

Por trás do ruído das ausências de Jack Grealish, do Manchester City, e de James Maddison, do Tottenham, da lista final de 26 jogadores da seleção da Inglaterra, que entra neste domimgo em campo frente à Sérvia, uma constatação: há entre os eleitos pelo treinador Gareth Southgate tantos atletas dos famosos big six, os citados Cityzens e Spurs, o Manchester United, o Arsenal, o Liverpool e o Chelsea, como dos demais clubes da Premier League. Mais: é o Crystal Palace, 10.ª da classificação em 2023/24, o mais representado no total, com quatro jogadores.
Se mais provas fossem necessárias, eis a definitiva de que a Premier League é um campeonato a vender saúde, onde cada clube, mesmo os não tão grandes, dispõe de craques capazes de chegar aos 26 finais de Southgate. Além do referido Palace, o Newcastle e o Aston Villa têm dois representantes, o Everton um, o Brentford também um, o Brighton mais um e o West Ham, outro.
Voltando aos big, o Tottenham não foi lembrado pelo selecionador inglês, Chelsea, Liverpool e United emprestam dois à seleção e City e Arsenal, o duo que lutou pelo título até à última jornada, três cada.
Os dois jogadores finais são as estrelas Harry Kane, do Bayern, e Jude Bellingham, do Real Madrid. Aliás, esse número, dois em 26, representa o valor mais baixo, 7,7%, de atletas a atuarem fora de portas nas seleções do Euro. Por comparação, na seleção de Portugal 76,9% dos selecionados jogam no estrangeiro. Na Dinamarca e na Albânia são 100%.
E não é só a Premier League que demonstra estar saudável: dos 26 escolhidos, 19 tiveram passagens, mais ou menos recentes, pelo Championship, a segunda divisão inglesa e sexta liga mais valiosa do planeta, acima da holandesa, sétima, e da portuguesa, oitava, ou campeonatos ainda mais abaixo da pirâmide do futebol inglês.
As anteriores convocatórias de Southgate, para os mundiais de 2018 e 2022 e Euro de 2020, não tinham sido tão democráticas quanto esta.
O sistema em vigor no futebol inglês é, pois, democrático - mas também capitalista, claro. “A equipa de Southgate até pode mostrar a importância da base da pirâmide, mas em breve os grandes vão caçar esses 12 talentos que ainda não estão sob a sua alçada”, lembra Steve Price, colunista da revista Forbes.
Não se pense, entretanto, que por ter jogadores de clubes de classe média, o valor total da seleção inglesa diminuiu. Não, a Inglaterra encabeça a lista das mais valiosas do Euro com 1,52 mil milhões. Aliás, só os Three Lions e as seleções francesa e portuguesa superam a barreira dos mil milhões de euros, segundo o site especializado nos negócios do futebol Transfermarkt. Espanha, Alemanha, Holanda e Itália, todas avaliadas acima de 700 milhões, completam o lote de sete seleções (muito) milionárias. À frente do restante pelotão, a Bélgica, mas com os 26 jogadores avaliados abaixo de 600 milhões.
Por curiosidade, as demais seleções do grupo de Portugal ocupam a 12.ª, Turquia, a 18.ª, República Checa, e a 20.ª, Geórgia, posições mais caras na lista das 24.
Com todos estes dados a seu favor, como a Inglaterra deve encarar uma prova que nunca ganhou? “Com Harry Kane, Phil Foden, Bukayo Saka e Jude Bellingham, só para nomear alguns, com épocas incríveis nos seus clubes, Inglaterra será uma das mais temidas seleções, a melhor forma de encarar o torneio, por isso, será tudo ao ataque”, defende Karen Carney, articulista do The Guardian.
“Será?”, questiona David Hytner, no mesmo jornal, “sem lateral esquerdo, centrais não testados e incerteza sobre se alguns jogadores já estão prontos, há muitas preocupações defensivas...”.
Enfim, mesmo rica e saudável, a Inglaterra continua bipolar.