Google oferece certificados profissionais a 3 mil portugueses em parceria com IEFP e APDC 

Cursos são online, têm a duração de 120 horas e são em áreas tecnológicas. Objetivo é requalificar desempregados e dar oportunidade a quem mais precisa numa parceria público-privada que a ministra do Trabalho garante que "veio para ficar".
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São quatro os tipos de cursos nas áreas tecnológicas e pensados com maior foco em requalificar desempregados ou pessoas em situação de vulnerabilidade que a Google vai oferecer a mais de 3 mil portugueses. A iniciativa é feita numa parceria pública-privada com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a Associação Portuguesa de Desenvolvimento das Comunicações (APDC), a Fundação da Juventude, com o suporte da INCO, e o apoio do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

Os cursos em causa são nas áreas de Apoio Técnico de TI, Gestão de Projetos, Análise de Dados e Design da Experiência do Utilizador, têm 120 horas de duração e são tirados online na plataforma Coursera - só Apoio Técnico de TI será em português, os outros três são em inglês. Tratam-se de Certificados Profissionais da Google, naquele que é um compromisso da empresa norte-americana para reforçar a empregabilidade das pessoas ao adquirir competências digitais.

Aos candidatos não é exigida nenhuma formação ou experiência prévia, e o acesso ao programa de bolsas poderá ser feito através dos parceiros nacionais, que farão a divulgação prévia - já foi criado um site para o efeito.

As áreas em causa foram escolhidas por não requerem um diploma de formação superior, por permitirem uma remuneração acima da média e por haver uma elevada procura por parte das empresas. Esses mesmos cursos estão no Coursera para qualquer pessoa que não seja selecionada a um preço que a Google diz ser mais baixo do que o habitual (pelo que vimos, rondam os 32 euros por mês).

Serão o IEFP e a APDC que vão escolher os três mil participantes nos quatro cursos, sendo que há obrigatoriedade dos selecionados não deixarem passar mais do que 15 dias sem assistir às aulas, sob pena de terem de dar a vez a outra pessoa. Vão existir ainda 235 certificados extra distribuídos pelo Google.org (braço filantrópico da Google) a jovens em situações de vulnerabilidade através da Fundação da Juventude, como forma de apoio para começarem a vida profissional com a ajuda de um destes certificados.

Numa mesa redonda a que o Dinheiro Vivo teve acesso, Bernardo Correia, country manager da Google admitiu que este tipo de parcerias público-privadas são para continuar até como forma da empresa ajudar os portugueses a estarem mais preparados para o futuro do trabalho. O gestor indica ainda que estes certificados em concreto vão apostar na igualdade, já que 50% serão para mulheres e só 50% podem ser para pessoas nas regiões metropolitanas de Lisboa, apostando na diversidade regional. "A tecnologia e as competências digitais têm sido a salvação de muita gente e queremos ajudar", disse. Bernardo Correia revelou também que com o programa Ateliê Digital a Google já treinou em competências digitais (desde 2017) mais de 100 mil portugueses.

Rogério Carapuça, da APDC, lembrou ainda o projeto lançado já o ano passado, Upskill, que também vai requalificar mais de três mil pessoas, elevando para um total de seis mil com ambos os projetos até 2023. "Queremos aumentar este número com novas iniciativas, até porque sabemos bem que haverá uma altura em que todos têm de ter competências digitais", admitiu.

Citaçãocitacao"Quanto mais simples forem as formações mais pessoas estamos a incluir, eliminando os requisitos burocráticos para as certificações", adiantou a ministra do Trabalhocentro

Ana Mendes Godinho, Ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, admitiu que é desejo do Governo apostar cada vez mais em parcerias com os privados, mesmo para as tão desejadas competências digitais. "A pandemia veio-nos mostrar que é possível acelerar o ritmo da transformação digital e ninguém pode ficar para trás, daí que a requalificação seja fundamental", disse a ministra, que garante que "a nova forma de colaboração permanente, que o trabalho ou até ensino remoto ajudou a expandir, é uma das melhores coisas da pandemia". Mendes Godinho não tem dúvidas em dizer que é preciso "aproveitar esta capacidade de trabalhar em conjunto, ligando formação ao mercado de trabalho que está cada vez mais disponível para colaborar e adaptar currículos e programas de formação a áreas do futuro".

Aí as novas tecnologias são um instrumento poderoso da promoção da inclusão e contra as desigualdades (intergeracionais, homem-mulher, pobreza e exclusão social): "quanto mais simples forem as formações mais pessoas estamos a incluir, eliminando os requisitos burocráticos para as certificações", adiantou a ministra.

A responsável lembrou ainda que os instrumentos de mudança servem também para posicionar Portugal como destino dos Nómadas Digitais e expandir a flexibilidade do trabalho (para o qual o Livro Verde do Trabalho pretende dar resposta) e do ensino.

António Valadas da Silva, presidente do IEFP, admitiu que o instituto que coordena teve de operar uma pequena revolução por causa da pandemia. "Fomos todos para casa há mais de um ano e conseguimos montar um sistema de formação à distância e mesmo misto que veio para ficar, capacitámos quatro mil formadores para darem aulas à distância e criámos conteúdos para elearning e viemos uma capacidade de adaptação não só em Portugal como por toda a Europa", admite.

Sobre o futuro, mais do que nunca garante que agora é a oportunidade de apostar na promessa que já vinha há mais de 20 anos de trazer o teletrabalho para a ribalta, mas também a acessibilidade ao ensino.

"A forma como se ensina e aprende deve mudar, não pode ser como era há 20 ou 30 anos e o mesmo acontece com a acessibilidade ao ensino, devemos apostar na diversidade e flexibilidade (incluindo no tipo e duração dos cursos) - algo que a UNESCO já prevê - para dinamizar o acesso à educação", explica. Valadas da Silva diz mesmo: "temos de discutir o futuro da educação e formação ao longo da vida - é uma condição para assegurar a integração socio-profissional das pessoas".

Bernardo Gomes citou um estudo em que a Google colaborou com o McKinsey Global Institute sobre o impacto da automação no emprego, nos próximos dez anos, em mercados europeus. O estudo estima que a Europa terá uma escassez de trabalhadores, maior do que escassez de empregos, em 2030. Isto porque, dados ainda anteriores à pandemia, previam que mais de 90 milhões de trabalhadores europeus podem precisar de desenvolver novas competências digitais no âmbito das suas funções atuais, enquanto até 21 milhões podem precisar deixar as suas ocupações devido à redução das necessidades de trabalho em algumas áreas.

A crise global acelerou muitas destas predições, e a McKinsey estima agora que 25% mais pessoas na Europa podem precisar de fazer a transição para novos empregos após a pandemia. Há necessidade de profissionais formados e adaptados às mudanças tecnológicas e digitais, e especificamente em setores como ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A Google diz que desde 2015 ajudou mais de 17 milhões de pessoas e empresas na Europa, Médio Oriente e África em competências digitais.

A Google tem usado estes cursos nos Estados Unidos com bons resultados e vários elogios. Os trabalhos relativos à área da Tecnologia da Informação (TI) tanto podem ser executados numa pequena empresa como numa multinacional e a formação em Apoio técnico de TI baseia-se inclusive em programas de formação internos da Google.

As pessoas que participarem do programa irão adquirir competências que vão desde a resolução de problemas até ao atendimento ao cliente, bem como conhecimentos de sistemas operativos, administração de sistemas, automação e segurança, todas essenciais para oferecer suporte nas áreas de tecnologia da informação.

De acordo com dados do Coursera, 82% dos alunos que obtiveram este certificado nos Estados Unidos confirmaram que tiveram um impacto positivo na carreira: desde encontrar um novo emprego, obter uma melhoria salarial ou mesmo abrir um novo negócio.

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