FMI. Guerra fratura globalização, mas para já favorece países ricos no IDE e novo financiamento

No entanto, o FMI avisa que, a prazo, todos podem perder. Risco de fragmentação financeira (entre bancos, fundos e empresas do Ocidente e do Oriente) vai perturbar estabilidade financeira mundial, investimento entre países, sistemas de pagamentos e valor dos ativos.
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Os países "alinhados" com a ordem económica mundial definida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), onde os pilotos são Estados Unidos, Europa e Japão, tendem hoje a ser mais favorecidos nas decisões de investimento direto estrangeiro (IDE) e como destino de financiamento, em detrimento de outras regiões do globo mais "distantes" e menos "amigas" deste quadro político e económico, diz o FMI, em dois estudos divulgados esta quarta-feira.

Portugal não é mencionado, mas é seguramente um dos países alinhados e "amigos" na lógica da instituição dirigida por Kristalina Georgieva.

Mas há problemas: concentrar capital e financiamento nas economias avançadas significa um aumento dos riscos de diversificação de investimento do outro lado da barreira, apontam os dois estudos pré-publicados esta quarta e que integram os novos Panorama Económico Mundial (World Economic Outlook) e Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global.

Estas duas publicações serão divulgadas na sua totalidade (e com previsões económicas para os países de todo o mundo) na semana que vem.

De acordo com os trabalhos avançados, em contrapartida, a fissura que se está a abrir entre blocos económicos por causa da guerra pode prejudicar, a prazo, o fluxo de dinheiro dirigido a países ditos "desenvolvidos ou avançados" onde há imensos residentes (ligados a economias emergentes e menos alinhadas ou mesmo em conflito com o Ocidente) que podem defrontar-se com maiores entraves aos seus investimentos. É o outro lado da moeda da "fragmentação" em curso de que fala o FMI.

O tom do FMI é de aviso. A guerra da Rússia contra a Ucrânia está a alterar as perceções e a confiança de investidores e fundos capitalistas, e assim, também as deslocações de capital e de interesses a nível global, que parecem estar a preferir o mundo ocidental e o grupo das economias mais avançadas em detrimento das economias emergentes.

A China é um dos países que, diz o FMI, está a perder quota de mercado no IDE dirigido aos seus mercados estratégicos (tecnológicos, por exemplo).

A ideia é de fundo é que, estando fora desta ordem (os não alinhados ou os não-amigos, como Rússia e até China), tais regiões podem ficar a perder.

E os países ditos "avançados" podem ter aqui uma nova oportunidade para captar capital e interesses financeiros dos países que continuarem a ser "amigos", de acordo com a expressão usada pelo Fundo no estudo do outlook.

No entanto, como referido, os riscos são grandes, segundo a instituição sediada em Washington.

Se a fragmentação se consumar, problemas novos e maiores (globais) surgirão para todos e todos podem vir a perder no fim da história.

O risco de fragmentação financeira (entre bancos, fundos e empresas do Ocidente e do Oriente) é relevante e "tem implicações importantes para a estabilidade financeira mundial pois afeta o investimento entre países, os sistemas de pagamentos internacionais e o valor dos ativos", diz o FMI.

"Por sua vez, isto alimenta a instabilidade, aumentando os custos de financiamento dos bancos, baixando a sua rendibilidade e reduzindo o crédito a setor privado [empresas e famílias]", acrescenta o Fundo.

Investimento e produção tende a ir para países amigos ou de confiança

Segundo o FMI, as perdas a longo prazo pode chegar a 2% da produção global devido à deslocação do investimento direto estrangeiro. É por isso "que a integração global necessita de ser defendida de maneira robusta".

"À medida que as tensões geopolíticas aumentam, as empresas e os decisores políticos estão cada vez mais a estudar estratégias para tornar as cadeias de abastecimento mais resistentes, deslocando a produção para casa ou para países de confiança", refere o estudo assinado por JaeBin Ahn, Ashique Habib, Davide Malacrino e Andrea Presbitero.

Em contrapartida, esta fragmentação em curso no IDE "atinge mais duramente as economias emergentes".

O FMI recorda que "o secretário do Tesouro dos EUA defendeu em abril de 2022 que as empresas deveriam avançar numa maior partilha das cadeias de abastecimento com regiões mais amigas".

"China quer substituir tecnologia importada por alternativas locais"

"Mais recentemente, a Comissão Europeia propôs o Net Zero Industry Act para combater os subsídios na Lei de Redução da Inflação dos EUA. E a China pretende substituir a tecnologia importada por alternativas locais para depender menos dos seus rivais geopolíticos", observa a investigação agora publicada.

"Estes exemplos destacam a tendência crescente de fragmentação geoeconómica".

"A nossa análise do impacto sobre o IDE mostra que tais fluxos têm sido caracterizados por padrões divergentes entre países anfitriões, particularmente em setores estratégicos, como os semicondutores", acrescenta.

"O fluxo de IDE estratégico para países asiáticos começou a diminuir em 2019 e só recuperou ligeiramente nos últimos trimestres, exceto no caso dos fluxos para a China que ainda não recuperaram", exemplificam os autores.

Economias avançadas também não estão imunes

O trabalho do FMI refere que "ao longo da última década, a quota dos fluxos de IDE entre economias geopoliticamente alinhadas ["amigas"] tem continuado a aumentar, mais do que a quota para países geograficamente mais próximos".

Isto "sugere" que as preferências geopolíticas estão a comandar mais o IDE do que a simples proximidade geográfica entre economias, por exemplo.

"Estas tendências indicam também que se as tensões geopolíticas continuarem a intensificar-se e os países continuarem a divergir na geopolítica, o IDE pode tornar-se ainda mais concentrado dentro dos blocos dos países alinhados."

Adicionalmente, o FMI observa que "a crescente fragmentação pode levar a que os investimentos diretos existentes sejam deslocalizados".

Nesta caso, "as economias emergentes e em desenvolvimento são mais vulneráveis à deslocalização do IDE do que as economias avançadas, em parte porque dependem mais de fluxos de países que se encontram geopoliticamente mais distantes".

No entanto, várias grandes economias emergentes são vulneráveis à deslocalização do IDE, o que indica que o risco de fragmentação não se concentra apenas em alguns países".

E as economias avançadas "também não são imunes, particularmente as que têm stocks significativos de IDE em setores estratégicos", remata o FMI.

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