Formação de funcionários vai contar para dar estrelas aos hotéis

Governo altera portaria das classificações até final do ano e testa mudança de critérios junto do setor
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Pela primeira vez na história da hotelaria, as competências dos trabalhadores vão contar para a classificação e para a atribuição de estrelas. A novidade foi deixada ontem por Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, no encerramento do 28.o Congresso Nacional de Hotelaria e Turismo, que decorreu em Ponta Delgada. Ana Godinho apela a uma maior competência do setor, numa altura em que o turismo gera emprego pela primeira vez em seis anos.

“Aqui deixo o repto para que, no âmbito da revisão da portaria da classificação dos empreendimentos turísticos, passemos a ter uma área dedicada aos recursos humanos no sistema de classificação turística. Se os recursos humanos são tão fundamentais nos empreendimentos turísticos, como é que temos não sei quantos requisitos relacionados com estrutura física, serviços, etc, mas não temos nada sobre recursos humanos?”, questionou a governante, levantando o pano sobre uma das grandes promessas feitas ao setor assim que tomou posse.

O que quer isto dizer? Quando, até final deste ano, Ana Mendes Godinho encerrar a revisão do modelo que, entre outros vai voltar a tornar obrigatória a classificação de todos os hotéis, vai também introduzir alterações nos critérios que determinam essas mesmas classificações - as estrelas.

Atualmente, as regras ditam que todos os hotéis que querem apresentar ‘estrelas’ - desde 2014 que esta classificação é opcional -, devem respeitar determinados requisitos. Um hotel de 1 estrela tem de cumprir 27 requisitos, entre eles ter um elevador quando existem mais de 3 pisos, climatização, e áreas comuns mobiladas.

Já um hotel para apresentar 5 estrelas tem de cumprir 53 requisitos. Mas a contabilização não é líquida, porque cada critério vale pontos e, no fim das contas é o número de pontos que vale. Entre os requisitos para ter cinco estrelas está, por exemplo, a existência de um cofre no quarto, um kit de amenities que pode ser médio ou superior, contando com escova e pasta de dentes, lâmina e gel de barbear, lima de unhas e algodão de limpeza, a pedido. Ao todo, têm de somar, pelo menos 278 pontos.

Estes itens inserem-se em pacotes mais largos que têm a ver com instalação, serviço, equipamento, lazer e negócios ou qualidade e sustentabilidade, mas onde nunca foi colocada qualquer referência aos recursos humanos.

É preciso “valorizar cada vez mais as pessoas”, disse Ana Mendes Godinho, perante 400 congressistas do setor, entre eles vários diretores e donos de hotel. Na audiência, Raul Martins, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal, não podia estar mais de acordo. “Faz todo o sentido qualificar e formar os trabalhadores”, afirmou ao Dinheiro Vivo, lembrando que o conforto dos hóspedes “é tanto medido pela qualidade dos quartos como pela atenção e competência da equipa que os recebe”.

Este ano, o turismo foi responsável pela criação de 45 mil novos empregos, com a hotelaria a representar 17 mil novos postos de trabalho e a restauração, agora mais aliviada com a redução do IVA , os restantes 28 mil. É a primeira vez em seis anos em que o setor registou crescimento de emprego. “Se compararmos setembro de 2016 com setembro de 2015 temos um crescimento de 29 mil novas pessoas a trabalhar declaradas à Segurança Social”, detalhou ainda a secretária de Estado.

Os números, tinha já afirmado Raul Martins na abertura do evento, “permitem-nos reafirmar que o turismo pode ser considerado o motor da economia nacional”. E não é só o emprego: do lado dos empresários hoteleiros, contabiliza-se “um investimento direto que representa mais de 16 mil milhões de euros de ativos imobiliários e um total de 235 mil camas distribuídas por hotéis, hotéis-apartamentos e pousadas”. Os proveitos diretos são na ordem dos 2,5 mil milhões de euros, lembrou.

Marcelo Rebelo de Sousa, que enviou uma mensagem para ser lida neste congresso, reforçou: “Aposta na diferenciação, na qualidade, na formação, na inovação, na promoção do património natural e cultural” são fundamentais para que o turismo não seja “um epifenómeno”, afirmou o Presidente, que juntou vozes a inúmeros players do setor que aproveitaram a ocasião para aplaudir o contributo inegável do setor para o crescimento do PIB.

*em Ponta Delgada, a convite da AHP

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