Há males que vêm por bem

Os grossistas portugueses, lenta mas progressivamente, terão de alterar o seu atual posicionamento face ao mercado.
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Na atual situação de crise pandémica que vivemos, assim como em muitas circunstâncias da nossa vida, por vezes e como diz o povo, há males que vêm por bem. Por outras palavras, tal significa que as situações negativas podem conter em si o gérmen de coisas positivas ou que das piores crises surgem sempre grandes oportunidades.

Até agora sempre esteve fora de questão, por preconceito, receio de perda de credibilidade junto dos seus clientes retalhistas ou, simplesmente, por falta de visão, a possibilidade de os cash & carrys abrirem as suas portas aos consumidores finais. Na verdade, não faz hoje nenhum sentido limitar o acesso a estas unidades apenas aos clientes profissionais, quando nada impede que eles acedam aos grandes retalhistas como os hipermercados.

Ora, é até absurdo que os consumidores finais com capacidade aquisitiva e de armazenamento doméstico, não possam abastecer-se em unidades grossistas em livre serviço, tal como já acontece em quase toda a Europa e nos Estados Unidos, com o conceito de warehouse club, lojas híbridas de hipermercado e cash & carry, acessíveis a todo o tipo de clientes profissionais e finais.

Os grossistas portugueses, lenta mas progressivamente, terão de alterar o seu atual posicionamento face ao mercado, cujos reflexos se farão sentir inevitavelmente nos próprios conceitos dos seus pontos de venda. A abertura dos cash & carry a todo o tipo de clientes tem de deixar de ser um assunto tabu e, se hoje ainda é uma opção estratégica, amanhã será um imperativo de evolução. E a oportunidade surgiu agora, ainda que por força da crise pandémica do coronavírus.

O primeiro passo foi dado, já no início do mês de abril de 2020, quando várias empresas grossistas, entre as quais a Makro, anunciaram a abertura das suas lojas cash & cash aos clientes finais, como forma de alargar o acesso desses consumidores aos produtos comercializados nas suas lojas. Esperemos que esta experiência extinga esse atávico preconceito, altere a posição dos grossistas portugueses e os faça seguir o exemplo dos seus colegas do resto do mundo, que há muito se abriram aos consumidores finais.

Há outra oportunidade saída desta crise. Podemos vê-la na forma como algumas empresas retalhistas alimentares como a Lidl, a Aldi, o Dia, o Continente e o Pingo Doce estão a aproveitar as atuais circunstâncias para, finalmente, reconhecer e premiar o esforço e a dedicação dos seus operadores de logística e de loja, através da atribuição de prémios ou da distribuição de dividendos, prática que no sector só existia na Auchan e na Mercadona. Esperaremos que esta justa prática no futuro se possa manter e até institucionalizar, dado que permitiria aumentar de forma significativa as remunerações médias do sector, a sua notoriedade social e a sua atratividade em matéria de recursos humanos.

Destaca-se ainda outra grande oportunidade suscitada pela crise. Esta constata-se no comércio online, área em que as empresas retalhistas finalmente se aperceberam que a venda à distância, nas suas diversas formas e a entrega capilar dos produtos aos consumidores, através das suas próprias estruturas ou desenvolvendo parcerias com operadores logísticos, é hoje não apenas uma tendência, mas um verdadeiro imperativo estratégico, quer nos tempos atuais, quer no próximo futuro.

Na verdade, e não obstante as lojas físicas continuarem a ser fundamentais na distribuição do futuro, os investimentos nas modalidades de venda à distância e entrega capilar dos produtos, serão fortemente reforçados tornando a distribuição cada vez mais omnicanal e acelerando desta forma esta evolução, da qual nem todas as empresas tinham consciência da sua necessidade.

O que é a inovação, perguntava Peter Drucker? Transformar a necessidade em procura. O que é a sabedoria em gestão, pergunto eu? Transformar as crises em oportunidades.

José António Rousseau é docente e investigador da UNIDCOM/IADE/IPAM

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