As doenças têm um impacto significativo em várias dimensões da vida humana, incluindo a saúde física e mental. Para além do impacto direto no estado de saúde da pessoa doente, existe um conjunto alargado de impactos noutras dimensões, frequentemente mais difíceis de observar ou de quantificar.
Por um lado, existe um impacto financeiro direto nos próprios doentes e nos seus cuidadores. Este impacto advém do facto do tratamento médico implicar despesas diretas pagas pelas famílias - por exemplo, despesas feitas no sistema de saúde (copagamento de medicamentos nas farmácias, acesso a serviços de saúde privados,...) ou gastos associados à ida ao sistema de saúde (transporte, alimentação,...). Por outro lado, existe também um impacto indireto, através do efeito na produtividade. Maiores períodos de ausência ao trabalho devido à doença, quer da própria pessoa doente ou dos seus cuidadores, implicam perdas de produtividade da economia.
A avaliação integrada destes impactos, ainda que difícil, é fundamental para permitir a tomada de decisões eficazes que contribuam para a prevenção e tratamento das doenças, minimizando os seus impactos negativos. Neste contexto, os estudos de impacto económico revestem-se de particular importância. No caso das infeções respiratórias em crianças, como o caso do VSR, esses estudos são particularmente importantes, uma vez que as crianças são um grupo particularmente vulnerável da população, e que os seus cuidadores são também diretamente afetados.
As infeções respiratórias são comuns em crianças, podendo levar a hospitalizações, perda de dias escolares, e ausências dos pais do trabalho. Por isso, o impacto económico dessas doenças é significativo, não apenas em termos de despesas diretas (médicas e não-médicas), mas também em termos de perda de produtividade.
Neste sentido, a Associação Portuguesa de Economia da Saúde associou-se ao projeto "ThinkTank - Inspirar a Mudança", iniciativa da Sanofi, dinamizado pela Moai Consulting. Este Think Tank teve como objetivo refletir sobre a problemática associada às infeções respiratórias. Uma das dimensões abordadas foi precisamente a necessidade de uma visão mais abrangente, para além dos impactos diretos no estado de saúde das crianças e no desempenho do sistema de saúde.
A ausência de evidência científica detalhada sobre os impactos económicos associada a estas infeções coloca um desafio às extrapolações que podem ser feitas, reforçando a necessidade de se complementar os estudos das doenças com os respetivos impactos económicos. Neste sentido, durante o Think Tank, foram também discutidos resultados preliminares de um inquérito realizado a cuidadores de crianças com infeções respiratórias, de modo a aferir o seu impacto económico.
Os resultados do questionário demonstraram um custo escondido, assumido diretamente pelas famílias e pela sociedade - que não é diretamente traduzido nas despesas do sistema de saúde. Apesar das limitações da análise realizada, identificou-se um elevado impacto económico e psicossocial das infeções por VSR. De facto, estima-se que as despesas diretas em tratamentos farmacológicos, refeições e deslocações possam ascender a cerca de 90€ por cada infeção respiratória. Para além dos pagamentos diretos, o absentismo dos cuidadores associado a cada infeção foi estimado em cerca de 150€. Estes custos, muitas vezes não facilmente observáveis, tendem a afetar desproporcionalmente as famílias com menores rendimentos.
No caso das infeções respiratórias em crianças, como o VSR, bem como no caso de muitas outras doenças, o desenvolvimento de estudos de impacto económico abrangentes é condição necessária para o desenvolvimento de medidas que permitam mitigar os impactos negativos das doenças - impactos esses que extravasam os sentidos diretamente no sistema de saúde.
Eduardo Costa, Professor e Investigador, Nova School of Business and Economics// Presidente, Associação Portuguese de Economia da Saúde