Há uns dias, ao escrever um artigo de opinião sobre a capacidade de "fazer acontecer" em contextos de fortes condicionalismos, lembrei-me de três situações em que fui confrontado com esta realidade e tive a oportunidade de contrariar o resultado expectável.
Por limitação de caracteres, apenas referi uma das situações e, por isso, neste artigo, partilho as duas restantes com o objetivo de contribuir para a reflexão sobre a inércia ou a desresponsabilização face à ausência de recursos.
Portugal Expo 2020 Dubai
Enquanto evento de celebração da humanidade, as Exposições Universais representam um palco de excelência para um país se apresentar ao mundo, sendo que a última destas exposições, a Expo 2020 Dubai, teve ainda a particularidade de ser a primeira a ser realizada no Médio Oriente e durante uma pandemia.
Desde o início da missão como Comissário-geral, assumi esta exposição como uma oportunidade privilegiada para promover a capacidade de Portugal em acolher, integrar, influenciar e ser influenciado por outras culturas, sendo um país reinventado e multicultural, tal como ficou refletido no tema que definimos: "Portugal - Um Mundo Num País".
Contudo, na concretização desta visão, surgiram todos os tipos de obstáculos possíveis, desde logo pela inexistência de estrutura organizativa, equipa, orçamento ou visão estratégica e, inevitavelmente, pelos fortes condicionalismos na captação e utilização de financiamento público, tudo isto num contexto de pandemia e de forte competição entre países.
Apesar disso, e sem recorrer a esse financiamento, foi possível convencer 5 países da CPLP a realizar a 1.ª edição de um Festival da Língua Portuguesa numa exposição universal, traduzir e editar, pela primeira vez na história, Os Lusíadas (1572) e Mensagem (1934) em árabe, incluir a lenda "Sopa da Pedra de Almeirim" na coletânea Children"s Tales From Around The World, ou integrar uma escultura de Bordalo II no pavilhão de Portugal.
Associação StartUP Portugal
Em 2016, o Governo atribuiu à Portugal Ventures a responsabilidade de assegurar a dinamização de uma estratégia nacional de empreendedorismo, em simultâneo com a missão de operador público de capital de risco. Contudo, esta atribuição enfrentou enormes desafios na sua implementação, de caráter regulatório, organizacional e orçamental, com destaque para a impossibilidade de acesso a financiamento, quer por via do Orçamento do Estado (OE2016), quer por via das receitas geradas pelas comissões de gestão dos fundos geridos pela Portugal Ventures.
A solução foi criar uma associação privada sem fins lucrativos com capacidade técnica, operacional e financeira para aceder a fundos comunitários, em especial nos domínios da competitividade e internacionalização, possibilitando assim que esta nova entidade pudesse assumir a função de agência nacional de empreendedorismo.
Ao fim de um ano, a missão estava concluída e os órgãos sociais eleitos. Desde então, tem sido a Associação Startup Portugal a entidade responsável pela dinamização das principais iniciativas de ativação do ecossistema empreendedor e, mais recentemente, beneficia de 125 milhões de euros para apoiar esse ecossistema.
Os resultados descritos nestes exemplos devem-se tanto à ousadia de aceitar missões que parecem ser impossíveis de concretizar, quanto à coragem e resiliência incomuns das equipas que aceitaram integrar estas missões, correndo riscos, assumindo divergências e exprimindo convicções. E isso, como todos sabem, tem um preço.
A todos os fazedores do impossível, espero que nos momentos mais difíceis deste tipo missões encontrem algum conforto nos feitos e nas sábias palavras de tantos que nos antecederam, até porque, na adversidade, enquanto uns desistem, outros batem recordes.
O impossível é uma escolha difícil. Mas não se esqueçam que lá a concorrência é menor.
Celso Guedes de Carvalho, empreendedor