Quando estive com a Uber em São Francisco no ano passado, para perceber a estratégia de camiões autónomos em que a empresa está a trabalhar, o processo legal da Google tinha acabado de rebentar. Fomos informados que não haveria lugar a questões relacionadas com a luta que estava prestes a começar, impedindo-nos também de aprofundar a diferenciação tecnológica da empresas versus outros desenvolvimentos no mercado.
Esta guerra envolve duas grandes empresas e duas startups detidas por essas empresas. A Alphabet, casa-mãe da Google, detém a Waymo. A Uber comprou a Otto. Em causa está um caso de roubo e espionagem industrial.
A forma como isto começou dava uma novela interessante sobre Silicon Valley, que se tornou o epicentro do desenvolvimento de condução autónoma por razões óbvias. Ao enviar um email, um fornecedor de componentes para sistemas LiDAR (Light Detection and Ranging) incluiu inadvertidamente nos destinatários um empregado da Waymo que não era suposto ler aquela correspondência. O email continha desenhos de circuitos que eram estupidamente semelhantes aos da Waymo, e o alarme soou dentro da empresa: era impossível isto ser coincidência, porque o seu sistema LiDAR tem um design proprietário.
Agora vamos à parte picante: o cofundador da Otto Anthony Levandowski e vários outros dos seus empregados trabalhavam na Waymo quando ainda era conhecida como “Google Self-Driving Car Project.” Saíram para fundar a Otto, que entretanto a Uber comprou por 600 milhões de dólares. Dá para ver porque é que a Waymo ficou atónita quando pôs as mãos no email.
Esta não é, no entanto, a única acusação que consta do processo. A Waymo diz que Levandowski e os outros empregados descarregaram informação confidencial da empresa várias semanas antes de se demitirem. Só Levandowski terá descarregado mais de 14 mil ficheiros confidenciais com design proprietário para os sistemas de hardware da Waymo, incluindo o tal circuito LiDAR. Terá depois passado esses ficheiros para um disco externo, antes de formatar e entregar o seu portátil de trabalho quando se demitiu. O seu nome é referido 35 vezes nas 28 páginas na queixa que deu entrada no ano passado. A aquisição da Otto, alega a Waymo, terá servido para encobrir a utilização de designs roubados.
O processo chegou ontem à barra do tribunal e logo no primeiro dia a Uber atirou com Anthony Levandowski para debaixo de um dos seus camiões autónomos. Bill Carmody, um dos advogados da empresa, disse que a companhia se arrepende de ter ido buscar Levandowski, depois de algumas tentativas de passar a ideia de que o ex-engenheiro da Google não era assim tão importante na Uber.
Mas a memória da internet não perdoa. O fundador e ex-CEO da Uber, Travis Kalanick, referia-se a Levandowski como o seu “irmão de uma mãe diferente”, e havia a noção de que ele seria a chave para apanhar a Google na corrida aos carros autónomos. É verdade que a aquisição da Otto foi uma insistência pessoal de Kalanick, que mesmo depois de a Uber ser processada continuou a defendê-lo. Só três meses depois Levandowski foi despedido, contra os desejos de Kalanick, que acabou também ele por ser corrido da empresa que fundou; a sua defesa do ex-engenheiro da Google foi citada como um dos motivos pelos quais o conselho de administração perdeu confiança nele.
Nunca é demais recordar que antes de isto dos carros autónomos estarem na moda e na estratégia a cinco anos de tudo o que é empresa, a Google já tinha uma equipa e um projecto a funcionarem em Mountain View há bastante tempo. De longe, foi a gigante que teve mais visão mais cedo. O facto de Levandowski ter saído da Waymo para fundar a Otto e depois vendido a sua startup à Uber, que magicamente apareceu com designs muito semelhantes aos da Waymo não foi mera coincidência.
Foi mesmo um plano, elaborado numa reunião entre Kalanick e Levandowski quando este ainda estava na Google. Kalanick queria a tecnologia em que Levandowski estava a trabalhar, e nessa reunião começou a falar-se de comprar a Otto – que ainda nem existia – para adquirir a tecnologia. Sabemos isto por causa dos emails que os advogados da Google estamparam na cara da Uber neste primeiro dia em tribunal (a Ars Technica tem uma selecção dos melhores). As trocas de correspondência são tão danosas que é difícil perceber como é que a empresa de boleias vai safar-se desta.
A audácia de ambos é notável, porque acharam que podiam simplesmente fazer isto sem consequências. Se não tivesse sido o email tinha sido outra coisa: a infracção de propriedade intelectual alheia foi demasiado extensa.
O julgamento segue com todos os olhos da indústria postos nele, porque este caso vai, essencialmente, determinar qual destas empresas segue na liderança da corrida de carros autónomos em que Silicon Valley está metida.