Guo Guangchang tornou-se um nome conhecido em todo o mundo graças ao seu modelo de negócio inspirado em Warren Buffett, o famoso investidor norte-americano. O chinês, de 48 anos, fundou a Fosun em 1992, com mais dois colegas da Universidade de Fudan, na cidade de Xangai, com um objetivo: comprar empresas financeiras e seguradoras que pudessem suportar o financiamento da companhia a longo prazo e as aquisições em áreas como o consumo, o turismo, moda e entretenimento. Xangai, a cidade onde tudo começou há mais de 20 anos, pode agora marcar também a queda do magnata.
O dono da Fosun, segundo a imprensa local, terá sido detido no aeroporto de uma das maiores cidades chinesas na quinta-feira, ficando, nessa altura, incontactável. Passaram mais de 24 horas até chegar o primeiro comunicado do conglomerado: Guo Guangchang estará a “colaborar com as autoridades judiciais em determinados processos”. Mas não ficou esclarecido se a ‘ajuda’ junto da polícia chinesa está a ser dada como mera testemunha ou como acusado nos processos referidos.
Este poderá ser o maior desafio da vida do líder da Fosun, que nasceu em fevereiro de 1967 no seio de uma família humilde de Dongyan, na província de Zheijang. O esforço e a ambição de uma vida melhor levaram-no para a Universidade de Fudan, onde concluiu a licenciatura em Filosofia em 1992, depois de uma entrada com uma bolsa de estudo estatal sete anos antes. Sobrou ainda tempo, durante esta altura, para o negócio de venda de pão nos dormitórios, que dava um salário de cinco euros por dia.
Já com o ‘canudo’, Guo juntou-se a dois colegas da universidade, o estudante de genética Liang Xinjun, atual vice-presidente do grupo, e a licenciada em ciências computacionais Tan Jian, a primeira mulher do presidente do presidente da Fosun, para criar a empresa Guangxin Technology Consulting, na cidade de Xangai, com 100 mil yuan. Menos de 15 mil euros.
O líder da Fosun voltaria à Universidade de Fudan em 1999, mas para tirar um MBA. Aí já tinha conseguido fazer crescer o seu negócio, graças também às boas relações com o sogro, uma figura importante na indústria farmacêutica, na altura praticamente inexistente na China. A relação com Tan Jian também permitiu construir ‘pontes políticas’ com a administração estatal em Pequim.
“Portugal: país para investir”
“Portugal é o melhor país da Europa para investir”. Esta afirmação de Guangchang foi feita em junho deste ano junto dos jornalistas portugueses num evento na sede do conglomerado.
A compra de cerca de 85% da Fidelidade, realizada em 2014, assegurou mais uma fonte de financiamento para o grupo chinês. A antiga seguradora da Caixa Geral de Depósitos foi usada, por exemplo, para comprar a antiga Espírito Santo Saúde (antiga Luz Saúde). Detém também uma participação de 5,3% na REN, a distribuidora elétrica nacional. A Fosun, ainda no setor financeiro, foi uma das três entidades que chegaram à fase final do primeiro processo de compra do Novo Banco.
Influência mundial
Os últimos anos foram de ouro para o ‘ Warren Buffett chinês’. A Fosun entrou na Bolsa de Xangai em 2007, adquiriu empresas financeiras em Hong Kong e na China, e, a partir de 2010, começou a apostar no mercado internacional. É detentor de seguradoras como a Phoenix, em Israel, ou a Ironshore, nas ilhas Bermuda. Esta área deverá representar 70% dos ativos da Fosun no máximo de três anos e ajudar a manter as participações na companhia Cirque du Soleil, na agência de viagens Thomas Cook, na marca de resorts internacionais Club Med, na empresa de comunicação multiplataforma Studio 8 - fundada em parceria com Jeff Robinov, antigo presidente da produtora Warner Bros - na joalharia grega Folli Follie e também na alfaiataria italiana Raffaele Caruso.
O imobiliário é outra das apostas da Fosun. Nos últimos anos comprou o 28 Liberty Street, um arranha-céus localizado em pleno centro de Manhattan, em Nova Iorque, ao grupo JPMorgan, e o Palácio Broggi, um edifício comercial no centro de Milão, em Itália, numa compra financiada pela Fidelidade.
É este império gigante - Guangchang controla indiretamente mais de 10 mil milhões de euros nas praças financeiras chinesas - que agora treme. Com consequências ainda incalculáveis.