A inflação continua muito elevada em Portugal, tendo o Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmado ontem que em novembro os preços do cabaz dos consumidores subiu 9,9% em novembro face ao mesmo mês de 2021.
Os preços finais de vários bens e serviços ligados ao turismo, vestuário, brinquedos, restaurantes, combustíveis para o automóvel e gás são alguns dos itens do cabaz-tipo dos consumidores portugueses, estando ainda muito mais caros do que há um ano, parecem ser agora os que mais corrigem em baixa, ajudando assim a aligeirar a taxa nacional, ainda que devagar e pouco.
No entanto, os números do INE sinalizam que a inflação, que continua em máximos de décadas, pode estar finalmente a quebrar a trajetória explosiva que pautou os últimos meses.
De acordo com um levantamento do Dinheiro Vivo, a taxa de inflação total nacional medida em termos homólogos registou uma ligeira quebra de duas décimas em novembro.
Em outubro atingiu um recorde de 10,1% (o valor mais elevado desde maio de 1992), mas novembro essa mesma taxa anual abrandou em duas décimas, a maior descida desde junho de 2021, estava a economia portuguesa a reerguer-se da devastação da pandemia e dos confinamentos.
Na lista com mais de uma centena de bens e serviços específicos que compõem o cabaz normalizado de referência dos consumidores, a maior travagem acontece nos preços do transporte aéreo de passageiros com uma quebra de 25 pontos percentuais na respetiva inflação face ao patamar recordista de outubro. A subida em novembro foi assim de 12,8%, um valor elevado e que é mais do dobro da média da inflação total apurada no mês passado.
A segunda maior descida face a outubro (estamos a falar apenas de taxas homólogas) acontece nos serviços de alojamento, com uma redução no ritmo de cerca de 12 pontos percentuais. Ainda assim, a inflação do alojamento foi de quase 30% em novembro.
No caso dos "combustíveis líquidos (para aquecimento)", a suavização no ritmo da inflação foi de quase nove pontos percentuais, colocando a subida de preços nos 30% em novembro.
A rubrica "férias organizadas" também arrefeceu, com uma descida na respetiva inflação de oito pontos percentuais, para 15,6% em novembro.
A inflação nos "combustíveis e lubrificantes para transporte pessoal" foi de quase 11%, mas este valor recua cerca de cinco pontos percentuais face à taxa registada em outubro.
No gás, a inflação está nuns monumentais 73%, mas recuou ligeiramente face a outubro (menos 1,6 pontos).
O preço associado ao consumo em "restaurantes e hotéis" avançou suas 13%, mas registou uma moderação de 3,5 pontos percentuais face à inflação de outubro.
Vários agentes do setor do turismo têm vindo a público confirmar que em novembro a atividade começou a enfraquecer pouco a pouco, mas isto depois de vários meses (especialmente no verão) de faturação explosiva.
Outro efeito que pode estar a afetar a inflação, puxando-a para baixo, é a proximidade do Natal e as campanhas de descontos agressivos (como as iniciativas black friday), que marcaram o mês passado.
A inflação nos telefones e telemóveis caiu cerca de três pontos percentuais, para 2,9% em novembro.
No conjunto "jogos, brinquedos e artigos para recreação e lazer", os preços estão a cair (inflação negativa de 0,5% em novembro), tendo afundado 2,4 pontos face a outubro.
Os "equipamentos de som e imagem", onde pontificam as televisões, por exemplo, estão quase 10% mais baratos agora do que em novembro de 2021, sendo que esta inflação regista uma perda de dois pontos percentuais face a outubro.
A crise inflacionista e energética também afetou, como se sabe, o custo da alimentação.
O INE mostra que um dos produtos cuja inflação mais quebrou entre outubro e novembro foi a dos "produtos hortícolas". Ainda assim, a subida de preços nestes bens essenciais supera os 24%, menos um ponto percentual do que em outubro.
O vestuário também está mais em conta. A inflação neste item foi de apenas 1,9% no mês passado, menos um ponto percentual comparativamente à marca de outubro.
BCE sobe taxas, mas de forma menos agressiva
Hoje, o Banco Central Europeu (BCE) deverá subir novamente as taxas de juro para tentar deter a inflação europeia, mas vários economistas referem que a subida deve ser mais moderada.
O observatório dos bancos centrais do gabinete de estudos do BPI refere que "a inflação da zona euro mostrou os primeiros sinais positivos ao desacelerar para 10% homólogo (10,6% em outubro), enquanto a inflação subjacente (que exclui a volatilidade alimentar e energética) estabilizou em 5%".
"A moderação foi ampla nos principais países e dá ao BCE algum espaço de manobra para abrandar o ritmo das subidas de taxas", dizem os analistas.
Assim, na sua reunião de hoje, "esperamos que o BCE volte a aumentar as taxas de juro, pressionado por uma inflação indesejável e persistentemente elevada", mas com menos agressividade.
"Após duas subidas consecutivas de 0,75 pontos percentuais, esperamos um aumento de 0,5 pontos nas taxas oficiais para 2% (taxa de depósitos) e 2,5% [taxa de refinanciamento, a referência principal]."
Segundo esta equipa de economistas do BPI, "entre os fatores que justificam esta moderação no ritmo de subida, destacamos: (i) o arrefecimento da atividade económica e (ii) o facto de o aperto monetário ter sido muito substancial (mais 2,5 pontos desde julho, incluindo os 0,5. em dezembro) e precisar de tempo para ser transmitido à economia como um todo".
"Esta semana é também provável que o BCE anuncie as linhas gerais para reduzir os reinvestimentos relativos ao programa de compra de ativos APP", acrescentam.
"Este processo poderia começar algures no segundo trimestre de 2023 e deveria ser gradual e previsível. Por exemplo, se o BCE seguisse uma estratégia semelhante à da Fed, fixaria um limite de vencimentos mensais que não seria reinvestido, um limite que poderia ser gradualmente aumentado", diz o estudo do BPI.
"Por exemplo, o BCE poderia deixar vencer 15 mil milhões nos primeiros três meses, 30 mil milhões nos três meses seguintes... até que 100% dos prazos de vencimento não sejam reinvestidos. Isto reduzirá a dimensão do balanço do Eurossistema ao longo de 2023 e ajudará a apertar as condições monetárias e, indiretamente, a mitigar o risco de perdas do banco central."