Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
Dados mostram que houve 717 milhões de hectolitros de vinho acumulados no mundo entre 2000 e 2023 — equivalente a 37 meses de consumo global sem produzir uma única uva. O consumo mundial caiu 2,7% em 2025, atingindo o nível mais baixo desde 1957. No vinho do Porto, produtores confirmam que o consumo caiu pelo menos um terço face a 20 ou 30 anos e o preço da uva ressentiu-se fortemente. Mesmo com uma quebra de produção de 40% no Douro em 2025, os stocks continuaram a aumentar. Falámos com o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, sobre o papel que a instituição pode ter para tentar inverter estes movimentos.
Os preços da uva estão a cair para níveis historicamente baixos, sobretudo no Douro. Que papel deve ter a ViniPortugal na defesa do valor do produtor e na correção desta assimetria entre notoriedade internacional e rendimento real na origem?
A ViniPortugal não fixa preços nem regula a produção. A nossa missão consiste em aumentar o valor dos vinhos portugueses nos mercados externos, através da promoção em segmentos de maior preço, da seleção de canais qualificados e da valorização da origem. Compete também à ViniPortugal defender, junto das entidades competentes, medidas que assegurem uma distribuição mais equilibrada do valor ao longo da cadeia.
O setor enfrenta excedentes crónicos, pressão climática e perda de competitividade. Que estratégia concreta tem a ViniPortugal para reposicionar Portugal em segmentos de maior valor e reduzir a dependência de vinhos de baixo preço?
Portugal nunca poderá competir nos mercados internacionais, de forma sustentável, através do preço mais baixo. A baixa dimensão média dos produtores nacionais, a baixa produtividade média por hectare, os custos crescentes, a fragmentação empresarial e as características da nossa viticultura tornam esse caminho economicamente vulnerável. A estratégia da ViniPortugal está orientada para a valorização e isso implica selecionar mercados, canais e consumidores nos quais a diferenciação portuguesa tenha capacidade para gerar margem. A redução de excedentes não pode depender unicamente da promoção. Requer previsão de procura, disciplina produtiva, instrumentos de gestão de crise, inovação de produto e coordenação entre organizações regionais, comércio, produção e administração pública. A ViniPortugal contribui com informação comercial e acesso ao mercado, dentro das suas competências. Refira-se, aliás, que em 2025 o nosso país foi o único que cresceu em exportações em volume e o que menos caiu em valor, refletindo o trabalho que o sector tem vindo a fazer nos mercados internacionais.
A ViniPortugal investe milhões em promoção externa. Qual vai ser o orçamento do próximo ano e que métricas objetivas existem para provar que estas ações aumentam valor, preço médio e margem para o produtor?
O orçamento de promoção aprovado para 2026 é de 8,3 milhões de euros e o orçamento do próximo ano deverá ser apresentado depois da conclusão do processo de planeamento, da articulação com as organizações do sector e da aprovação pelos órgãos competentes. A ViniPortugal realiza mais de 100 ações anuais e envolve mais de 500 agentes económicos nacionais. Esta escala exige uma avaliação que ultrapasse indicadores de atividade, como o número de provas, participantes, contatos ou referências na comunicação social. A margem do viticultor não pode ser atribuída diretamente a uma ação promocional, porque depende dos contratos dentro da cadeia, dos custos de produção, dos volumes, da estrutura empresarial e da regulação regional. Na ViniPortugal procuramos acções que ajudem os produtores a abrir novos canais de venda, valorizando a produção nacional.
O Vinho do Porto é o produto português com maior notoriedade internacional, mas a ViniPortugal não o inclui nas ações de promoção externa. Como justifica esta ausência e que impacto considera que isso tem na perceção global da marca “Wines of Portugal”?
O Vinho do Porto é, indiscutivelmente, um dos maiores ativos da notoriedade internacional de Portugal e um dos seus mais importantes embaixadores nos mercados externos. Por essa razão, é do interesse de todo o setor vitivinícola — e também da própria ViniPortugal — que esta categoria possa contribuir para reforçar a promoção da marca Wines of Portugal. Atualmente, a ViniPortugal encontra-se limitada pelo enquadramento legal em vigor, que não lhe permite promover internacionalmente o Vinho do Porto no âmbito das suas ações. Trata-se de uma condicionante que resulta da legislação nacional e não de uma opção estratégica da instituição.
Como facilmente se compreende, é muito difícil explicar aos mercados internacionais que, ao promover os vinhos de Portugal, fique de fora precisamente o vinho português com maior reconhecimento e notoriedade mundial. Acreditamos que a integração do Vinho do Porto na estratégia de promoção da marca Wines of Portugal reforçaria a imagem global dos vinhos portugueses, criando sinergias e potenciando o impacto das ações promocionais em benefício de todo o setor. Esperamos, por isso, que no futuro seja possível encontrar um enquadramento legal que permita essa evolução, reunindo sob a mesma estratégia de promoção internacional todas as grandes categorias de vinhos portugueses.