Grande banca "fornece manto de sigilo" a clientes nos offshores

Publicado a

Sabia que "muitos dos maiores bancos do mundo", entre os

quais o UBS, o Clariden e o Deutsche Bank, "trabalham

agressivamente" para fornecer aos seus clientes o "manto de

sigilo necessário" para as suas empresas nas Ilhas Virgens

Britânicas e outros refúgios offshore? E que há toda uma

"indústria bem paga" de contabilistas, intermediários e

agentes que ajudam nessa tarefa de esconder identidades e interesses

comerciais? Mesmo em situações de lavagem de dinheiro! Estas são

apenas algumas das conclusões do relatório "Offshore Leaks",

que ontem abalou o mundo.

O relatório revela como alguns dos homens mais ricos e poderosos

do mundo se servem dos paraísos fiscais (offshores) para fugir aos

impostos e rechear melhor as suas contas bancárias, e que conta com

milhares de nomes, numa extensa lista em que estão o Presidente do

Azerbaijão, a mulher do vice-primeiro-ministro russo, a filha mais

velha do ex-ditador Ferdinand Marcos ou o tesoureiro da campanha

eleitoral de François Hollande.

Foi o resultado de 15 meses de trabalho do ICIJ, consórcio

internacional de jornalistas de investigação, em parceria com

vários grupos de media internacionais, envolvendo jornalistas de 46

países que analisaram documentos e cruzaram dados sobre mais de 130

mil crimes de evasão fiscal.

Um "abalo sísmico" em todo o mundo no florescente

negócio dos offshores, diz o The Guardian. O "maior golpe de

sempre no buraco negro" da economia mundial, diz o suíço

Süddeutsche Zeitung. A fuga de informação partiu de duas empresas

especializadas em contas em paraísos fiscais. Ao ICIJ, criado em

1997 pela organização sem fins lucrativos Centro para a Integridade

Pública, chegou um pacote, de fonte anónima, contendo um disco duro

mais 260 gigabytes e mais de 2,5 milhões de arquivos relativos a 170

países. "Nunca vi nada assim. Este mundo secreto foi finalmente

revelado", afirma, citado pelo ICIJ, Arthur Cockfield, um

professor de Direito e especialista em fiscalidade na Universidade de

Queen, no Canadá.

"A crise financeira continuada na Europa tem sido alimentada

por um desastre financeiro grego, exacerbado por fraudes fiscais

efetuadas e promiscuidades do sistema bancário no pequeno paraíso

fiscal cipriota, onde os balanços dos bancos locais foram engordados

com transferências colossais de liquidez da Rússia", sublinha

a ICIJ. Os jornalistas - que prometem revelar mais novidades nas

próximas semanas - recordam que os estudos apontam para que o

montante global de "dinheiro sujo" proveniente de crimes

fiscais e outros se situe entre um e 1,6 mil milhões de dólares

(1,2 mil milhões de euros) ao ano. O fiscalista Rogério Fernandes

Ferreira lembra, precisamente, que os paraísos fiscais são criados

de forma legal, mas "os propósitos que servem são, muitas

vezes, ilegais" ou, pelo menos, "altamente prejudiciais

para os restantes países, uma vez que geram, de forma artificial,

perdas reais de receita e em montantes muito significativos".

E porque "parte da crise mundial resulta, precisamente, da

erosão da base fiscal" dos países desenvolvidos onde os

contribuintes estão sujeitos a uma maior "pressão fiscal

efetiva", a solução passa, no seu entender, pela criação de

"sanções, fiscais e outras, ao uso de offshores", mas,

também, através da estabilização dos níveis de tributação e da

carga fiscal efetiva nos países mais desenvolvidos.

Portugal não foge à regra, mas o fenómeno tem menos expressão,

diz o fiscalista, referindo que se assiste a "diversos fenómenos

de regularização da situação fiscal de empresas e pessoas

singulares que decidem declarar o seu património 'escondido' e, até,

a deixar os paraísos fiscais". Os acordos, quer para evitar a

dupla tributação quer para troca de informação, são uma

"ferramenta essencial" no combate à evasão. A UE "devia

poder ir mais longe, combatendo mais eficazmente também o fenómeno

da concorrência fiscal prejudicial, com regras de tributação

harmonizada mínimas".

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt