A China Communications Construction Company (CCCC), quarta maior construtora do mundo, deverá concluir nesta primavera a aquisição de uma participação superior a 30% do capital da Mota-Engil e tornar-se assim parceira e acionista de referência da maior empresa de construção nacional. O grupo português já aprovou a operação de aumento de capital em 100 milhões de euros e, na próxima semana, o conselho de administração vai iniciar os procedimentos para a publicação do prospeto da operação, que se estima esteja concluída entre o primeiro e o segundo trimestres do ano. A entrada do gigante chinês será acompanhada pela apresentação do novo plano estratégico da construtora portuguesa.
A parceria entre a Mota-Engil e a CCCC, empresa detida maioritariamente pelo Estado chinês, será finalizada numa altura crucial para a maior construtora portuguesa, que não escapou aos efeitos da pandemia e, logo em abril de 2020, solicitou moratórias de 215 milhões de euros à banca. No primeiro semestre de 2020, registou prejuízos de cinco milhões de euros. Mas o gigante chinês traz consigo a possibilidade de angariação de fontes de financiamento nos mercados asiáticos com menores custos financeiros, assim como a otimização de compras de equipamentos e materiais. Acima de tudo, o grupo de António Mota ganha asas para "competir em projetos de maior dimensão, em função de ter como acionista e consorciado em projetos internacionais uma das quatro maiores construtoras mundiais e com elevada capacidade financeira, o que permite participar em projetos que até agora eram pouco acessíveis", destaca fonte do setor ao Dinheiro Vivo. Por sua vez, a CCCC coloca uma lança na Europa e ganha um parceiro com um know-how consolidado em alguns mercados de África e da América Latina.
A Mota-Engil marca presença, para além de Portugal, em Espanha, Irlanda, Reino Unido e Polónia, geografias que valeram, em 2019, 872 milhões de euros, ou seja, cerca de 31% num volume de negócios que ultrapassou os 2,8 mil milhões de euros. O grupo português construiu também uma posição de relevo em África, onde opera em 11 mercados - é líder em Angola e Moçambique -, e na América Latina, região onde marca presença em sete países. Estas duas regiões valeram mais de 1,9 mil milhões nas vendas de 2019 (os dados financeiros de 2020 ainda não foram divulgados). Sublinhe-se que a construtora nacional fechou o exercício de 2019 com uma dívida líquida superior a 1,2 mil milhões de euros.
Já a CCCC, onde o Estado chinês, através da Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado (SASAC), detém uma posição de 63,8%, tem como missão reforçar a sua presença internacional. Segundo o relatório Global Powers of Construction 2019, da Deloitte, a gigante chinesa respondeu por um volume de negócios de 79,9 mil milhões de dólares (65,2 mil milhões de euros ao câmbio atual) em 2019, com apenas 17% a ser obtido nos mercados externos. Nesse ano, garantiu o seu primeiro contrato de relevo na Europa, a construção de uma ponte na Croácia. O grupo tem presença em vários mercados de África, América do Sul, sudoeste da Ásia e Oceânia, e um forte know-how na construção de infraestruturas. A CCCC é também uma das empresas que, no ano passado, integrou a "lista negra" dos Estados Unidos. A construtora foi considerada uma companhia militar comunista chinesa, passando a estar sob apertado escrutínio e com um travão à venda de serviços neste mercado.
A CCCC não é a primeira grande construtora chinesa a entrar em Portugal. Em 2018, aquela que é a maior construtora do mundo em volume de negócios, a China State Construction, deu o pontapé de saída no país com a tentativa de compra da participação da Teixeira Duarte na Lusoponte. Já no ano passado, liderou um dos consórcios concorrentes à compra da Brisa, acabando preterida. Na entrada em Portugal, a construtora manifestou interesse na participação em projetos públicos e em parcerias público-privadas, incluindo a expansão das operações portuárias em Sines e a construção do novo aeroporto de Lisboa, no Montijo.
Já no início de 2020, a Mota-Engil anunciou um contrato para a construção de uma central de produção de energia na Colômbia, uma obra de 270 milhões de euros para a Talasa ProjectCo, sociedade onde marcam posição a CCCC e a China Three Gorges Corporation. Este terá sido o primeiro passo formal da aproximação das duas construtoras, depois de um "namoro" que se iniciou aquando da visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em abril de 2019, à República Popular da China. Em plena pandemia (abril de 2020), a Mota-Engil informou o mercado da adjudicação, após concurso público internacional, do troço 1 do megaprojeto ferroviário Tren Maya, no México, uma obra avaliada em 636 milhões. O grupo português garantiu o projeto em consórcio com a CCCC.
Chegou agora o momento de formalizar a parceria. A aprovação na Assembleia-Geral de Acionistas da Mota-Engil, na última quinta-feira, de um aumento de capital de 100 milhões de euros irá configurar uma redução da posição da família Mota, que irá acompanhar a operação, dos atuais 65% do capital, para 40%, e a tomada de mais de 30% da CCCC. Como anunciou o grupo português a 27 de agosto, aquando da confirmação oficial do acordo de parceria estratégica e de investimento com a construtora chinesa, "após este aumento do capital social, será imputável à MGP [Mota Gestão e Participações, holding da família Mota] uma participação de cerca de 40% do capital social da Mota-Engil, sinal de total empenho e alinhamento com a sua posição histórica no grupo, e o novo acionista atingirá uma participação ligeiramente superior a 30%". No entretanto, a CCCC já acordou, a 27 de novembro, a compra de 23% da Mota-Engil, ao preço de 3,08 euros por ação, acima do valor de mercado, o que significa um investimento de 169,4 milhões de euros.
A finalização de todo este processo está ainda dependente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que tem de se pronunciar sobre a obrigação, ou não, do grupo chinês lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre o capital da Mota-Engil, além das necessárias autorizações das entidades da concorrência nos mercados onde têm presença. As expectativas apontam para que o casamento entre as duas construtoras se formalize após dois anos de namoro.
Com Maria Caetano