As exportações portuguesas vão ressentir-se relativamente pouco caso a crise na China se agudize e isso conduza a uma forte retração nas importações da grande economia asiática, mostra um estudo com a chancela do Fundo Monetário Internacional (FMI) ontem divulgado. Em todo o caso, além da dimensão comercial, Portugal tem hoje laços de dependência muito grandes com o país por este se ter tornado num investidor de peso. O risco pode ser maior por essa razão.
O trabalho assinado por Alexei Kireyev and Andrei Leonidov, titulado “China’s Imports Slowdown: Spillovers, Spillins, and Spillbacks”, parte de um cenário em que as importações chinesas afundam devido a um “reequilíbrio” do seu modelo de crescimento, mais virado para dentro e não tanto assente na expansão das suas relações económicas com os restantes países do globo.
Uma queda "hipotética" nas compras realizadas pelos chineses ao resto do mundo tem, claro, consequências devastadoras para alguns países, sobretudo os seus vizinhos, e menos para outros, como é o caso de Portugal (ainda assim o impacto é visível em 2017 e 2018) ou mesmo muito pouco nos casos de Grécia e Chipre.
Os dois peritos partem da hipótese de que as importações caem cerca de 10% em 2016 e 2017 face ao cenário de base e que isso conduz, em média a uma redução equivalente a 1,2% do PIB nas receitas das exportações de todos os restantes países, efeito que depois é amplificado até uma quebra de 2% em 2017 pelas relações de interdependência desses países entre si. O efeito adverso tende depois a dissipar-se entre 2018 e 2020.
Os economistas concluem que os efeitos de uma crise de procura externa efeitos incluem repercussões diretas da China sobre os seus parceiros comerciais. Falam no tal contágio entre economias ("repercussões") e no ricochete deste retrocesso na própria China que depois gera novos efeitos negativos pelo mundo fora.
Forte impacto na Ásia e no Pacífico
“O estudo conclui que esses efeitos de rede serão provavelmente substanciais, podendo amplificar o choque inicial e alterar a direção da sua propagação”, escrevem no resumo.
“O impacto sobre Ásia e Pacífico será o mais forte, seguido de Médio Oriente e Ásia Central.” “O impacto sobre a África subsaariana seria percetível apenas para alguns países” e as “repercussões sobre a Europa, incluindo a zona euro, serão moderadas”.
“As repercussões sobre o hemisfério ocidental, incluindo os Estados Unidos, seriam muito marginais”, mas “os exportadores de matérias primas metálicas e não combustíveis podem experimentar o maior impacto negativo”, avisam.
Assim, diz o estudo, a região mais afetada pelo choque nas suas exportações é, de longe, Hong Kong (uma região administrada pela China) que em média perde o equivalente a 9,7% do PIB em receitas de vendas ao exterior entre 2016 e 2020 face ao que é o cenário de base atualmente assumido.
Só em 2016 o choque custa-lhes 17% do PIB em receitas de exportações. Logo a seguir aparece a República do Congo que leva um rombo médio de 6% nos cinco anos em análise. E depois vem Singapura com 5,5% do produto em xeque.
O país menos afetado do mundo é São Tomé e Príncipe, com um impacto negativo nas vendas na ordem dos 0,02%.
O caso de Portugal
Na Europa, a situação é diversa. Portugal está mais ou menos a meio da tabela europeia, com um impacto médio que equivale a 0,6% do PIB a menos nas exportações nesses cinco anos. O efeito de uma crise comercial desencadeada pela China é maior no segundo e no terceiro ano (2017 e 2018) do período da simulação, com perdas de 1% e 0,9% do PIB português, respetivamente.
Isto é facilmente explicado pela relativamente baixa intensidade das exportações nacionais para a grande economia asiática.
Em 2015, 1,7% das vendas totais de mercadorias de Portugal para o estrangeiro teve como destino final a China, cerca de 839 milhões de euros. As vendas nacionais para lá ficaram praticamente congeladas no ano passado, reflexo já do abrandamento do mercado chinês: cresceram apenas 0,1% face a 2014.
Do lado das importações, o cenário é bem diferente: Portugal comprou mercadorias no valor de 1,8 mil milhões de euros à China em 2015, tendo este crescido 11% em termos anuais. Vale 3% do total anual importado pela economia portuguesas.
Os países que mais têm a perder em termos comerciais são Bélgica (média de 2%) e República Checa, com um impacto negativo esperado de 1,8% do PIB nas vendas. Na Europa, os mais isolados da crise chinesa são os mercados de Chipre (0,15%) e Grécia (0,3%). A Europa perde em média 0,85%. Os Estados Unidos apenas 0,25%.
Mas Portugal está mais exposto do que se pensa
Claro que a exposição de Portugal a turbulências na China vai muito além da dimensão comercial. É que nos últimos anos, o capital chinês entrou em força na economia por via das privatizações e do investimento em valores imobiliários (recorde-se o caso dos Vistos Gold).
Uma crise mais forte de procura na China, uma recaída dos seus mercados de capitais ou uma desvalorização forte da moeda (yuan) poderiam perturbar bastante as operações na Europa.
No caso português é útil recordar que a China desembolsou 3049 milhões de euros por uma participação de 25,49% na EDP; a chinesa State Grid juntamente com Oman Oil deram 750 milhões por 51% da REN; e a Fosun cerca de 1500 milhões de euros por 85% da Caixa Seguros.
Além destas posições, muitos cidadãos e empresários chineses têm conseguido aplicar dinheiro em imobiliário em Portugal, nomeadamente de luxo.