Há 100 anos, havia uma Wall Street Negra. Foi destruída por racistas

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As primeiras cenas da série "Watchmen", que Damon Lindelof realizou de forma brilhante para a HBO, mostram o horror vivido pelos habitantes de Greenwood, Tulsa, quando uma multidão racista destruiu o distrito. As imagens são tão pungentes, tão difíceis de assimilar, que muita gente acorreu ao Google para acalmar os nervos. O massacre de Tulsa em 1921 aconteceu mesmo? Para seu pavor, os resultados devolvidos pelo motor de busca confirmaram aquilo que, 100 anos depois, grande parte da população ainda desconhece.

O massacre racial de Tulsa, Oklahoma, aconteceu há precisamente um século, entre 31 de Maio e 1 de Junho de 1921. Só agora estão a ser - literalmente - desenterrados os esqueletos de um dos mais vergonhosos episódios da América racista do século XX, que mostra como tantas teorias esposadas pela extrema-direita não são mais que pilhas de dejectos.

Com a segregação racial em vigor, o distrito de Greenwood tornou-se uma das primeiras comunidades afro-americanas prósperas dos Estados Unidos. Havia negócios de todos os tipos e um espírito empreendedor notável, impulsionado por descendentes directos de escravos. O fervilhar empresarial da comunidade rendeu-lhe o epíteto de "Wall Street Negra", onde muitos afro-americanos encontravam um ambiente estimulante (e aparentemente seguro) num país onde os linchamentos de negros ainda eram comuns.

Tudo isto mudou em 1921. A carnificina aconteceu por causa de um incidente que mostra bem o terror racial vivido na altura: um afro-americano de 19 anos que trabalhava como engraxador, Dick Rowland, tropeçou num elevador e acidentalmente a sua mão tocou na operadora do elevador, uma rapariga branca de 17 anos. Sarah Page gritou e Rowland fugiu, com medo da repercussão de ter tocado numa pessoa branca. A polícia foi chamada e, embora a rapariga não quisesse fazer queixa, o incidente começou a ser falado. As tensões escalaram quando o jornal branco "Tulsa Tribune" publicou uma manchete com o título "Apanhem o preto por atacar rapariga em elevador", acusando Rowland de violação.

O que se seguiu foi o caos. Uma multidão de brancos invadiu a comunidade, pilhou mais de mil casas e negócios e deixou o distrito em cinzas. Milhares ficaram sem-abrigo. Os incêndios destruíram praticamente tudo e a violência contra os habitantes ceifou centenas de vidas. Não se sabe ao certo quantas; estima-se que 300 afro-americanos tenham sido assassinados num dos piores massacres raciais da história norte-americana.

Não houve repercussões para os atacantes. A polícia encobriu o massacre e os jornais ignoraram a destruição. A narrativa oficial do que aconteceu é que os motins foram começados por negros.

A tragédia foi amplamente fotografada, mas essas imagens permaneceram escondidas durante décadas. Quando académicos tentaram investigar o sucedido, nos anos setenta, receberam ameaças de morte. Só muitos anos mais tarde - em 1997 - foi formada uma comissão para estudar o massacre, cujos resultados foram publicados em 2001. Foi apenas nessa altura que as escolas públicas locais começaram a incluir a história do que aconteceu nos livros escolares.

A destruição da "Wall Street Negra" teve impactos profundos na comunidade afro-americana e o seu encobrimento procurou calar o óbvio: que o massacre não foi uma busca de justiça popular. Foi um pretexto para deixar em cinzas um distrito negro afluente e próspero, que contrariava as ideias racistas vigentes na altura. Negros bem-sucedidos eram uma afronta. Se surgissem mais distritos assim, a supremacia branca sentir-se-ia ameaçada.

Agora que a verdadeira dimensão do sucedido foi desenterrada, é mais difícil pensar que isto nunca poderia acontecer novamente. Olhe-se para os protestos raciais que decorreram no Verão de 2020: 95% foram pacíficos, mas a retórica à direita é de que os manifestantes por justiça racial pilharam e destruíram cidades.

Ao mesmo tempo, a violência com que uma multidão de brancos invadiu o Capitólio, resultando em cinco mortos, é minimizada. Nem sequer uma comissão independente para investigar o ataque passou no congresso. As leis que permitiram o massacre de Tulsa já não existem. Mas em muitos aspectos, as dinâmicas são as mesmas.

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