Harvey R. Miller: "Foi um erro colossal deixar falir o banco"

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No quarto aniversário da falência do então quarto maior banco de investimento dos EUA, o advogado do Lehman culpa a reduzida regulação e supervisão pelo colapso, o primeiro grande alerta para a crise do 'subprime'. Harvey Miller vai mais longe e afirma que deixar o banco ir ao fundo foi um erro grave de cálculo.Diz-se que dias antes do colapso recebeu instruções do presidente do Lehman, Richard Fuld, para preparar a documentação para declarar a falência?Não tive contacto direto com o presidente. Os responsáveis pelos departamentos jurídico e de gestão foram as únicas pessoas com quem eu e a minha firma tivemos diretamente envolvidos. Só no final do dia 11 de setembro é que arrancaram os preparativos relacionados com o pedido de falência.O que lhe foi pedido?O preparativos para o processo e a recolha de informação pública sobre a empresa e a sua atividade.O colapso do Lehman aconteceu a 15 de setembro. Como se desenrolou o processo e qual o seu papel?A 15 de setembro de 2008, aproximadamente às duas da manhã, o Lehman Brothers avançou com o chapter 11, ou seja a declaração de restruturação sob a supervisão de um tribunal. A minha firma atuou como responsável pelo processo de falência do banco e eu como advogado de defesa.Na sua perspetiva, o que correu mal? Porque faliu o Lehman?A falência do Lehman é o resultado da confluência de vários fatores. A alavancagem foi um deles, porque como havia acesso fácil ao crédito o Lehman conseguiu emprestar quantias avultadas de dinheiro ao mesmo tempo que usava crédito de curto prazo para financiar investimentos de longo prazo. A reduzida regulação e supervisão foi outro fator decisivo, uma vez que os vários anos de uma regulação relaxada em nome do mercado livre permitiu o excesso de empréstimos e o assumir de riscos elevados. A contração económica mundial, com a crise do subprime, e a escalada dos preços do petróleo, também deterioraram os mercados e minaram a confiança dos investidores. Outro motivo decisivo foram os próprios programas de controlo de risco flexíveis do Lehman que levantaram dúvidas quanto à possibilidade de as instituições financeiras serem demasiado grandes para serem geridas inteligentemente. Os produtos exóticos e esotéricos também eram difíceis de compreender e confundiam os investidores. Por fim, a falta de confiança no Lehman e o colapso do Bear Stearns também foram decisivos.Quais foram os efeitos do colapso na economia e no sistema financeiro norte-americano?O arranque do processo foi a faísca que fez deflagrar a turbulência nos mercados e nas economias mundiais. A falência chocou os mercados e resultou numa forte redução do valor que, sem a intervenção do Tesouro norte-americano, poderia ter resultado numa depressão mais severa. Mesmo com a intervenção, os resultados foram os visíveis. O mundo ainda não recuperou totalmente dos efeitos dos acontecimentos de setembro de 2008. O evento revelou os defeitos no sistema de regulação e a ganância das instituições.O Governo e a Fed não deveriam ter deixado o Lehman falir?Foi um erro colossal da parte dos Estados Unidos, do Tesouro e da Reserva Federal, deixar o Lehman colapsar e apresentar falência. Poderia ter sido tomada uma ação apropriada para uma falência ordenada sem o choque que representou o colapso total. A falência foi o resultado de um erro grave de cálculo do secretário do Tesouro, Henry Paulson. Concluiu que os mercados, após a falência do Bear Stearns, antecipavam que o Lehman era o próximo a cair e, por isso, prepararam a sua falência e colapso. A conclusão foi totalmente errada. De facto, o chamado "resgate" do Bear Stearns, foi o pretexto para os mercados concluírem que se o Lehman atingisse o ponto de colapso, que a intervenção do governo estaria assegurada.Como descreve o presidente do Lehman em termos pessoais e profissionais?Richard Fuld era o presidente que estava há mais tempo à frente de um banco de investimento norte-americano. Tinha tido uma carreira cheia de sucesso e superado muitos obstáculos. Tinha a reputação de ser um banqueiro agressivo e altamente competitivo, mas foi durante o seu reinado, o Lehman cresceu exponencialmente. Fuld já afirmou em tribunal que não sabe o que deveria ter feito para evitar a falência do Lehman.

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