Hotéis já contratam para o verão a pagar mais, mas pedem alívio fiscal e acesso à imigração

Dificuldades na contratação de recursos humanos leva hoteleiros a antecipar recrutamento para a época alta. Empresários dizem que impostos sobre os vencimentos são entrave à competitividade e pedem "descomplicação" da imigração para ajudar a resolver entraves.
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A época alta do turismo está ainda a vários meses de distância mas, para as empresas hoteleiras, esta é a altura para começar a arrumar a casa. Os desafios do verão não são novos e a dificuldade em preencher as vagas para a operação volta ser uma das maiores dores de cabeça. A escassez de recursos humanos no turismo continua a ser indicado pelos gestores como o maior entrave ao negócio e as últimas contas do governo apontam para a falta de cerca de 50 mil trabalhadores no setor.

A antecipação faz parte da estratégia e vários são os grupos hoteleiros que estão já a contratar. Os hotéis da marca Tivoli Hotels & Resorts, que pertence ao grupo tailandês Minor, e que soma 16 unidades em Portugal, arrancou este mês com um roadshow de recrutamento para preencher 500 vagas. A maioria (300) destina-se à região do Algarve onde irá inaugurar, em março, um novo hotel, o Tivoli Alvor Algarve Resort.

Aposta idêntica é feita pela United Investments Portugal (UIP), dona do Pine Cliffs Resort, do Sheraton Cascais ou do Hyatt Regency Lisboa, que quer contratar 385 profissionais. "Várias destas vagas são para entrada imediata e também com continuidade, além do efeito da sazonalidade. Mas a maioria, pelo efeito do Algarve, serão posições sazonais", enquadra o diretor de Recursos Humanos do grupo. Jaime Sarmento admite que, este ano, a UIP irá precisar de mais trabalhadores face a 2022, não só pelas perspetivas otimistas da operação, mas porque o portefólio cresceu.

Também a Unlock Boutique Hotéis (UBH), que prepara novas aberturas para os próximos meses, espera receber mais hóspedes em 2023 atingindo recordes de operação a partir de março. O grupo de hotéis boutique precisará de preencher 100 posições este ano, mas a tarefa não será fácil. "As áreas operacionais são as mais difíceis e críticas de preencher. Sem as operações não temos negócio, nem hotéis. As dificuldades são extremas, a formação muito baixa e a própria motivação nunca foi tão pouca", aponta o CEO Miguel Velez. As oportunidades de emprego para posições como cozinha, bar, restauração ou housekeeping são as menos atrativas e as que mais custam a preencher. "São as funções onde o desafio do saudável equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é mais complicado de se conseguir, face às exigências funcionais da indústria", justifica Jaime Sarmento.

O responsável admite que o turismo "sempre foi desafiante na sua atratividade" quer pela falta de perspetivas de carreira oferecidas quer pela fraca "competitividade do setor na valorização e reconhecimento das suas profissões.
Também a Amazing Evolution, que admite nesta altura uma "procura interessante" para os meses de verão, tem 25 vagas em aberto.

Hotéis aumentam salários
As remunerações afetas às funções menos populares no turismo são apontadas como um dos principais fatores de falta de atratividade. Mas os hotéis negam que este seja o problema e asseguram já estar a pagar acima do mínimo definido por lei. "Na sua contratação, o PortoBay não paga salário mínimo a ninguém e vamos prosseguir com esta política de manter o diferencial positivo em relação ao salário mínimo", assegura o administrador de RH do PortoBay Hotels & Resorts, André Caldeira. Os empresários confirmam que a subida do salário mínimo nacional (SMN), que se fixa em 760 euros a partir deste mês, não belisca a gestão financeira das empresas.

"Nesta indústria, e pelo menos nos grandes grupos, o impacto do aumento do salário mínimo não é significativo, pois já há algum tempo que estes grupos fugiram de terem o salário mínimo nacional implementado. Têm os seus salários mínimos normalmente superiores ao nacional", indica o porta-voz da UIP.

Os dois maiores grupos hoteleiros do país são exemplo desta política. O Pestana, cujo portefólio ultrapassa já as 100 unidades, vai subir o salário base dos seus trabalhadores 15% acima do SMN até ao final do primeiro trimestre.
Em 2022 a empresa tinha implementado uma retribuição mínima de 750 euros. Também a Vila Galé, que ocupa a segunda posição a nível nacional no ranking das maiores empresas hoteleiras, vai puxar as remunerações da equipa em 11% e irá ainda fixar um salário mínimo de 900 euros.

Baixar impostos e descomplicar a imigração
Salários mais elevados traduzem-se em encargos fiscais maiores para as tesourarias das empresas. Os gestores hoteleiros alertam para o peso dos impostos num ano em que se somam outros problemas à fatura, como a escalada da inflação e a consequente perda do poder de compra dos consumidores que pode ameaçar a operação.

"A carga fiscal sobre os salários é grande em Portugal e baixar estes impostos é uma forma de aumentar os salários líquidos que, no fundo, é o que interessa às pessoas, mas sem sobrecarregar o custo bruto, que é o que interessa às empresas", pede André Caldeira.

O pedido é partilhado pelo diretor de RH da UIP que considera ser um desafio "muito grande" empresas do turismo conseguirem ser "competitivas globalmente, com a atual estrutura de custos legais inerentes ao trabalho das pessoas". "O esforço que uma empresa em Portugal tem que fazer para conseguir colocar na conta bancária do profissional uma verba líquida atrativa e que o valorize é exageradíssimo", lamenta Jaime Sarmento. Além de uma mexida nos impostos, o gestor considera urgente que o governo facilite a imigração para ajudar a mitigar a falta de mão-de-obra.

"A flexibilização de entrada de profissionais estrangeiros em Portugal deveria ser legislada como deve ser. Foi feito um pequeno esforço no ano passado, mas foi pequeno", refere, adiantando que a UIP tem, atualmente, programas em desenvolvimento para recrutamento no estrangeiro para as posições sazonais.

A integração de trabalhadores de outras nacionalidades é também prática no PortoBay que acredita ser essencial que "Portugal aceite mais imigrantes seja para o setor do turismo seja para outros". "Descomplicar a imigração é um tema que já está na agenda do governo. Resta esperar que a velocidade da máquina do Estado para resolver esta situação seja suficiente e em tempo útil de ser efetivamente benéfico para as empresas", remata André Caldeira.

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