A economia portuguesa ia crescer 1% este ano, previa o Fundo Monetário Internacional (FMI) no outlook de abril (divulgada há menos de um mês), mas afinal deve avançar muito mais este ano, já descontando o efeito da inflação. O ritmo previsto para a economia este ano mais do que duplica, indica o FMI.
De acordo com as novas previsões do Artigo IV sobre Portugal, o estudo anual elaborado pela missão do FMI ao país, a economia deve crescer 2,6%, previsão que supera largamente todas as outras feitas mais recentemente, inclusive a do governo, que em abril, no Programa de Estabilidade, disse estar à espera de 1,8%, por exemplo.
A missão do FMI, atualmente liderada pela economista Rupa Duttagupta, reviu ligeiramente em baixa a inflação prevista para este ano (de 5,7% no outlook económico mundial, para 5,6% agora), marca que supera o agravamento de preços estimado pelo Ministério das Finanças, Fernando Medina, também no Programa de Estabilidade (inflação prevista de 5,1% em 2023).
A economia estará nesta altura [segundo e terceiro trimestre] a experimentar um novo abrandamento, sobretudo por causa da paralisação na procura interna, mas depois no final do ano é capaz de voltar a acelerar, segundo o Fundo.
Turismo explica "surpresa" no crescimento
Em conferência de imprensa, a chefe da missão revelou que "fomos surpreendidos pelo resultado no primeiro trimestre, por um crescimento muito mais forte face ao que tínhamos antecipado",
"A nossa perceção é que esse foi largamente resultado do crescimento do turismo, setor onde a retoma foi mais forte do que previa". "Mesmo que a economia não crescesse mais no resto do ano, em 2023 cresceria mais de 2%, só por causa deste fator [explosão no turismo no arranque deste ano]", afirmou Rupa Duttagupta na conferência de imprensa virtual.
Na nota sobre o novo Artigo IV, que é o estudo anual do FMI sobre cada um dos seus países sócios, a missão de economistas "prevê que o crescimento real do PIB (Produto Interno Bruto) abrande no resto do ano, atingindo uma média de 2,6% em 2023 e que a inflação recue para 5,6%".
"Prevemos que o aumento do custo de vida interrompa o crescimento da procura interna e que o menor crescimento mundial e da área do euro enfraqueça o crescimento das exportações", acrescenta o FMI.
Depois, de 2023 em diante "prevê-se que o crescimento estabilize em cerca de 2% a médio prazo" e que "à medida que descem os preços da energia, a inflação continue a abrandar".
"No entanto, prevê-se que a inflação subjacente seja mais rígida, devido a um mercado de trabalho restritivo e às margens de lucro empresariais elevadas", nota a missão do FMI.
Riscos "globalmente equilibrados" diz o FMI
Os riscos para as perspetivas económicas de Portugal a prazo "são globalmente equilibrados". Os riscos negativos parecem ser compensados pelos positivos e mais favoráveis, dizem os analistas do FMI.
Do lado negativo, o FMI deteta "uma maior restritividade das condições financeiras face ao que se previa, um abrandamento económico mais acentuado a nível mundial ou regional e uma maior volatilidade dos preços dos produtos de base, fatores que podem prejudicar o crescimento da economia portuguesa".
Além disso, "com a subida das taxas de juro, os bancos poderão tornar os critérios de concessão de crédito ainda mais restritivos, o que pesará sobre a capacidade de serviço da dívida das famílias e empresas".
"Isto combinado com uma possível correção acentuada dos preços da habitação, pode aumentar o risco sistémico e travar a procura interna", avisa o Fundo.
Ao nível da inflação, "os principais riscos ascendentes [que podem fazer subir a taxa de inflação] decorrem de preços da energia mais elevados durante mais tempo e das pressões salariais nominais".
Em contrapartida, há riscos positivos que podem materializar-se e compensar. O FMI diz que "uma dinâmica mais rápida do turismo e uma resiliência sustentada do mercado de trabalho podem ajudar a dar força ao crescimento".
Muito cuidado com os atrasos no PRR
Refere ainda que "no médio prazo, a fragmentação mundial ou a utilização mais lenta dos fundos do instrumento Next Generation EU (NGEU) prejudica o potencial de crescimento".
A missão do FMI confessa com algum receio relativamente à execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Assim alerta que "a implementação a tempo do ambicioso Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal apoia a transição para uma economia mais produtiva, resiliente e verde".
"O PRR deverá impulsionar a produtividade através do aumento da Investigação & Desenvolvimento (I&D) e da despesa pública para apoiar as pequenas e médias empresas", diz a nova avaliação ao País.
O Plano "inclui também reformas para catalisar as transformações digitais das empresas privadas e do setor público, promover as competências digitais da mão-de-obra, modernizar o sistema educativo, apoiar as energias renováveis e reformular as políticas ativas do mercado de trabalho. A conclusão efetiva do PRR contribui igualmente para estimular o investimento privado", releva o FMI.