Ciclotimia é um transtorno do humor. Assemelha-se ao transtorno bipolar, mas é mais leve, o que não deixa de ser uma pedra no sapato na vida de quem sofre dele (ou de quem convive com os ciclotímicos).
O Brasil é um país ciclotímico. Está aí mais uma herança portuguesa. Lá como cá vai-se de bestial a besta, ou de besta a bestial em questão de segundos.
Afundados numa crise de autoestima tremenda, os brasileiros tinham a certeza de que as Olimpíadas do Rio seriam uma vergonha de escala planetária. Em vez de uma grande festa, estavam preparados para um enterro (digamos que os serviços do funeral começaram dois anos antes, quando o Brasil levou de sete a um da Alemanha).
Porém, entretanto, contudo, bastaram os primeiros fogos de artifício estalarem na cerimónia de abertura dos jogos no Maracanã para desabar uma tempestade de Prozac na cabeça dos brasileiros.
O escritor Nelson Rodrigues dizia que o Brasil sofria de um complexo de vira-lata (cão rafeiro em brasilês). Nas palavras do próprio Nelson: “Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.
A expressão foi cunhada após a derrota do Brasil frente ao Uruguai na final do campeonato do mundo de 1950 em pleno (sempre ele) Maracanã. Mais do que impressas em papel de jornal, tais palavras ficaram tatuadas na alma. Uma vez rafeiros, sempre rafeiros.
Ou não. Quando Gisele Bundchen, ao som de “Garota de Ipanema”, desfilou numa passarela de 128 metros no gramada do maldito/bendito estádio, 200 milhões de brasileiros desfilaram juntos. E sentiram-se bonitos como a escultural modelo.
Sabemos bem o que é isto. Quando há semanas nos tornámos campeões europeus até Camões sambou no Panteão.
Ou como diria o meu Tio Olavo: “Somos todos bestiais. E quem duvidar disto é uma grande besta”.
Edson Athayde escreve todas as sextas no Dinheiro Vivo.