Lotado todos os dias e noites. Assim tem estado o Tamariz, remodelado para a abertura deste ano, o segundo com Gonçalo Fernandes aos comandos. “Queria fazer aqui um clube de nível mundial - se os há em Espanha, na Grécia, porque não poderíamos ter aqui? Não podia ser tão difícil ter um serviço premium na espreguiçadeira e certamente que Cascais tem turismo com vontade e capacidade para pagar esse tipo de conceito.” Então, Gonçalo, 31 anos, contratou o decorador dos melhores hotéis do Dubai e com ele desenhou um restaurante, um Summer Club que funciona de noite com festas e conceitos temáticos, e um deck aberto todo o dia, com camas para quem quer aproveitar o sol, provar o sushi e bebidas frescas, e refrescar-se nos duches ou com um mergulho no mar, acabando o dia a dançar nos sunsets.
O novo Tamariz é apenas mais uma das assinaturas do Grupo Fullest, que em plena época alta tem quase 400 colaboradores - a diferença para o resto do ano não chega à centena e Gonçalo explica porquê: “É difícil encontrar boas pessoas para trabalhar nesta área e se não lhes dermos segurança, vão-se embora por quaisquer 50 euros. Eu prefiro perder parte de um eventual lucro para garantir que o serviço é de excelência.” E para reter os melhores, garante prémios de produtividade mensais e dois dias de folga - um luxo que não chega à maioria.
Com uma década a gerir negócios na restauração e turismo - ainda que a Fullest só apareça oficialmente em 2016 - e uma carteira de 15 restaurantes e uma discoteca, Gonçalo faturou no último ano 12 milhões de euros. Ainda neste ano, tem marcadas cinco inaugurações - um terceiro restaurante no Porto, a juntar-se ao Tapas n’Friends e ao Mundo; outros três em Lisboa e mais uma discoteca - com as quais espera ver o grupo crescer para os 20 milhões já em 2020. “O plano estratégico é estar cada vez mais no Porto com todos os serviços. Neste novo espaço, por exemplo, teremos também dois apartamentos acima para alojamento local, o que nos permitirá abrir o negócio tal como o temos montado em Lisboa (restaurantes, alojamento, tours...) e passar a fazer cross-selling a nível nacional.” A ideia é que uma família venha de férias a Lisboa, vá a Fátima, passe uns dias no Porto, coma nos restaurantes do grupo... e a Fullest organiza tudo, com descontos cruzados. “Em Lisboa já o fazemos e funciona muito bem. Temos taxas de ocupação de 96% no AL (15 apartamentos) que temos no Jardim do Regedor, a empresa de tours é muito procurada, seja para visitas regulares (Óbidos, Sintra, Alentejo, onde o grupo também faz vinhos) seja para passeios à medida.”
Filho do dono do Café In, a hotelaria corre nas veias de Gonçalo Fernandes, que se formou em Gestão Hoteleira no Estoril e aos 19 anos já trabalhava com o pai. Vendo que dali não levaria mais do que qualquer outro funcionário, decidiu que para crescer teria de fazer algo seu e então procurou o chef Nicola, do então muito famoso restaurante italiano Valentino, e desafiou-o a abrir um restaurante. Juntos, investiram 60 mil euros e criaram o Bellalisa Valmor, em 2009 e a partir daí foi sempre a somar. O que implicou reinvestir cada cêntimo faturado - e cinco anos a viver no fio da navalha, em consequência, porque não estabilizavam um negócio antes de abrir o seguinte.
“Sabíamos que o que estávamos a fazer era bom, por isso, logo meses depois da Visconde Valmor, abrimos o segundo Bellalisa, no Elevador de Santa Justa, e ainda em 2009 o Peixaria do Rossio. Aos 20 anos, eu devia - não a bancos, mas em planos de pagamento a construtores, fornecedores e afins - uns 500 mil euros, porque queria alavancar o grupo com faturação. Tudo o que entrava era reinvestido.” Passada a crise - que diz ter sido muito útil para aprender uma gestão criteriosa - e com o boom do turismo, o negócio começou enfim a estabilizar. Mas nem por isso Gonçalo acalmou: continua a investir regularmente no alargamento do grupo, que já diversificou para um serviço sushi private, uma agência criativa, parcerias com a TAP e o Sol da Caparica, e mais três restaurantes de tapas, quatro de comida portuguesa e uma steakhouse.
“Neste ano vou investir cerca de 2 milhões nas aberturas, mas porque surgiram essas boas oportunidades, são locais importantes, que sei que me vão trazer faturação. Se calhar, para o ano não abro nada.” Diz que o que o move não é a quantidade mas a vontade e o gozo que lhe dá criar conceitos distintos, experiências que sente que deve dar a quem vai às suas casas - “não posso servir comida banal, quero mudar a vida das pessoas naquelas duas horas em que ali estão, fazê-las esquecer tudo o que corre mal”. Para os desenhar, estuda o guião ao pormenor, do lugar dos pratos na ementa ao ambiente criado, passando pelas cores, pela música, pelas fardas, pela história que cada comida irá contar. E antes mesmo de escolher o local, faz estudos no bairro, tenta conhecer as pessoas que passam na rua, saber se são mais estrangeiros ou portugueses, o que gostam de comer.
Se a Fullest deixa pouco ao acaso, a ideia de que Gonçalo é capaz de se sentar sobre o que já criou, nem que seja um ano, é difícil de encaixar. E de facto, o próprio admite já estar a planear novos passos. Como uma parceria com a Câmara de Lisboa para estar no Wonderland, no Natal. Ou as negociações que já estão em curso com o Benfica, o Porto e o Sporting para firmar novos acordos que troquem vantagens para sócios dos clubes nas unidades do grupo por bilhetes e merchandising para a Fullest disponibilizar aos seus clientes. O objetivo é começar aqui para depois chegar ao Real Madrid, ao Barcelona, à Premier League inglesa - “faz sentido, com os turistas que recebemos”, justifica Gonçalo Fernandes, apontando os cerca de 60% da faturação do grupo que já vêm de estrangeiros.
A internacionalização, aliás, é uma ideia que tem alimentado - e até já tem um espaço debaixo de olho em Madrid. “Será um investimento pequeno, na ordem dos 200 mil euros, para sentir o pulso à cidade. E se correr bem pensamos em expandir-nos a sério, para outras cidades. Mas temos de ter calma.” Acima de tudo, Gonçalo não quer perder o rumo na espuma da expansão. O lema da Fullest, Travel. Eat. Rest. Live., tem implícito um compromisso que o empreendedor sabe ser o segredo do seu sucesso: “O nosso grande desafio é servir a excelência todos os dias.”