Parece que não é bem assim. O alerta para uma eventual bolha enorme surge num dos capítulos analíticos do relatório da primavera sobre a Estabilidade Financeira Global, hoje divulgado. No estudo, o FMI repara que "mesmo estes fundos plain vanilla podem colocar riscos à estabilidade financeira".
"As opções de fácil resgate e a presença de vantagem do primeiro a agir podem criar riscos de corrida [ao levantamento dos produtos] e, em resultado disso, as dinâmicas de preços podem contagiar outras partes do sistema financeiro através dos mercados de financiamento e dos canais dos balanços e dos colaterais", frisa o estudo semestral sobre a finança global.
E, pior ainda, o FMI refere que no caso de haver uma corrida ao levantamento desses fundos, é fácil antever que um colapso dos preços de mercado dos ativos (desvalorização, rebentamento da bolha) e subsequente "contágio" e "volatilidade" nos mercados internacionais, com óbvias "consequências macrofinanceiras".
O que são produtos "plain vanilla"?
São caixotes de ativos em que, ao contrário dos pacotes contaminados com subprime que levaram à derrocada do sistema financeiro global a partir de 2007, é fácil para o investidor ver o que está lá dentro.
Segundo uma definição do Commerzbank, são "valores mobiliários cotados em bolsa, ou fora do mercado regulamentado, que não têm valor nominal e incorporam direitos".
Podem ser "warrants", "instrumentos financeiros associados a ativos como ações, índices ou taxas de câmbio que amplificam os movimentos de preço dos mesmos".
"Este efeito é denominado efeito de alavanca ou alavancagem. Um warrant confere ao respetivo detentor o direito, mas não a obrigação, de comprar ou vender o ativo subjacente a um preço pré determinado, num período de tempo específico entre a data de aquisição e a data de maturidade".
Estes plain vanilla dão uma "flexibilidade consideravelmente maior [ao investidor] do que a obtida numa situação em que se investe diretamente nestas", acrescenta o prospeto do banco alemão.
Inquietação em Washington
É por terem esse poder de amplificação dos movimentos dos preços que o FMI está muito preocupado. "Mesmo fundos de investimento simples, como os fundos mútuos [mutual funds], podem colocar em risco a estabilidade" do sistema como um todo. "Os reguladores precisam de saber mais sobre eles através de uma maior vigilância da supervisão, melhores dados e acompanhamento", acrescenta.
Os fundos mútuos são, basicamente, os fundos de investimento em que a gestora vai canalizando dinheiro de vários investidores para comprar ativos.
"O debate sobre os possíveis riscos relacionados com a indústria intensificou-se. Os riscos de alguns segmentos - fundos de alto risco [hedge funds] alavancados e fundos do mercado monetário - foram já amplamente reconhecidos. No entanto, existe um debate a correr sobre os riscos dos menos alavancados, os produtos de investimento plain vanilla, como fundos mútuos simples e fundos de obrigações e ações transacionados através de mercados cambiais".
Trata-se de uma indústria que "está a crescer", "está focada sobretudo nas obrigações de menor liquidez" e em que existem "preocupações de que, em algumas economias avançadas, muitos desses fundos possam estar a comprar cada vez mais ativos semelhantes, à medida que os bancos vão saindo deste mercado", diz Gaston Gelos, o chefe de divisão do FMI responsável pela análise.
Um mercado que vale todo o PIB mundial
70 milhões de milhões (biliões) de euros ou 75 biliões de dólares é o tamanho do mercado de gestão de ativos à escala global, o que está na mão dos fundos de investimento. É 40% de todo valor circulante em ativos financeiros, à escala planetária, calcula o FMI.
Só para se ter uma ideia da dimensão da "indústria", é setenta vezes maior do que todo o programa de expansão monetária anunciado pelo Banco Central Europeu (BCE) (cerca de um bilião de euros entre março deste ano e setembro de 2016, à razão de 60 mil milhões de euros por mês injetados na economia da moeda única).
Todo o dinheiro que alojado na "gestão de ativos" global equivale a "100% do PIB mundial", estima o FMI. Mas dramático mesmo é que "em particular, os fundos de obrigações têm crescido de forma significativa, investindo em ativos com menos liquidez, como obrigações dos mercados emergentes".
Ora, "isto aumentou o desalinhamento na liquidez dos ativos e passivos dos fundos porque muitos deles permitem que os investidores façam resgates numa base diária". É extremamente fácil sair destes investimentos, pouco oneroso até, constata a análise do FMI.
Assim, "grandes resgates nestes fundos - possivelmente espoletados por um evento externo, como o aumento mais rápido que o antecipado nas taxas de juro dos Estados Unidos - podem ter um impacto no mercado de contágio amplo, especialmente se os bancos não conseguirem ou não estiveram dispostos a fornecer liquidez em tal situação".
"A evidência diz que é preciso uma melhor supervisão dos riscos a nível institucional", defende a instituição de Washington.