqueira.

Depois, acrescentou, “há também questões de natureza ambiental, porque é preciso perceber como é que o rio Tâmega se vai comportar uma vez que estão a ser construídas barragens a montante”. “O rio Tâmega não é rio livre, já tem três barragens que estão a ser construídas a montante e é preciso perceber o comportamento do rio nos municípios a jusante, e não há nenhuma garantia neste momento, não conheço, de que o rio não vai sofrer consequências ao nível do caudal”, sublinhou.

Um dos maiores opositores à construção da barragem do Fridão, o presidente da Câmara de Amarante, José Luís Gaspar, ficou feliz com a decisão, sublinhando que um eventual colapso submergiria a cidade “em 13 minutos”. “Estávamos a falar de uma parede com 97 metros de altura situada a oito quilómetros do centro de Amarante. Em caso de queda, e os acidentes acontecem, em 13 minutos teríamos a cidade submersa, incluindo o mosteiro de São Gonçalo”, disse o autarca à Lusa. “Seria muito, muito penoso”, rematou.

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