Inflação: 2023 Anuns Horribilis

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Depois de décadas de baixa inflação, taxas de juros reduzidas, crescimento anémico, a Europa vê-se hoje confrontada com uma inflação elevada, taxas de juro em maré de subida, empobrecimento da maioria da população e risco de uma recessão. Que erros de política económica levaram a este desastroso resultado?

O primeiro grande erro foi a política de combate à pandemia. Ao contrário da China com a sua estratégia de Covid zero o Ocidente permitiu que a doença se espalha-se o que levou, depois, a confinamentos parciais sucessivos e desarticulados que transformaram a pandemia numa endemia. Esta decisão dos governos ocidentais levou à interrupção das cadeias de valor da produção de grande número de bens. Com a disrupção das cadeias de valor, matérias-primas, matérias subsidiárias e bens intermédios tornaram-se escassos (porque produzidos em país em confinamento ou por dificuldade de transporte) e, consequentemente, mais caros despoletando um vaga inflacionária. Esta primeira onda de inflação não foi combatida porque as autoridades europeias pensaram, erradamente, que com o fim da pandemia, que se ainda não se concretizou, as cadeias de valor voltariam ao normal.

O segundo erro flui das lições que as autoridades ocidentais tiraram das interrupções das cadeias de valor de produtos estratégicos. Sentiram que tinham uma vulnerabilidade que devia de ser eliminada trazendo as atividades críticas das cadeias de valor, incluindo a produção industrial que estava deslocalizada, para os seus países. Naturalmente não é o mesmo produzir no Vietname ou na Malásia do que nos Estados Unidos ou na Alemanha. Assim o custo de muitos produtos subiu, alimentando a inflação.

Contudo, esta fase, que alguns chamam de re-industrialização ou desglobalização não se consegue levar a cabo de um dia para o outro, sendo um processo lento que ainda está em curso. Esta fonte de inflação não vai desaparecer tão cedo.

O terceiro grande erro foi a política levada a cabo na Ucrânia desde 2014 e as falsas ilusões e promessas criadas a todos os lados do conflito com o acordo de Minsk. Desfeitas as ilusões temos uma guerra demorada, destruidora e mortífera. A guerra na Ucrânia concorreu para a inflação e escassez de alguns bens como o trigo e outros. A sua persistência gera ainda mais inflação.

O quarto erro foi a escolha de sanções económicas contra a Rússia. Os produtos selecionados, a energia, foram os que mais diretamente afetaram a economia europeia e menos a economia Russa que encontrou mercados alternativos. Um verdadeiro tiro no pé, com consequências duradouras na economia da Alemanha, da França e da Itália que são os motores económicos da União Europeia. Também essa escolha de sanções veio alimentar a inflação e reduzir drasticamente o crescimento económico.

Temos, assim, uma sucessão de erros políticos feitos pelos responsáveis ocidentais que está a acelerar o declínio da Europa, a arrastar as populações europeias para um empobrecimento sistemático, a reforçar a emergência chinesa e a colocar o mundo perante a eminência de uma guerra nuclear.

Persistir nestes erros, como está a ser feito, tem tudo para correr mal. O ano de 2023 perspetiva-se, assim, como um annus horribilis, com muita infelicidade e muitas desgraças. Bem gostava de estar enganado.

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