Alguns, poucos, analistas e “opinion makers” defenderam que, após o sucesso inicial de combate à epidemia e com o processo gradual de desconfinamento, deveríamos passar a olhar mais para a evolução do número de pessoas hospitalizadas em geral, e em cuidados intensivos em particular, do que propriamente para o número de pessoas infectadas com o covid-19. Essas opiniões não tiveram grande eco e as autoridades de saúde, tal como o Governo, com o apoio da maioria da oposição, continuam a debitar números e a centrar mais as suas atenções no número de infectados.
Julgo que o desconfinamento vai fazendo o seu caminho para se tornar de todo irreversível visando, por um lado, atenuar a crise económica e social instalada, que se vai agravando, e por outro lado, contribuir para a criação duma imunidade de grupo possível que possa atenuar os impactos das eventuais vagas seguintes do coronavírus, que altos responsáveis políticos já têm dado como certas.
Creio que no respeito das principais medidas sanitárias e de distanciamento social que vão sendo sugeridas pelo Ministério da Saúde se poderia e deveria ter ido bem mais longe em termos de desconfinamento em diversas áreas, a começar pela abertura das escolas em geral, incluindo as que só vão voltar a abrir, na melhor das hipóteses, em Setembro ou Outubro.
Tudo isto num contexto em que os grupos de risco tomassem as medidas mais adequadas, que têm sido sugeridas, para não colocarem a sua vida e a de outros em risco e aumentasse ainda mais o número de testes em certos grupos sociais.
Muitos dirão que uma tal perspectiva, a ser seguida, poria em causa muitas vidas humanas e muito sofrimento.
O que atendendo à evolução dos números totais de mortos, e à sua análise mais burilada, bem como à dimensão do país, nos parece muito demagógico! Isto sem colocar em risco o natural aumento, limitado porque controlado, que um maior desconfinamento acarretaria.
Parece que sofrer e morrer de outras causas e doenças, incluindo outros tipos de gripes, que todos os anos dizimam milhares de pessoas, muitas delas também idosas e em estado debilitado, mas que provocam ainda mais sofrimentos e mortes, passou para o plano secundário, ofuscadas pela nova doença apenas porque esta tem a especificidade de se propagar com maior facilidade.
Será claro para todos que a recuperação mais rápida duma economia degradada e dos extractos sociais mais fortemente atingidos, fazendo ao mesmo tempo com que se aumente a imunidade de grupo, obrigaria a esforços adicionais e o Governo a correr maiores riscos.
O Governo poderia começar por promover conferências de imprensa ao final da semana, em que se apresentaria o balanço semanal do Ministério da Saúde, em vez de conferências diárias, onde se continua a fustigar os portugueses com uma profusão de números que baralham, amedrontam e deprimem muito mais do que esclarecem.
Por outro lado, e obviamente sem ocultar a evolução do número de infectados, deveria ser dada uma maior ênfase, e mais detalhes técnicos, à evolução do número de hospitalizados e de quem teve de recorrer aos cuidados intensivos em resultado desta doença.
Dados como a evolução da capacidade global instalada para acolher os infectados nos hospitais, incluindo nos cuidados intensivos, a evolução da saúde dos que aí foram acolhidos ou a evolução comparada com as mortes totais registadas no país em relação a anos anteriores, quer em resultado do covid-19 quer por outras causas, ajudariam a “relativizar” o problema que em conjunto estamos a enfrentar, colocando nos termos devidos alguns “exageros e contradições” a que temos assistido.
Note-se que nos últimos 90 dias poderão ter falecido cerca de 27 mil portugueses (admitindo a taxa de mortalidade bruta de 11 por mil de 2018), dos quais cerca de 6% de coronavírus, sendo quase 70% destes com mais de 80 anos.
Desde o início desta situação e para uma população de 10,5 milhões de pessoas, com as medidas que foram tomadas, tivemos 344 mil pessoas dadas como suspeitas de estarem infectados (cerca de 3% da população), cerca de 36 mil efetivamente infectadas, dos quais pouco mais de 1600 viriam a falecer.
Continuo com dificuldade em compreender as grandes preocupações, ao mais alto nível da sociedade, se numa qualquer semana se registam mais 2 mil infectados mas, ao mesmo tempo, o número de hospitalizados e nos cuidados intensivos estabilizaram ou baixaram mesmo, e por vezes de forma significativa.
Num contexto de tão grande necessidade de recuperação económica e social e da necessidade do reforço da construção, ainda que “controlado”, da imunidade do grupo, que somos todos nós, qual o drama da haver, hipoteticamente, mais 100 mil infectados se apenas uma minoria deles, necessitar de assistência hospitalar, como actualmente acontece, deixando uma enorme margem de manobra aos hospitais e ao sistema em geral para poderem vir a acolher novos doentes?
E se descontarmos as mortes de pessoas com mais de 80 anos, em que pouco ou nada mais poderia ter sido feito pelas autoridades de saúde para as evitar, por razões bem conhecidas, restariam cerca de 500 vítimas mortais resultantes directamente, e não indiretamente, desta pandemia global.
António Duarte Pinho, economista