O passado não é o que foi. É o que volta. Passado sem regresso não é passado, é esquecimento.
Entro na barbearia um pouco apreensivo. Passadas duas décadas sem ir ao lugar, não sabia o que iria encontrar. Era um sítio que havia frequentado por alguns anos assim que cheguei a Portugal. A cada duas ou três semanas ia lá tosquiar as minhas melenas (à época, negras e vastas).
Depois, deixei de ir, fruto de mudanças de hábitos geográficos e a perda de uma grande amizade, no caso, o José Ricardo Cabaço, com quem eu fazia dupla e que era, ele sim, freguês antigo do estabelecimento.
Algumas das campanhas mais importantes da minha carreira foram motivo de conversa entre mim o Zé enquanto esperávamos naquela barbearia (chamada Pinto's) a nossa vez. O mundo então parecia mais pequeno, embora o futuro parecesse grande. Tínhamos mais para frente na vida do que para atrás, aliás, como sempre deveria ser.
Para minha surpresa, os barbeiros eram quase todos os mesmos. Num primeiro momento não me reconheceram. Estavam mais velhos, claro. Eu também. Mas eles e o ambiente funcionaram como uma madalena de Proust, levaram-me ao tempo perdido dos anos 90 da publicidade portuguesa.
Não sou saudosista, mas gostaria de ser. Diferente da maioria das pessoas que pensa ser o ontem um lugar mal frequentado, adoraria passar os dias a cofiar os bigodes e a relembrar quando eu pesava a metade mim.
Os nossos anos 90 publicitários foram animados e ingénuos. Estávamos todos a descobrir o fogo, a inventar a roda. Não que antes de nós nada houvesse. Ao contrário. Muitos e bons publicitários já tinham labutado por aqui. Mas a minha geração era diferente. Queria coisas diferentes.
Éramos muito novos e pouco profissionais (no sentido de saber as regras todas e de querer respeitá-las). Éramos novos, tolos, competitivos, imprudentes, perigosos e temerários. Ah, era tão bom ser um alegre temerário...
Foi assim, sem um plano bem definido, que mudámos o cenário de toda uma indústria, de toda uma atividade, de toda uma profissão. Criámos muita coisa bonita, muita coisa memorável.
O primeiro filme da minha carreira veio daí (criado com o Zé Ricardo; o primeiro Leão de Cannes em TV de Portugal; para ver pesquise "Laranja Timor" no YouTube. Houve uma sessão de brainstorm sobre o filme enquanto ocupávamos as cadeiras do Pinto"s.
[jwplayer url="https://www.youtube.com/watch?v=HqBaZmUvcOw" vtype="yt"]
Hoje, do Zé Ricardo pouco sei além de que vai bem obrigado, a morar nos EUA e a trabalhar para a Nike. Dos barbeiros, tenho o prazer de dizer que continuam simpáticos e de boa saúde. Quanto a publicidade dos anos 90, tentarei mantê-la viva nas gavetas da minha memória. Quanto ao Edson de vinte e cinco anos atrás, se o encontrasse na rua teria de dizer-lhe, do fundo do coração, duas palavras: "Coma menos".
Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar o poeta Paulo Leminski: "Haja hoje para tanto ontem".